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36 poses. Dependendo da câmera, pode ser menos ainda. Se for uma panorâmica, corte o número pela metade. Para transmitir o clique para o papel: um processo químico, uma salinha vermelha, algumas horas de paciência e pronto! Se for em preto e branco, o processo pode exigir mais dedicação. A fotografia analógica construiu a história dos cliques até a era digital, e ao contrário do que se pensa, ainda não morreu. Pelo menos não no Distrito Federal.

Reprodução/Wikipédia

Câmera Lambe Lambe

No subsolo da loja Photomídia Digital, na 302 Norte, por exemplo, a fotografia vive desde o primeiro andar até o laboratório de revelação no cantinho do subsolo. É lá onde passa a maior parte do tempo o fotógrafo Fernando Bezerra, uma das grandes figuras do Distrito Federal. Ele chegou à capital com oito anos e morava no Núcleo Bandeirante. Em 1957, o pai o obrigada a auxiliar nas fotografias feitas com uma gigante máquina fotográfica “Lambe Lambe”.

Sua teoria foi a vida e a prática o levou a perfeição. “Não escolhi ser fotógrafo, fui obrigado. Mas depois que comecei, me apaixonei e nunca mais parei”, conta. Até 1971 Bezerra só havia trabalhado com o pai, mas chegou o momento em que precisava ganhar o próprio dinheiro. Começou sendo retratista. Quando conheceu a esposa, Deusa Gebrim, passou a trabalhar no Cine Foto JB. Daí para frente deslanchou na carreira e nunca mais parou — nem mesmo em pleno 2016.

Michael Melo/Metrópoles

Fernando Bezerra em sua loja PhotoMidia na 302 Norte

 

A modernidade, entretanto, foi assumindo lugar. Em sua sala guarda mais de 30 câmeras, todas analógicas e cheia de recordações de alguma fase do passado. Elas são a prova viva de que as décadas se passaram. Afinal os aparelhos reduziram de tamanho, aumentaram o peso e as possibilidades de registrar imagens triplicaram — fazemos isso diariamente pelo celular.

O tempo das analógicas chegou no fim dos anos 1990, quase anos 2000. O chamado “bug do milênio” ajudou a tecnologia a começar a impor espaço. Antes mesmo de imaginarmos, a Kodak convocou editores de fotografia do mundo para uma grande reunião em que apresentaram o digital.

“Foi ali o anúncio de que o digital era uma realidade. Foi muito assustador e quase ninguém acreditou que isso se tornaria uma grande coisa”, explica. Os anos 2000 já eram realidade e foi necessário se modernizar. Bezerra foi o primeiro fotógrafo e a ter uma câmera digital em Brasília. “Custou 30 mil reais. Precisei pedir um financiamento no Banco do Brasil para comprar”, contou. “O que isso representava? Um corte brutal na vida do fotógrafo”.

 

Apesar de ter se modernizado, ele ainda ensina a fotografia analógica para quem guarda com amor todo o processo: desde o enquadramento até a revelação feita com as próprias mãos. Dividido em três núcleos, o curso oferece aulas práticas e teóricas numa turma de no máximo seis alunos. É ele também quem ensina os alunos de Fotografia do IESB como funciona o processo da revelação.

Quem também resgata a história do analógico com aulas divertidas são os sócios, professores e fotógrafos do Espaço f/508 de Fotografia, Raquel Pellicano e Humberto Lemos. O espaço nasceu quando Humberto havia recém chegado a Brasília, do Rio de Janeiro. “Queria conhecer novas pessoas, juntar um grupo de amigos numa cidade ainda desconhecida”, contou. Assim começou o Fotoclube que mais tarde se tornaria uma escola de fotografia.

O espaço preserva a fotografia de filme e promove oficinas como a mais recente de Pinhole, termo usado para referir a fotografia estenopeica. Este tipo de fotografia é uma prática econômica e simples pois utiliza uma caixa qualquer em que a luz não penetre. Cursos de processos alternativos de revelação também são frequentes no espaço.

Leonardo Arruda/Metrópoles

“O analógico te faz pensar melhor a fotografia”, afirmou a fotógrafa Raquel Pellicano

“Trabalhamos muito com o analógico e valorizamos os processos alternativos de revelação. Sempre tivemos essa visão. Temos ainda oficinas de colagens, algo que também trabalha com a fotografia e recortes, o que não deixa de ser analógico”, comenta a professora e sócia Raquel Pellicano.

Um projeto criado por eles foi o Envelope. Pessoas fãs da fotografia revelada se inscreviam e finalizavam um rolo de filme de 36 poses. Em seguida, essa pessoa enviaria o filme à outro fotógrafo em um estado diferente, e este usaria o mesmo filme, gerando uma dupla exposição diferenciada e marcante. “A fotografia é na verdade uma grande vivência. Deixou de ser hobby. Mas o analógico é a busca por resultados inesperados. Você erra e tem uma expectativa desse erro. O digital é mais efêmero”, afirma Humberto. “A fotografia de filme te ensina a pensar mais na foto”, completou Raquel.

Lomografia

Em meados de 2010, o Brasil ganhou mais uma mania analógica: a lomografia. Surgiu a popularização das câmeras Lomography, algo que ganhou mais força ainda quando as Galerias Lomography – agora extintas – foram inauguradas em São Paulo e no Rio de Janeiro. A “Lomo” continua sendo uma prática comum para os amantes da foto de filme. As câmeras são geralmente mais baratas por serem de plástico e mais fáceis de manusear, já que não exige um extremo conhecimento prévio.

Não existe mais a opção de compra no Brasil, já que as duas Galerias encerraram suas atividades. Mas ainda há a opção de importar dos Estados Unidos. Para quem quer começar, conheçam algumas das Lomos mais famosas na vitrine abaixo.

Onde revelar?

Um grande problema do Distrito Federal é a revelação. Por falta de público, a maioria das lojas envia o filme para outro estado, demorando na entrega. Existem dois lugares no Plano Piloto que ainda revelam em laboratório próprio:

  • Cine Foto JM

No Cine Foto JM  o cliente escolhe se quer as fotos impressas ou digitalizadas. Apenas as  panorâmicas não são reveladas.
Você pode encontrar CFJM na:
202 Sul
403 Norte

  • Photomídia Digital

O laboratório de Fernando Bezerra também revela e digitaliza.
302 Norte