Conheça Christus Nóbrega, confirmado em Constelações Contemporâneas
Christus Nóbrega é um dos artistas que integram a exposição inédita Constelações Contemporâneas da Cena Artística de Brasília, do Metrópoles
atualizado
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Com uma produção marcada pelo cruzamento entre autobiografia, história social e crítica institucional, o artista Christus Nóbrega está confirmado na mostra Constelações Contemporâneas da Cena Artística de Brasília, do Metrópoles Arte. Professor da Universidade de Brasília (UnB), ele constrói uma trajetória em que experiências pessoais se transformam em ferramentas para discutir disputas simbólicas, exclusões e os limites entre ficção e documento no campo da arte contemporânea.
Entenda
- Christus Nóbrega é artista e professor do Departamento de Artes Visuais da UnB
- Sua obra parte de vivências pessoais para abordar memória coletiva e política
- Trabalha de forma transdisciplinar, com fotografia, vídeo, performance e IA
- Investiga o espaço expositivo como parte ativa da obra
Natural da Paraíba, Christus Nóbrega mudou-se para Brasília em 2005, quando ingressou no mestrado em Artes na Universidade de Brasília. Na sequência, realizou o doutorado e passou a integrar o corpo docente da instituição. Ao longo dessa trajetória, consolidou uma pesquisa artística atravessada pelo deslocamento — geográfico, simbólico e afetivo — e pelo trânsito entre o íntimo e o público.
Em sua produção, episódios vividos pelo próprio artista funcionam como ponto de partida, mas nunca como relatos isolados. “O trabalho nasce do deslocamento da vida privada para o campo público, do afeto para a política”, explica. A partir desse movimento, Christus propõe reflexões sobre apagamentos históricos, mecanismos institucionais de validação e os limites impostos a corpos dissidentes.

A escolha das técnicas acompanha essa lógica aberta. O artista atua de forma deliberadamente transdisciplinar, utilizando fotografia, vídeo, performance, instalação, livros de artista, objetos e, mais recentemente, inteligência artificial. Mais do que a técnica em si, o que orienta sua prática é o atrito entre linguagens e materiais, muitas vezes carregados de história, como documentos, vestígios e objetos institucionais. “São materiais que já trazem conflitos embutidos”, afirma.
O processo criativo é conduzido pela pesquisa e, frequentemente, pela experiência da residência artística. Para Christus, a residência funciona como um tempo de imersão em um território específico, em que a convivência, a escuta e o contato direto com o contexto local moldam a forma final da obra. Mesmo fora dessas experiências formais, ele se mantém em estado permanente de deslocamento, transformando o ateliê em um espaço expandido, que pode ser uma praça, um museu, uma biblioteca ou um banco de dados.
Transformou o preconceito em arte
O diálogo com o espaço expositivo é central em sua produção. Para o artista, nenhum espaço é neutro. Em projetos anteriores, como a exposição Floricultura, apresentada no Supremo Tribunal Federal (STF), o local não apenas abrigou as obras, mas foi diretamente implicado por elas. O trabalho nasceu de uma experiência pessoal: a proibição de doar sangue ao pai por ser homossexual, em razão de uma portaria então vigente do Ministério da Saúde.
A partir dessa interdição, Christus coletou o próprio sangue e o transformou em tinta para impressora, utilizada na produção de imagens de flores e plantas. Durante o desenvolvimento do projeto, o STF derrubou a norma considerada discriminatória. No espaço da instituição, o artista imprimiu uma obra com seu sangue, desta vez carimbada como “válido” e assinada pelo então presidente da Corte, ministro Luís Roberto Barroso, selando simbolicamente a reversão da política de exclusão.

Por todos os cantos da Praça dos Três Poderes
Em outro conjunto de trabalhos apresentados em Brasília, o artista explorou o limite entre documento e ficção ao ocupar museus históricos da Praça dos Três Poderes. Ao inserir imagens geradas por inteligência artificial, simulando documentos históricos plausíveis, em instituições responsáveis por legitimar a memória oficial da capital, a obra provocava o visitante a questionar o que é considerado verdade histórica e quem tem autoridade para narrá-la.
Na mostra Constelações Contemporâneas da Cena Artística de Brasília, Christus Nóbrega reforça esse interesse por zonas ambíguas. Sua obra convida o público a perceber a arte como um campo de negociação entre memória e esquecimento, beleza e violência, crítica e cuidado. “Não busco respostas fechadas”, afirma o artista. “Me interessa abrir frestas para que outras histórias, ainda não legitimadas, possam ser imaginadas.”

Constelações Contemporâneas da Cena Artística de Brasília
A mostra Constelações Contemporâneas da Cena Artística de Brasília amplia a atuação do Metrópoles no fortalecimento da cena cultural e na defesa de uma arte acessível a todos, apostando na ideia de constelação como fio condutor curatorial — um conceito que propõe encontros, diálogos e múltiplos pontos de vista.
O projeto dá sequência à repercussão positiva da exposição É Pau, É Pedra…, que ocupa o Teatro Nacional com mais de 200 obras do escultor Sergio Camargo e aberta ao público até 13 de março.

Confira os nomes dos artistas participantes:
André Santangelo, Antonio Obá, Bruna Zanatta, Carlos Lin, Capra Maia, Camila Soato, Celso Junior, Courinos, Christus Nobrega, Daniel Jacaré, Daniel Toys, David Almeida, Desirée Feldmann, DuplaPlus, Gabriel Matos, Gisel Carriconde, Gu da Cei, Helena Lopes, Iris Helena, Julio Lapagesse, Karina Dias, Léo Tavares, Luisa Gunther, Maria Porto, Marina Fontana, Marcos Anthony, Nelson Maravalhas, Patricia Monteiro (Pam), Pamela Anderson, Patricia Bagniewski, Paula Calderón, Raquel Nava, Raylton Parga, Renato Rios, Rogério Roseo, Samantha Canovas, Taigo Meireles, Tamires Moreira, Valéria Pena-Costa, Victória Serednicki e Virgílio Neto.
A exposição Constelações Contemporâneas da Cena Artística de Brasília funciona como um manifesto da arte brasiliense, reunindo artistas de diferentes gerações, linguagens e pesquisas que ajudam a construir, diariamente, a identidade cultural do Quadradinho do DF. Com isso, ultrapassa sua herança modernista, apresentando Brasília como um organismo vivo, marcado por dinâmicas culturais, sociais e simbólicas em constante transformação.
Serviço
Constelações Contemporâneas da Cena Artística de Brasília
De maio a julho, no Foyer da Sala Villa-Lobos, no Teatro Nacional
Diariamente, das 12h às 20h, com entrada gratuita
