Conheça Camila Soato, artista da mostra Constelações Contemporâneas

Brasiliense, a artista Camila Soato investiga a “fuleragem” como potência estética em pinturas que misturam humor, erro e crítica social

atualizado

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@camilasoato/Instagram/Reprodução
Camila Soato
1 de 1 Camila Soato - Foto: @camilasoato/Instagram/Reprodução

A artista visual Camila Soato integra a exposição Constelações Contemporâneas da Cena Artística de Brasília com um trabalho que desafia o bom gosto, flerta com o erro e transforma o precário em linguagem estética. Nascida em Brasília, em 1985, e radicada na zona rural de Sobradinho (DF), Soato construiu uma trajetória marcada pela experimentação, pelo deboche e por uma pintura que assume a sujeira, o improviso e o inacabado como gesto político.

Entenda

  • Quem é: artista visual brasiliense, doutora em Poéticas Contemporâneas pela USP
  • O que faz: pesquisa pintura, desenho, escultura e performance
  • Como trabalha: valoriza o erro, o improviso e materiais não convencionais
  • O que propõe: questiona normas sociais, de gênero e o “bom gosto” na arte

Camila Soato vive e trabalha em meio à paisagem rural de Sobradinho, no Distrito Federal, longe da assepsia dos grandes centros expositivos. É desse deslocamento — geográfico, simbólico e estético — que nasce uma obra marcada pela fricção entre a pintura de cavalete tradicional e o que a própria artista chama de “fuleragem”: uma prática contaminada pela vida cotidiana, pelas precariedades e pelas experiências pessoais.

arte de Camila
Arte de Camila

Doutora em Poéticas Contemporâneas pela Universidade de São Paulo (USP), mestre e graduada em Artes Visuais pela Universidade de Brasília (UnB), Soato desenvolve pesquisas prático-teóricas que atravessam pintura, desenho, escultura e performance. Suas telas são ocupadas por pinceladas expressivas, por vezes agressivas, onde escorridos, manchas e sujeiras não são acidentes a serem escondidos, mas protagonistas da cena.

As imagens que compõem suas narrativas visuais partem do banal e do cômico. Memes, figuras históricas e situações cotidianas se misturam a personagens atrapalhados ou perversos, compondo cenas esdrúxulas e narrativas bizarras. O erro, longe de ser corrigido, é assumido como índice poético e motor criativo.

A trajetória da artista é profundamente atravessada por vivências pessoais. As memórias da infância em Planaltina (GO), o contato com festas populares, a estética da precariedade e a experiência como mulher lésbica aparecem como camadas fundamentais do trabalho. Ao transformar o que seria considerado “baixo” ou “tosco” em matéria artística, Soato questiona normas sociais, padrões de gênero e a própria ideia de bom gosto.

arte de Camila
Pintura de Camila

No ateliê, o processo criativo se organiza menos por uma rotina fixa e mais por um método contínuo de experimentação. Um dos pontos de partida é a chamada “fotofuleragem”, procedimento que mistura fotoperformance, colagem digital e apropriação de imagens da internet e da História da Arte. Muitas vezes, é a própria artista quem posa para as fotografias que depois servem de esboço para as pinturas.

A pintura a óleo é central em sua produção, aplicada tanto sobre telas quanto sobre suportes não convencionais, como madeiras de descarte e retalhos de tecido. Pigmentos naturais, como terra coletada durante residências artísticas, também entram na composição. A escolha dos materiais reforça a recusa do acabamento refinado e valoriza uma estética que expõe os pelos do pincel, os vazamentos de tinta e o aspecto inacabado.

arte de Camila
Obra da artista que traz logos de marcas famosas

Esse gesto de “arregaçar” — conceito recorrente em sua prática — implica pintar sem medo do fracasso. Rasgar, remendar, deixar a tinta transbordar e improvisar soluções técnicas fazem parte de um ambiente de trabalho que a artista define como uma grande gambiarra.

No espaço expositivo, Camila Soato também rompe com convenções. Suas obras dispensam a sacralização do “cubo branco” e podem ser apresentadas em cavaletes improvisados ou diretamente apoiadas no chão, reduzindo a distância simbólica entre obra e público. O humor e o deboche funcionam como estratégias de aproximação, convidando o visitante a rir da própria História da Arte e das normas sociais que ela ajudou a consolidar.

arte de Camila
Arte de Camila

Reconhecida nacional e internacionalmente, Também participou da 11ª Bienal do Mercosul e da Bienal Internacional de Arte de Cerveira, em Portugal. A artista acumula prêmios importantes, como o Prêmio PIPA – Voto Popular, em 2013, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, além de editais da Funarte e salões de arte contemporânea em diferentes estados. 

Na mostra Constelações Contemporâneas, Camila Soato convida o público a experimentar esse território de tensão entre riso e desconforto, técnica e descontrole. Uma obra que encontra beleza no precário, potência no erro e liberdade naquilo que insiste em escapar das normas.

Constelações Contemporâneas da Cena Artística de Brasília

A iniciativa amplia a atuação do Metrópoles no fortalecimento da cena cultural e na defesa de uma arte acessível a todos, apostando na ideia de constelação como fio condutor curatorial — um conceito que propõe encontros, diálogos e múltiplos pontos de vista. O projeto dá sequência à repercussão positiva da exposição É Pau, É Pedra…, que ocupa o Teatro Nacional com mais de 200 obras de Sergio Camargo e permanece aberta ao público até 13 de março.

Confira os nomes dos artistas participantes:

André Santangelo, Antonio Obá, Bruna Zanatta, Carlos Lin, Capra Maia, Camila Soato, Celso Junior, Courinos, Christus Nobrega, Daniel Jacaré, Daniel Toys, David Almeida, Desirée Feldmann, DuplaPlus, Gabriel Matos, Gisel Carriconde, Gu da Cei, Helena Lopes, Iris Helena, Julio Lapagesse, Karina Dias, Léo Tavares, Luisa Gunther, Maria Porto, Marina Fontana, Marcos Anthony, Nelson Maravalhas, Patricia Monteiro (Pam), Pamela Anderson, Patricia Bagniewski, Paula Calderón, Raquel Nava, Raylton Parga, Renato Rios, Rogério Roseo, Samantha Canovas, Taigo Meireles, Tamires Moreira, Valéria Pena-Costa, Victória Serednicki e Virgílio Neto.

A exposição funciona como um manifesto da arte brasiliense, reunindo artistas de diferentes gerações, linguagens e pesquisas que ajudam a construir, diariamente, a identidade cultural do Quadradinho do DF. Com isso, ultrapassa sua herança modernista, apresentando Brasília como um organismo vivo, marcado por dinâmicas culturais, sociais e simbólicas em constante transformação.

Serviço

Constelações Contemporâneas da Cena Artística de Brasília

De maio a julho, no Foyer da Sala Villa-Lobos, no Teatro Nacional

Diariamente, das 12h às 20h, com entrada gratuita

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