Disputa por data de casamento cria a profissão de despachante matrimonial

Profissional se encarrega de agendar o dia escolhido pelos noivos nas igrejas mais disputadas, enfrentando filas e agilizando toda a burocracia

atualizado

metropoles.com

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Rafaela Felicciano/Metrópoles
1 de 1 Rafaela Felicciano/Metrópoles - Foto: null

Organizar um casamento está longe de ser tarefa fácil. E existem três itens capazes de tirar o sono de muita noiva: a escolha do vestido, o acerto da melhor data para o evento e a disponibilidade da igreja escolhida. A grande dificuldade reside exatamente em coincidir esses dois últimos itens de um check list interminável. E aí vale tudo. Até mesmo passar dias e noites na porta da igreja ou desembolsar uma grana extra para alguém ficar na fila e garantir a agenda. A demanda é tanta que criou uma nova profissão no mercado de Brasília: despachante matrimonial. Isso mesmo, pessoas responsáveis por garantir o agendamento nas igrejas e templos poupando noivas e noivos desse estresse. Serviço semelhante ao do já conhecido despachante de carros, que regulariza toda a papelada quando o assunto é veículo.

A professora Ailla de Oliveira Motta, 25 anos, viu nesse mercado uma chance para ganhar uma renda extra. Sua especialidade é a Catedral. Trabalhando em uma empresa de cerimonial e eventos, percebeu que muitas noivas queriam casar em igrejas disputadas, já tinham fechado outros serviços para o casamento e não podiam correr riscos de perder a data, sendo obrigadas a passar dias nas filas. E, assim, começou a oferecer o serviço de despachante.

O valor cobrado depende do tempo que ela fica na fila.

Tem noiva que me pede para dormir um dia antes, dois dias antes, outras precisam que eu fique lá só por um período, manhã ou noite. Mas o mínimo é R$ 100 e o máximo até hoje foi R$ 450.

Ailla de Oliveira Motta

De acordo com Ailla, as igrejas mais procuradas são Catedral, Dom Bosco, Nossa Senhora de Fátima e São Judas Tadeu.

“Todas são muito concorridas. A São Judas já teve fila de quatro dias, mas onde todo ano tem demanda pra trabalho é na Catedral”, explica. “A Catedral é belíssima, mas só realiza dois casamentos por dia. Por isso, a demanda acaba sendo muito maior que a oferta. O que eu faço garante que as pessoas casem no lugar que sempre sonharam. Quando consigo a data e as noivas ficam radiantes, eu também fico”, completa.

Brasília, 06/06/15. Despachantes da Catedral. Na foto, Ayala, trabalha como despachante da Catedral. Foto: Rafaela Felicciano/Metrópoles
Função de Ailla é viabilizar o sonhos dos casais

Se alguém pensa que a tarefa é simples, se engana. “O problema da comida é fácil de resolver. Geralmente, as noivas levam as minhas refeições, como lanche da tarde e jantar. Já o banho… (ela ri), tenho que pedir pra algum amigo ficar no meu lugar, enquanto vou em casa tomar banho rapidinho”, conta.

Sem aviso prévio
A presença dos despachantes agrada até mesmo as igrejas e templos. Preocupados com a imagem negativa de noivas e noivas em filas intermináveis em suas portas, muitas delas deixaram de anunciar a abertura dos agendamentos.

A primeira a aderir à novidade foi o Santuário Dom Bosco. “A gente simplesmente abre a agenda e quando os interessados ligam para saber sobre as datas, informamos que a agenda está aberta. A medida visa à segurança da igreja e dos interessados, que dormiam até quatro dias na fila”, diz Eliete Cristiana da Silva, secretária do local.

As igrejas Imaculado Coração de Maria, Nossa Senhora do Perpétuo Socorro e Catedral Metropolitana de Brasília também desistiram do aviso prévio. Este ano, por exemplo, a Catedral abriu a agenda sem avisar no dia 1º de junho e quatro dias depois já tinha 65 casamentos marcados. A Igreja Nossa Senhora do Perpétuo Socorro abriu a agenda de 2016 em março e no final da primeira semana de junho já estava com 60% das datas agendadas.

Os templos evangélicos também são muito concorridos em Brasília. A advogada Fernanda Foizer Gomide, 28 anos, por exemplo, fez questão de se casar na Igreja Metodista por ser uma das mais tradicionais de Brasília. O templo protestante tem grande procura. Por frequentar o local desde criança, juntamente com a família, ela conseguiu um agendamento sem ter que ficar na fila. Mas recomenda: “Vale agendar a data antes de tudo”.

Histórias para contar
Mesmo com a nova regra, as filas não acabaram por completo. Afinal, sempre tem alguém que conhece o padre ou o pastor e consegue em primeira mão a informação da data. E quem já enfrentou uma dessas filas tem muita história para contar. Juliana Favato Colpo, 23 anos, sempre acreditou que a melhor parte do casamento é a cerimônia religiosa. Por esta razão, logo que ficou noiva teve a certeza de que se casaria na Catedral. O problema é que ela e o então noivo (agora marido) Marino Stefani Colpo não tinham tempo para ficar na fila, já que são empresários.

Juliana foi a primeira da fila para garantir a data escolhida. Era uma tarde de sábado quando chegou. Durante o fim de semana, permaneceu na igreja enquanto aguardava a abertura dos portões. Na segunda-feira, pagou uma pessoa de sua confiança para substituí-la, enquanto resolvia compromissos profissionais. O revezamento deu certo e a noiva conseguiu o dia desejado.

Jornalistas: BRUNA SABARENSE E ISADORA CAMPOS Seção: Lifestyle Retranca: Noivas da Capital Data: 12 junho 2015 Local: IMAS | Igreja – SGAS 610 Bloco A, Asa Sul Personagem: Fernanda Foizer Gomide | 81756120 Pauta: Noiva evangélica já casada que compartilhou o processo de agendamento de sua referida data. Foto: Rafaela Felicciano
Fernanda conseguiu facilmente a data desejada

“Se eu não tivesse colocado uma pessoa para ficar no meu lugar na fila, não teria conseguido reservar a data que eu tanto queria. Teria de mudar todos os outros fornecedores que já tinham sido contratados. Por isso, foi de extrema importância utilizar esse serviço. Como demandava muito tempo, essa ajuda  foi bastante útil”, explica. Valeu a pena. Juliana e Marino se casaram na Catedral em setembro de 2014.

Camila Oliveira Nereu Sarkis, 24 anos, também sempre sonhou em se casar na Catedral. Em junho de 2014, ao tomar conhecimento de que a agenda abriria para o ano seguinte, foi com dois dias de antecedência para a fila. Revezou com o noivo na fila, já que existia uma chamada feita de meia em meia hora e, se o nome da pessoa não fosse respondido, poderia perder o lugar. Porém, em um dado momento, nem ela nem o noivo poderiam ficar na espera. A saída foi contratar um funcionário para garantir o lugar pelo tempo suficiente até o casal voltar. Os noivos subiram no altar no dia 9 de maio deste ano.

Quando descobrimos que não era tão fácil assim conseguir a data, me deu um pouco de desespero, mas hoje, depois do casamento ter acontecido, vejo o quanto foi gratificante o esforço para conseguir a Catedral.

Camila Oliveira Nereu Sarkis

Churrasco
Histórias também não faltam na memória da despachante Ailla. “Nunca vou esquecer do churrasco feito na parte de fora da igreja. Um noivo estava lá com mais dois amigos que iriam dormir na fila com ele. A cada meia hora chegava mais um amigo. Na hora do almoço, me chamaram para almoçar e eu agradeci, mas disse que tinha levado comida. Não acreditei!”, recorda.

Em outra ocasião, ela conta que uma mulher na fila estava desesperada e perguntou se alguém poderia guardar o lugar dela. Um homem que acompanhava o amigo se ofereceu e recebeu R$ 100 pelo serviço. “Ele era o terceiro da fila, eles se conheceram ali, na hora, e deu tudo certo”, lembra Ailla. Também perdeu as contas das mães que viu dando escândalo porque não conseguiram a data que as filhas queriam; e de noivo e noiva brigando durante a noite. Por fim, se recorda da madrugada em que tirou um cochilo na fila da Catedral e acordou de cara com um escorpião.

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