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O que você faria se o seu mundo desabasse? Se em uma tranquila tarde de sábado, o telefone tocasse com a notícia de que sua filha e neta sofreram um acidente de carro no Canadá? Luciana Studart e Henrique Andrade entraram correndo em um avião e, quando chegaram ao país, a terrível constatação: Rafaela, aos 26 anos, não sobreviveu ao acidente. E Clarinha, de apenas 2 aninhos, havia sido levada ao hospital de helicóptero, mas, lamentavelmente, também não resistiu aos ferimentos.

Mas de uma grande tragédia, nasceu uma luz. Os amigos de Rafaela no Canadá começaram uma grande campanha de doação de sangue e órgãos – os dois rins de Clarinha foram doados. Foi o primeiro transplante em cinco anos a acontecer na Província de Saskatchewan – e logo a ação se repetiu por aqui. Desde 2013, Luciana e Henrique organizam um dia no Hemocentro para incentivar a doação.

Um dos grandes sonhos de Rafaela, que estava com retorno marcado para o Brasil apenas alguns dias após o acidente, era colocar sua profissão a serviço de quem de fato precisa. A nutricionista queria cuidar de crianças carentes.

“Esse projeto é originalmente da Rafaela. Ela tinha esse desejo quando voltasse do mestrado e, infelizmente, não pôde acontecer. Resolvemos abraçar a ideia. Ela falava sobre esse desejo desde pequena. É algo que ficou dentro da gente. Uma parte dela”, explica a mãe e avó das vítimas, respectivamente.

Em parceria com a Igreja, Luciana e Henrique ergueram, tijolo por tijolo, o Centro Social Santa Clara, na Chácara Santa Luzia, uma espécie de expansão da Estrutural – conhecida pela realidade violenta. Habitada basicamente por famílias de catadores, não há saneamento básico, asfalto nas ruas ou água encanada em boa parte das residências. Durante um ano, Luciana e Henrique transformaram a creche num local de acolhimento para cuidar dos filhos de famílias instáveis. As crianças chegavam às 7h da manhã agressivas, com marcas nos braços causadas por vermes e, muitas vezes, de barriga vazia.

O projeto foi – e ainda é – um sucesso, mas os dois sentiram que era hora de partir para uma nova empreitada. Uma iniciativa deles, com a cara de Rafa e Clarinha. “A gente precisava dar um passo a mais”, conta a arquiteta. Assim surgiu o Instituto Doando Vida por Rafa e Clara. O casal conseguiu comprar um prédio na Estrutural, perto da Chácara Santa Luzia, que, aos poucos, vai sendo transformado para receber cerca de 50 crianças a partir do meio de julho.

A obra deve terminar no final de junho e o local contará com salas de aulas, refeitório, cozinha, banheiros, campinho de futebol, parquinho, ambulatório para primeiros socorros e até uma horta comunitária. A ideia é receber, as crianças de até cinco anos às 7h e devolvê-las de banho tomado, alimentadas e com muito aprendizado na cabeça às 17h. Além de professores e cozinheiras contratados, o Instituto conta com voluntários (nutricionistas, psicólogos e até pediatra). Sem auxílio do governo, sobrevive à base de doações – todo o excedente vai para outras instituições que necessitam de ajuda.

Não é simples. Além da rotina pesada, Luciana conta que um grande desafio é entender a realidade completamente diferente de quem mora na Chácara Santa Luzia. “É muito fácil a gente criticar, perguntar por que não trabalham, deixam o filho na rua ou por que as crianças entram nas drogas. Nos reeducamos a cada dia”, explica.

A ideia de Luciana e Henrique é também oferecer, no futuro, aulas para as famílias das crianças. Com o fechamento do lixão, muitos pais ficaram desempregados e sem saber fazer mais nada senão catar lixo. O objetivo é conseguir parcerias e ensinar habilidades que sejam úteis no mercado de trabalho para ajudar essas famílias a melhorarem de condição.

Por enquanto, o Doando Vida receberá 53 crianças e deve começar a funcionar em meados de julho. Foram muitos os inscritos que conheceram Luciana e Henrique e procuraram a nova empreitada – existe até uma fila de espera. Para ter certeza de que as crianças são carentes, a organização visitou 48 residências.

 

O casal tem consciência de que a ajuda é apenas uma gota no oceano. Segundo uma estatística extraoficial, são cerca de 800 crianças que vivem na Chácara Santa Luzia. Muitas ficam com as chamadas “Mães Crecheiras”, engajadas em cuidar dos filhos das vizinhas, ou são matriculadas em escolinhas particulares, nas creches gratuitas ou até se escondem debaixo das saias das mães para entrarem no lixão.

“A nossa vida é essa. É ajudar, é transformar a dor em doação. Quando você tem uma perda muito grande como a que a gente teve, você precisa se preencher. Não adianta querer viajar o mundo, porque o vazio continua, não adianta tentar fugir da sua realidade. É sempre possível tirar alguma coisa boa de uma grande tragédia. No início, a gente se zangava, mas o que pode vir de bom em perder uma filha e uma neta? Pela fé, acreditamos que vamos reencontrá-las um dia. A gente acredita que elas nos dão força. Pela fé, a gente acredita que elas também fazem parte desse projeto hoje, aqui e agora”, declara Luciana.


Quer ajudar? O Instituto Doando Vida por Rafa e Clara aceita qualquer tipo de doação. Basta acessar o site. Luciana e Henrique fazem questão de enviar uma newsletter para manter os doadores informados sobre o destino da ajuda.