Slime pode causar intoxicação: veja como se prevenir

A brincadeira é uma febre e envolve uma geleca colorida que pode ser fabricada em casa, e aí mora o perigo

JP Rodrigues/Especial para o MetrópolesJP Rodrigues/Especial para o Metrópoles

atualizado 23/10/2019 15:22

Se você tem contato com alguma criança, provavelmente já escutou falar na slime, uma geleca gosmenta à base de cola branca e feita nas mais variadas cores, perfumada, com glitter e o que mais a imaginação permitir. Na internet é possível encontrar diversas receitas para a fabricação caseira, pois a maioria dos ingredientes é encontrada em papelarias e farmácias.

A cola define o tamanho da slime. Nas receitas mais simples, o creme de barbear dá consistência e o creme hidratante evita que a cola seque, deixando a massa mais maleável. Por fim, usa-se a água boricada. Youtubers fazem sucesso ensinando as receitas, algumas adaptadas para dar mais liga ou chegar ao ponto desejado mais rápido, e aí está o perigo. As crianças são mais sensíveis a substâncias tóxicas.

A pediatra Andréa Kasmim, membro da Sociedade Brasileira de Pediatria, lembra que muitas dessas receitas têm água boricada, bicarbonato de sódio e boráx, composto químico usado em inseticidas, produtos de limpeza e medicamentos.

“A manipulação da água boricada e do ácido bórico é muito perigosa porque pode intoxicar a criança e provocar até queimaduras de segundo grau, especialmente em locais mais sensíveis, como a parte interna da perna”, afirma a médica.

Andréa alerta: não existe uma dose mínima dos ingredientes para tornar a brincadeira nociva e nem adianta que os pais façam a massa para as crianças brincarem: “O problema não está em fazer, está em manipular, devido à absorção cutânea”.

Mesmo as slimes feitas com ingredientes considerados menos tóxicos podem trazer riscos para os mais novos. Os pequenos podem levar o produto à boca ou coçar os olhos e nariz com a mão suja, provocando intoxicação de mucosa por ingestão, ardência e vermelhidão nos olhos. Nesse caso, o certo a se fazer é lavar com água corrente; caso não melhore, a criança deve ser levada a um pronto-socorro.

Assim como a maioria das crianças, Maria Eduarda Aranha, 10 anos, já testou várias receitas, uma delas com sabão líquido. O ingrediente provocou uma reação alérgica: a mão da menina ficou sensível e com a pele mais grossa. Um susto para a mãe, Tatyane Aranha.

Tatyane lembra-se de a filha falando alarmada, minutos depois da brincadeira, que a mão estava “esquisita”. Após o episódio, Maria Eduarda voltou ao antigo processo, envolvendo cola branca, água boricada, espuma de barbear e bicarbonato de sódio. “Esse dá certo. De vez em quando, ela chega com outras receitas ou traz para casa slimes feitas por amigos. Alguns usam até esmalte, mas eu nem deixo a Maria Eduarda brincar com as que considero perigosas”, afirma.

A pediatra orienta os pais a ficarem atentos na brincadeira da criançada. “Não dá para deixar o filho manipular nenhum tipo de substância química, ainda mais sem conhecer a composição”, orienta a médica.

TATYANE ARANHA/ ARQUIVO PESSOAL
Maria Eduarda teve uma reação alérgica em agosto, após usar sabão líquido na receita

 

Rafael Fuzeira, 13, faz slimes de vários tipos há dois anos. Experiente no assunto, ele sabe bem para que serve cada ingrediente e discorre sobre as diferentes gelecas existentes: fluffy, com a famosa receita de cola, água boricada e espuma de barbear; clear, transparente e geralmente com glitter; butter, como o nome em inglês sugere, lembra a textura de manteiga; crunchy, com bolinhas de isopor ou miçangas para dar textura; e a neon, entre outras.

O estudante usa o boráx para chegar ao resultado desejado mais rápido, mas explica que ele não é imprescindível, “só demora mais”, diz. Rafael nunca apresentou reação alérgica ao produto, mas conhece crianças que já tiveram alguma.

Assim como muitos jovens que aprendem a fazer essas gelecas, o estudante chegou a vender as slimes na escola, uma forma de garantir o dinheiro para bancar a própria brincadeira. Vez ou outra, o pai e o irmão mais velho eram surpreendidos ao chegarem em casa e não encontrarem o creme de barbear.

JP Rodrigues/ Especial para o Metrópoles
Rafael Fuzeira sabe a função dos ingredientes que usa

 

Saiba como se prevenir
A empresária Doris Guimarães Stikan faz questão de testar as receitas que a filha Lais Guimarães Stikan, 9 anos, leva para casa. “Eu fico atenta se o cheiro é forte, por exemplo, e insisto em comprar todos os ingredientes. Sempre observo se eles podem ser tóxicos”, ressalta.

“Eu não conhecia a slime até a Lais chegar em casa falando disso. Nós sentamos, vimos vários vídeos juntas e saímos para comprar os ingredientes. Ela já fez várias!”, disse.

Doris vê muitas vantagens na geleca, uma delas é se tratar de um brinquedo feito em casa e não comprado pronto. “Ela sabe as medidas certas dos ingredientes e acerta o ponto das slimes dos amigos quando ficam muito molhadas. Eu acabo me envolvendo porque me divirto, é relaxante mexer com isso”, completou.

A psicóloga Francisca Hurtado, da Aliança Instituto de Oncologia, vê a brincadeira como positiva para o desenvolvimento cognitivo das crianças e da relação entre pais e filhos. Francisca compara o momento a fazer uma receita na cozinha.

“As crianças fazem pesquisa na internet ou aprendem com os amigos, isso desenvolve a autonomia delas. Trabalham leitura, interpretação e o conceito de proporção, porque não adianta despejar os ingredientes”, explica.

Doris Guimarães Stikan/ Arquivo pessoal
Doris e a filha Lais em um momento de diversão em casa

 

A atriz e influenciadora digital Flávia Pavanelli gravou um vídeo com a irmã Maria Clara ensinando como preparar uma slime sem boráx ou bicarbonato de sódio.

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