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Natural de Barreiras, na Bahia, Samuel Bortolin, 28 anos, é acostumado a quebrar paradigmas desde que nasceu. Em setembro do ano passado, decidiu que, no prazo de um ano, se tornaria um triatleta. Para variar, superou as expectativas e concluirá o plano bem antes. A ideia é terminar a primeira prova ainda neste fim de semana.

Seria apenas mais uma história sobre um atleta tentando melhorar seu desempenho, se o protagonista em questão não tivesse paralisia cerebral com triplegia (as duas pernas e o braço esquerdo são afetados).

Samuel nasceu prematuro, com seis meses e meio, de uma gestação de gêmeos. Foi para a incubadora e se recuperou, mas o irmão não teve a mesma sorte e faleceu alguns dias após o parto.

Giovanna Bembom/Metrópoles

Aos sete meses de vida, os pais começaram a perceber que o filho não tinha a coordenação motora das outras crianças da mesma idade. A mãe, Ariane Bortolin da Silveira, procurou médicos e teve o diagnóstico da doença, que atinge cerca de 40 mil crianças por ano. O médico, porém, emitiu apenas um laudo técnico e deixou a família sem entender o que, de fato, aquilo queria dizer.

“Ela saiu do consultório e comprou um livro sobre o assunto para entender tudo melhor. Deixou para reler o diagnóstico quando estivesse junto com o meu pai. Quando eles começaram a entender a doença, minha mãe viu que era irreversível”, conta Samuel.

Os pais procuraram diversos médicos, quase uma dezena deles. As previsões de vida para Samuel só pioravam: “não vai andar”, “não vai falar”, “precisará de ajuda para tudo”. A família foi à luta em busca de qualidade de vida para o filho e decidiu não aceitar aquelas sentenças.

A cada 45 dias vinham para Brasília, a 650 km de Barreiras, para Samuel se consultar no Hospital Sara Kubitschek. Foram 10 anos de tratamento na instituição, além de uma cirurgia delicada de rotação de quadril e alongamento de tendão

A cidade natal não tinha a estrutura de que o jovem precisava. Só havia uma fisioterapeuta, que trabalhava na zona rural e ia para a cidade aos finais de semana. Baseada no que via no Sara, Ariane começou a fazer ela mesma sessões longas de fisioterapia diariamente com o filho.

Para Samuel aprender a engatinhar, a mãe o arrastava em um lençol pela casa inteira. O pai, José Alípio Fernandes da Silveira, também construiu um andador de cano PVC e uma mesa de madeira que se adequava ao filho.

Tudo isso funcionou e o menino que não iria engatinhar, muito menos ficar em pé sem apoio, segundo médicos, andou aos 7 anos, depois de intervenções cirúrgicas, muita fisioterapia e, principalmente, dedicação dos pais.

Reprodução/ Facebook

Samuel na mesa adaptada construída pelo pai

O caminho, porém, teve algumas pedras. “Tive uma infância incrível, mas dos 15 aos 17 anos não me amava e não me aceitava. Via meus amigos com namoradinhas e não me sentia capaz de conseguir aquilo, já me sentia rejeitado antes mesmo de me aproximar”, relata Samuel.

Ele começou a responsabilizar a deficiência por tudo de ruim que acontecia. Abandonou a fisioterapia e todo o tratamento. “Fui ao fundo do poço em seis meses. Me vi perdendo a maior alegria da minha vida, que foi ter começado a andar”, relembra.

Samuel ficou de cama por três meses, teve encurtamento muscular, perda de músculos e de reflexos. Até que conseguiu reagir e retomou os cuidados. “Estou aqui pra viver, parei de responsabilizar minha deficiência e outras pessoas pelas coisas que eu não tinha êxito”, afirma.

O esporte teve um  papel fundamental nessa volta por cima. Samuel começou a fazer academia, caminhadas e retomou a fisioterapia. Mudou para Fernandópolis, no interior de São Paulo, depois para São José do Rio Preto (SP), onde concluiu os cursos de direito e educação física. Recentemente, acabou uma pós- graduação. Tinha aula de manhã e à noite, morava sozinho, aprendeu a se virar.

Em São José, pagou um personal para fazer um treinamento mais dinâmico. Caminhava 7 km todos os dias. Foram três anos de fortalecimento até o profissional sugerir a corrida.

Samuel caía bastante, mas seguia em frente. Chegou a concluir provas de 10km em uma hora e 28 minutos. Depois aprendeu a pedalar. Só faltava nadar, que sempre foi a recomendação dos médicos.

Ele fez aulas de natação várias vezes, em todas as fases da vida, e acabou até pegando birra do esporte, por não conseguir evoluir nele. Quebrou essa barreira com a ideia de conseguir algo difícil, como o triatlo.

“A meta era fazer a primeira prova de triatlo no fim de 2017, mas com o andamento muito positivo dos treinos e um convite especial do Challenge Cerrado, decidi antecipar um pouquinho”, afirma.

O triatleta pretende concluir a prova em três horas e 20 minutos, mas está confiante em reduzir esse tempo, levando em conta que as vias pelas quais passará estarão livres de tráfego.

E não para por aí. Até o final do ano ele pretende participar de mais quatro provas de triatlo. A ideia inclui fazer um Olímpico (o dobro da distância do Sprint, modalidade da prova em Brasília), em 2018.

“Não tenho tanta pressa, tenho certeza que vou conseguir isso. Meu maior objetivo é motivar e transformar positivamente a vida das pessoas através da minha superação”, desabafa.

Samuel ressalta a importância da participação de pessoas com deficiência em eventos como o Challenge Cerrado. “O esporte busca a superação pessoal. Não tem como ter categoria especial se não houver interessados, então temos que procurar a organização e demonstrar interesse. A inclusão de verdade é participar de tudo que a gente puder”, reflete o educador físico.

“Não vi nada registrado em nenhuma mídia sobre alguém com o meu grau de deficiência (paralisia cerebral com quadro espástico grave) num desafio como esse. Se me perguntam qual é o meu limite, sempre respondo que não sei, mas eu estou sempre buscando saber qual é”, diz, motivado.

Aquele medo de conversar com as meninas ficou no passado. Há dois anos, ele é casado com a publicitária Carolina Malzyner, 32 anos. Samuel estudou com o irmão de Carol e frequentando a casa do amigo, acabou se apaixonando. Ela acompanha o marido nas provas, além de ser a responsável pelo marketing do triatleta.

Quando ele tinha sete anos, a mãe de Samuel engravidou e, novamente, de gêmeos. Lucas e Arthur são companheiros de vida e membros cativos na torcida do irmão mais velho, que passou de alguém desacreditado a exemplo de superação.