Inclusão: conheça a cia de dança brasiliense que encantou Luciano Huck

Carla Maia e Mariana Guedes participaram de quadro na Globo para ampliar alcance do projeto voltado para cadeirantes

atualizado 11/05/2020 14:05

Street Cadeirante no Caldeirão do HuckReprodução/Gshow

A brasiliense Carla Maia, de 38 anos, não sabe dizer ao certo quando se apaixonou pela dança. No entanto, fotos de apresentações realizadas na infância, usando o uniforme de escola, sugerem que o caso de amor é antigo, e forte o suficiente para superar obstáculos e limitações.

Aos 17 anos, ela teve um sangramento raro na medula e ficou tetraplégica. Deixou a paixão de lado por um tempo até descobrir que poderia retomá-la sobre a cadeira de rodas. Com um bônus: inspirar outras pessoas.

Assim surgiu o Street Cadeirante, projeto idealizado por ela, em 2018, que ficou conhecido em todo o Brasil no último final de semana, ao integrar a programação do Caldeirão do Huck, da Rede Globo.

A jornalista participou do The Wall, um jogo que envolve perguntas, respostas, uma boa dose de sorte e um prêmio em dinheiro, que pode ultrapassar R$ 1 milhão.

A intenção era conseguir pelo menos R$ 100 mil para ampliar o alcance da companhia, mas ela acabou voltando para casa com R$ 23 mil. Apesar de não ter batido a meta inicial, está feliz pela projeção obtida pelo Street Cadeirante e pela oportunidade de contar histórias inspiradoras em rede nacional. Como a da também jornalista Mariana Guedes, que a acompanhou no The Wall.

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Recomeços

Assim como Carla, Mariana sempre gostou de dançar e costumava fazê-lo antes de sofrer um acidente de carro, há cinco anos. Ela voltava de um feriado na Chapada dos Veadeiros quando o veículo em que estava com um amigo capotou.

A comunicadora ficou entre a vida e a morte, mas ganhou o que chama de “segunda chance” e prometeu aproveitá-la intensamente. Os registros feitos ainda no hospital mostram que ela levou o compromisso a sério: em nenhum deles, Mariana parece abatida. Pelo contrário.

“A Mariana nunca perdeu o sorriso”, contou Wesley Messias no Caldeirão do Huck

“Eu vi a luz branca, sabe? Vi a morte, sei que ela existe e pode acontecer quando a gente menos espera. Eu tinha 22 anos quando isso aconteceu e eu poderia não estar aqui. Isso me trouxe um senso de urgência, de que só temos essa vida para fazer as coisas que gostamos de fazer”.

Com essa filosofia, desde os primeiros meses com a deficiência, a jovem faz questão se manter ativa e conhecer nossas possibilidades. Foi em busca delas que conheceu Carla. As duas participavam de um encontro sobre paracanoagem quando descobriram a paixão em comum pela dança, e trocaram telefones.

Na época, o Street Cadeirante ainda era um sonho, mas, assim que Carla conseguiu realizá-lo, chamou Mariana para fazer parte. Nascia, assim, uma amizade entre as duas jornalistas e uma família que hoje reúne pelo menos oito bailarinas fixas, além das alunas que participam das aulas presencialmente que, devido à quarentena, acontecem pela internet.

Street Cadeirante

Depois de perder os movimentos dos braços e das pernas, Carla até tentou se matricular em algumas academias de dança, mas não se adaptou. “Tive contato com modalidades em que o parceiro te guia e a cadeira que dança, não você. E professores que falavam: ‘e aí? o que você quer dançar?’. Eu não sabia, queria descobrir”.

O Street Cadeirante surgiu quando ela foi aos Estados Unidos representar o Brasil no concurso de Miss Mundo Cadeirante e conheceu o trabalho de alguns artistas que dominam o estilo de rua sobre as rodas.

Carla Maia do Street Cadeirante no Caldeirão do Huck
A brasiliense contou sua história no palco do Caldeirão do Huck

No retorno para o Brasil, se matriculou em uma academia, conheceu o coreógrafo Wesley Messias e se encantou pelas aulas. “A coreografia era inteligente, e o Wesley não quis torná-la mais fácil porque eu estava ali. Comecei a adaptar alguns movimentos e vi que ficava esteticamente bonito, como sempre quis. Foi a primeira vez que senti esse prazer depois da cadeira de rodas”.

A experiência foi tão significativa que Carla propôs a Wesley e à Juliana Castro, dona da escola de dança, estendê-la a outras pessoas. Eles aceitaram prontamente e, em poucos meses, ela e suas companheiras estavam nos palcos apresentando performances artísticas, empoderadas e que fascinam quem assiste.

Além de escolas, faculdades e órgãos públicos, o corpo do Street Cadeirante já foi atração duas edições do Carnaval no Parque. Abriu um show de Anitta, e do Na Praia, ao lado da cantora Iza. O desempenho, segundo Carla, é resultado da dedicação das integrantes e de muito apoio recebido ao longo dos dois anos de projeto.

Street Cadeirante com Iza no Na Praia
Street Cadeirante dançando a coreografia de Iza no Na Praia, em 2019

“Estou muito feliz por tantas pessoas estarem sonhando isso comigo. Só consegui porque tem muita força reunida. Tem o Wesley que topou colocar o talento dele. Todas as dançarinas que se dedicam muito. O Uniceub que cedeu o espaço. A Cia Athlética que nos deu bolsas pra malhar”, elenca Carla.

“Estabelecemos uma mensalidade para pagar o professor e não sobra nada para investir no grupo. Se não fosse esse apoio, seria difícil continuar”,  declara.

Participação no Caldeirão do Huck

Ao decidir se inscrever para o programa de Luciano Huck, Carla queria ampliar o acesso às aulas, ajudando, sobretudo, no transporte das alunas. “Algumas moram muito longe e a cidade não é acessível. É muito difícil sair de casa. O elevador da Rodoviária [do Plano Piloto], por exemplo, ficou um tempão quebrado”, menciona.

Apesar de terem ido bem no jogo de perguntas e respostas, uma etapa de sorte fez com que elas perdessem tudo. Os R$ 23 mil foram conquistados graças a uma dinâmica em que Mariana, que estava isolada em uma cabine, escolheu garantir o valor, abrindo mão do que as duas haviam conquistado no estúdio, ainda que o prêmio fosse superior.

O quadro foi gravado no ano passado, mas Carla e Mariana tiveram de guardar segredo, até mesmo para as demais integrantes. A ideia é reunir todas assim que possível para decidir o que fazer. “Ainda não definimos o que vamos fazer com esse dinheiro, mas queremos investir em algo para grupo se sustentar”, explica Carla.

A idealizadora também espera que a projeção chame atenção de voluntários. “Precisamos muito de ajuda. Pessoas que possam ajudar na comunicação, na área jurídica, na administração… toda ajuda é bem-vinda”, salienta. Interessados em contribuir com o projeto podem entrar em contato pelo e-mail da iniciativa.

“ O Street Cadeirante é mais que dança, é um universo completo em que a gente faz o que ama, socializa, convive com outras mulheres e troca experiências”, diz Mariana. “Por isso eu sonho alto, quero ajudar o projeto a ser conhecido em todo o Brasil e no mundo. A gente não anda, mas voa”, finaliza.

 

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E a possibilidade de realizarmos um sonho é o que torna a vida incrível.”

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