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Cansada do ambiente fechado e da pouca flexibilidade do escritório, Pollyanna Aires, 35 anos, sentiu que era hora de repensar a carreira quando ficou grávida pela primeira vez, em 2012. Com a vinda de Manuela, a rotina engessada não era mais atrativa. “Pedi demissão do call center e terminei meu curso de corretora de seguros. Trabalhar em casa me proporcionaria tempo para cuidar da minha filha”, conta.

Pollyanna não se arrepende. Desde que começou o home office, prática cada vez mais comum no Brasil, a corretora de seguros afirma conseguir aproveitar mais a vida. Quando quer viajar, não precisa tirar férias — é só colocar o computador na mala e trabalhar independentemente de onde estiver no mundo.

De acordo com uma pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI) de 2017, a maioria da população gostaria de ter uma rotina parecida com a da corretora de seguros: 81% dos entrevistados afirmaram desejar ter flexibilidade de local de trabalho e 71% flexibilidade de horário. As duas coisas são (bastante) possíveis no home office.

A corretora de seguros também implementou mais atividade física à rotina, gasta menos tempo presa dentro de um carro e ainda passa o dia com os filhos, Manuela, 5 anos, e Eduardo, 3. Trabalhar em casa tem vários desafios (encaixar as horas de produtividade são complicadas quando se tem Netflix a alguns cliques de distância), e, além da falta de contato com os colegas da área, a corretora de seguros ressalta a necessária disciplina e organização.

“Pela manhã fico com as crianças e cuido da casa, em casos de emergência resolvo algumas coisas. No período da tarde, quando elas estão na escola, consigo me dedicar mais ao serviço. De vez em quando, aproveito a noite e o final de semana para tratar pendências”, explica. Segundo a pesquisa Global Evolving Workforce, patrocinada pela Dell e Intel em 2014 — apesar de os adeptos desse meio de produção terem tendência a trabalhar mais por não ter horários definidos —, os benefícios são maiores.

Foram entrevistados brasileiros que fazem home office e 45% garantem que dirigem menos, 52% passam mais tempo com a família, 33% dormem mais e 49% se consideram menos estressados — e, além de tudo, 54% ainda acreditam terem se tornado mais produtivos.

É o caso de Felipe Cruxen, 37 anos. Para ele, os escritórios no Brasil cumprem mais uma função social. “O ambiente significa socializar, bater papo, sair um milhão de vezes para fumar ou beber café. Não produzo bem”, comenta. Na empresa onde atua como cloud operator (serviço de consultoria e ajuda no desenvolvimento das nuvens de informação), ele faz parte de uma equipe na qual trabalhar de casa não é exceção, mas a regra. “Temos pessoas da Colômbia, Sérvia e Singapura. Todos contribuem de forma remota. Eu monto meu ambiente, converso se quiser e posso me focar nas prioridades”, argumenta.

Além da produtividade, não perder tempo no trânsito e poder estar mais focado são outros benefícios listados pelo cloud ops. Ele ainda aponta que existem vantagens para a empresa, como menos gastos com aluguel de espaço, água e limpeza. A maior dificuldade, avalia, é definir horários. “Como acordo e durmo no ‘trabalho’, é muito fácil passar o dia inteiro dedicado à atividade, sem horário para início ou fim”, pondera.

Teletrabalho no serviço público
Depois da regularização do chamado teletrabalho no novo conjunto de leis trabalhistas, até as empresas públicas estão trocando o tradicional escritório pela possibilidade de contar com colaboradores à distância. Desde 2015, funcionários de várias áreas do Banco do Brasil passaram a realizar suas atividades profissionais de casa — e a empresa garante que houve aumento na produtividade.

“O BB enxerga o trabalho remoto como uma grande possibilidade de evolução nas relações de trabalho. Ainda estamos testando a melhor forma de ampliar esta realidade em uma empresa tão grande e com características tão peculiares, mas já demos alguns passos”, explica Caetano Minchillo, diretor de gestão de pessoas do Banco do Brasil. Ele conta que cerca de 200 funcionários de áreas de gestão de pessoas, jurídica, ouvidoria e SAC trabalham de casa, e alguns comparecem à empresa, no mínimo, quinzenalmente.

Caetano diz que a experiência, iniciada apenas com funcionários de TI, se mostrou muito rica e os ganhos na produtividade e na qualidade de vida valeram a pena. “A expectativa do Banco a partir desse piloto é mensurar os ganhos para os funcionários em satisfação e qualidade de vida, além de avaliar a contribuição para questões como a mobilidade urbana, a redução dos Gases de Efeito Estufa pela redução de deslocamentos de carro e redução de usuários no transporte público”, afirma.

“Não passava pela minha cabeça exercer teletrabalho”, confessa o assessor da diretoria de tecnologia do Banco do Brasil Luiz Cláudio Lauxen, 38 anos. A função em casa começou há pouco tempo, em maio, e apesar da diretoria do banco ficar em Brasília, Luiz está instalado em Nova Mutum, no Mato Grosso. A família foi decisiva na escolha do modelo de produção.

Arquivo Pessoal

“No início de 2018, o teletrabalho pareceu uma possibilidade de morar perto dos familiares (tenho uma filha de 2 anos que estava morando longe dos primos e avós) e ainda economizar um pouco”, explica. O assessor precisou ler bastante a respeito para decidir trabalhar de casa, mas está realizado com a escolha.

Mesmo preferindo atuar em home office, Luiz Cláudio enxerga obstáculos para quem não passa o dia em um escritório. A empresa, na opinião do assessor, precisa ter uma infraestrutura tecnológica que possibilite o funcionário trabalhar como se estivesse no escritório.

“Nisso, o Banco do Brasil está indo bem”, pondera. “Além do mais, todos precisam entender que o colega teletrabalhador faz parte da equipe, apenas não senta ao lado. Percebo diariamente um esforço por parte de integrantes da equipe em não me deixar de fora das reuniões e atividades”.