Cuidado! Os clubes de viagem podem ser uma roubada

Conhecer o mundo com pacotes abaixo da média de preços e ainda ganhar dinheiro com isso? Entenda como funciona e se vale a pena

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atualizado 27/08/2018 15:06

O mercado de turismo on-line cresceu 75% nos últimos cinco anos, segundo dados da Ebit. Diferentes plataformas sugiram para atender o público fiel desse tipo de comércio eletrônico. Mas, nos últimos meses, o foco está nos clubes de viagem, hospedagem e passagem.

Eles ganharam força e solidificaram-se como opção para os brasileiros desbravarem novos lugares e também como uma fonte de renda. Tem gente largando os empregos de carteira assinada para seguir carreira dentro dessas empresas, em busca de liberdade geográfica e financeira.

Os clubes de viagem funcionam de forma bem simples: você paga a adesão, mais um valor x por mês e tem direito a um determinado número de diárias ou pontos. Esse crédito pode ser usado em uma lista de hotéis conveniados no Brasil e no exterior, e/ou em passagens aéreas. Os valores prometidos são bem abaixo dos oferecidos em agências e sites.

Além disso, muitas delas têm convênios com restaurantes e lojas de diversos segmentos. Assim, tudo comprado nesses estabelecimentos gera uma pontuação para ser revertida em pacotes de viagem.

Dentro desse mercado, nasceram os clubes de viagem com Marketing Multinível (MMN), também conhecido como marketing de rede. Esse modelo comercial de distribuição de bens ou serviços prevê ganhos a partir da venda efetiva de produtos ou do recrutamento de novos vendedores.

Os preços variam muito de plataforma para plataforma e de acordo com os planos escolhidos pelo cliente (Premium, Gold, Platinum e outros). Entre as empresas que oferecem o serviço, temos a GPS Clube de Viagens e as mais conhecidas, a brasileira AGR e a americana DreamTrips, produto da WorldVenture.

Ou seja, os clientes têm duas opções: pagar e usar a pontuação adquirida em viagens ou serviços turísticos; ou tentar ganhar mais descontos, benefícios e até dinheiro, chamando outras pessoas para virarem membros do clube.

Esse setor é reconhecido legalmente no país?
Segundo o Ministério do Turismo (MTur), empresas legalmente constituídas e que façam transações comerciais para assessorar ou organizar pacotes de viagem precisam ter um CNPJ da categoria, estar devidamente cadastradas no Cadastur (sistema de cadastro de pessoas físicas e jurídicas atuantes no setor do turismo) e atender às definições da legislação do segmento.

O Cadastur funciona como um selo de segurança para o consumidor, pois autoriza o MTur a punir as empresas mediante alguma irregularidade. Das instituições citadas acima, apenas a AGR encontra-se na lista.

No entanto, existe uma questão em debate. Opções mais novas de ferramentas de turismo, como o Airbnb e clubes de viagens, ainda não têm uma legislação própria e também não se encaixam como hotéis, pousadas ou agências.

O Procon, por exemplo, não tem registros de reclamações de nenhuma das empresas mencionadas, mas não por não existirem problemas. Segundo a assessoria de imprensa do órgão, o Sistema Nacional de Informações de Defesa do Consumidor (Sindec) lida apenas com agências de turismo.

Os erros e reclamações
Existem empresas brasileiras de MMN que não deram certo e fecharam. No ramo de clube de turismo, a Viagens Wow! é o maior exemplo. São muitos os depoimentos de pessoas relatando terem se sentido enganadas e lesadas pelo esquema, considerado piramidal.

Em uma busca rápida no Reclame Aqui, é possível ler experiências negativas de consumidores com as empresas. Os relatos sobre a DreamTrips, por exemplo, são bem parecidos. Pacotes para locais muito longe (Grécia e países da Ásia) só permitem de dois a quatro dias de hospedagem – obviamente inviável para residentes no Brasil. Além disso, citam valores mais caros pela plataforma, se comparado com outros sites, cobranças indevidas e dificuldade para cancelar os planos.

A resposta da empresa toca em um ponto ainda mais complicado: eles ainda não estão trabalhando legalmente no Brasil. “Obrigada por trazer essa questão ao nosso conhecimento. Infelizmente, a WorldVentures não está aberta para conduzir negócios no Brasil. Assim sendo, vamos resolver esse problema diretamente com o consumidor”, em tradução para o português.

Ao se tornar um membro, o cliente toma conhecimento desse fato, pois precisa mentir e colocar um endereço americano na ficha. Assim, a empresa fica resguardada ao não cumprir com suas obrigações, pois o cliente adultera uma informação para conseguir o serviço e, por não residir nos EUA, não é amparado pelas leis do país.

No ano passado, a WorldVentures anunciou que chegaria ao Brasil em 2018, com as primeiras viagens no país. Em relação a outros clubes, muitos clientes reclamam do fato de datas e hotéis escolhidos nunca estarem disponíveis para reserva e da dificuldade em resgatar a pontuação e utilizá-la.

 

Vale a pena fazer parte dessa rede?
Primeiramente, em qualquer ocasião, antes de contratar um serviço e se comprometer não só a pagar por ele, mas a colocar o seu nome em xeque na hora de “conquistar” membros, consulte os órgãos competentes para saber se a empresa é seria, se existem reclamações, leia os problemas que outros clientes passaram e só então faça sua decisão.

Quase todos os CEOs ao entrarem no MMN vão vender sonhos, megaestrutura, falar de sua capacidade financeira e sobre como você poderá aumentar muito a renda fazendo algo relativamente fácil e simples, mas, lembre-se, não é bem assim.

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Reinaldo Domingos é presidente da Associação Brasileira de Educadores Financeiros (Abefin)

O presidente da Associação Brasileira de Educadores Financeiros (Abefin), Reinaldo Domingos, não tem nada contra marketing multinível e aponta como algumas pessoas vivem bem fazendo isso. Por outro lado, ele acredita que o pagamento em cascata (para se tornar Gold, Platinum, Diamante) são agressivos.

Para Reinaldo, esse modelo, muitas vezes, é maquiado como sendo um sistema de marketing multinível, mas não é verdade. O esquema envolve a troca de valores pelo recrutamento de outras pessoas para pirâmides.

Ele lembra ainda que pirâmide financeira é crime contra a economia popular, desde 1920. Afinal, propõe a oferta de ganhos altos e rápidos, o pagamento de comissões excessivas, acima das receitas vindas de vendas de bens reais e a não sustentabilidade do modelo de negócio desenvolvido pela organização.

“É criada uma relação vertical, quanto mais gente colocar embaixo da pessoa, mais ela estará sendo remunerada. Ganha mais quem chegou primeiro e paga a conta quem está entrando por último. As empresas geralmente, são caixas-pretas, você não entende o que acontece dentro dela. Qual é o objetivo? Que empreendimento é esse?”, reflete Domingos.

“Você entra e não enxerga. É um modelo muito criticado pelo sistema tributário. Milhares de pessoas perderam grande quantidade de dinheiro com isso, não receberam nada de volta e o que aquele cidadão é hoje?”, indaga.

Aprenda com os erros alheios, analise de forma profissional, faça uma pesquisa no Banco Central para ver a operação financeira da empresa, pesquise, para não perder tempo, amigos, dinheiro e o mais importante, sua credibilidade.

Desconfie de promessas de ganhos elevados a curto prazo. Poucos ganham muito, tudo que é muito fácil, cai. Se quer crescer, suba pela escada, não pelo elevador

Reinaldo Domingos

Já para o presidente da Associação Brasileira de Turismólogos e Profissionais do Turismo, Elzário Pereira da Silva Junior, se os clubes mencionados atuam legalmente no método de marketing multinível brasileiro, é apenas mais uma transformação na forma de agenciamento de viagens. Um novo filão no mercado brasileiro.

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