Caso Felca, sharenting e adultização: entenda como proteger seu filho
Especialista em segurança infantil ensina como proteger os filhos no mundo das redes sociais e do sharenting
atualizado
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Depois da repercussão nacional do vídeo do youtuber Felca denunciando a adultização e sexualização infantil, que culminou na prisão de Hytalo Santos, um dos influenciadores citados na publicação, a Câmara dos Deputados aprovou, no dia 19 deste mês, em regime de urgência, o Projeto de Lei (PL) nº 2.628/2022, conhecido como “PL da Adultização”.
Entenda
- Vídeo do youtuber Felca sobre exploração infantil nas redes sociais promove debate social e chega a esfera política.
- Câmara dos Deputados aprova projeto de lei sobre a adultização.
- O sharenting consiste na prática de publicar e compartilhar vídeos e fotos dos filhos nas redes sociais.
- Embora, muitas vezes, as publicações não tenham cunho de exploração ou monetização, podem colocar a segurança das crianças em risco.
- A exposição excessiva e de momentos que podem envergonhar crianças e adolescentes também pode causar problemas psicológicos.
- Veja dicas para manter os filhos seguros nas redes sociais.
O debate ultrapassou a barreira das redes sociais e alcançou a esfera política, reforçando a urgência de medidas para proteger crianças e adolescentes. Enquanto existem os que exploram, ativamente, a imagem dos menores de idade para ganhos financeiros, existem os que colocam os filhos em risco sem saber.
O que significa o termo sharenting
Há algum tempo, surgiu em debates na web o termo sharenting, palavra derivada dos termos em inglês share, que em português significa compartilhar, e parenting, que se traduz parentalidade. A expressão se refere à prática de publicar imagens, vídeos e momentos da vida dos filhos nas redes sociais, o que levanta questionamentos sobre a privacidade, segurança e bem-estar das crianças.
A psicóloga Thelma Alves de Oliveira, que atua como assessora da diretoria do hospital pediátrico Pequeno Príncipe, comenta que é natural os pais sentirem orgulho e registrar momentos especiais. Entretanto, antigamente, isso acontecia em um círculo mais restrito, por meio de álbuns de fotos e vídeos passados na televisão em vídeo cassetes.
“As redes sociais transformaram esse ato em algo público e irrestrito, muitas vezes sem a reflexão crítica sobre as consequências. Assim, as imagens passam a ser acessíveis a desconhecidos, sem significado e fora do contexto familiar”, comenta a especialista. Ela acrescenta ainda que o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) garante que “toda criança tem direito à proteção da sua imagem, identidade e privacidade”.
A lei esclarece o que é comprovado cientificamente. A criança em fase de desenvolvimento ainda está em formação e não tem maturidade cognitiva ou emocional para consentir com a exposição.
Os riscos do sharenting
Uma pesquisa feita em 2022 pela TIC Kids On-line Brasil, do Comitê Gestor da Internet no Brasil, mostrou que, entre crianças e adolescentes de 9 a 17 anos de idade, 93% estão conectados à internet no Brasil.
Outro relatório, publicado pela Children’s Commissioner, organização voltada para a proteção da infância, apontou que uma criança tem, em média, mais de 1.300 imagens publicadas nas redes sociais antes de completar 13 anos.
Em entrevista ao Metrópoles, Gezyka Silveira, coordenadora de Proteção e Desenvolvimento Infantil da Plan International Brasil, comenta que quando imagens, vídeos e informações sobre crianças na primeira infância, que vai do 0 aos 6 anos, são compartilhados sem os cuidados necessários, as consequências vão desde os riscos de segurança até problemas de saúde mental, bem-estar e desenvolvimento social, cognitivo, emocional.
“A superexposição pode comprometer seriamente a construção saudável da identidade e da autoestima da criança. Nessa etapa da vida, meninas e meninos precisam de condições específicas para crescerem de forma plena, como segurança, respeito à individualidade e proteção de sua familia”, alerta a especialista.
A psicóloga Thelma acrescenta ainda alguns dos maiores riscos envolvidos nessa superexposição. Entre eles, o uso indevido das mídias por pedófilos e exploradores sexuais, que usam fotos em redes de exploração; a perda de privacidade e controle sobre o que é postado, uma vez que qualquer conteúdo pode ser salvo, editado e manipulado; e facilitação de sequestros e perseguição pelo compartilhamento de detalhes do cotidiano, como horários de saída de casa e a escola que a criança frequenta.
Outras consequências também podem atingir a saúde mental desses jovens, como o bullying e cyberbullying. Um conteúdo de uma criança de 5 anos vai continuar na internet quando ela estiver mais velha, o que pode causar constrangimento e humilhação.
Como se proteger
A missão exige dedicação. “Não é fácil, já que as plataformas nem sempre são seguras, ainda mais em se tratando de crianças e adolescentes. Se as famílias decidem fazer isso, devem tomar muito cuidado e agir de forma responsável, respeitosa em relação aos direitos das crianças e adolescentes, e consciente sobre as medidas a serem adotadas para mitigar os riscos dessa exposição”, acrescenta Gezyka.
Confira mais dicas
É importante considerar que a infância é uma fase sensível e peculiar de desenvolvimento em que meninas e meninos estão construindo sua identidade, autoestima, valores e percepção sobre o mundo. Por isso, toda exposição pública deve ser cuidadosamente pensada.
- Antes de publicar qualquer conteúdo, é fundamental que mães, pais e cuidadores reflitam sobre o impacto que aquela imagem pode ter, não apenas no presente, mas também no futuro da criança.
- Para compartilhar com mais segurança, é importante evitar divulgar informações sensíveis, como localização, nome da escola, rotina da criança e imagens íntimas e/ou constrangedoras.
- Evite postar em tempo real, especialmente em momentos de lazer, viagens e lugares que são frequentados habitualmente. Tome cuidado com detalhes pessoais e que facilitem que alguém chegue até a criança.
- Não publique imagens com uniforme escolar, placas de carro, endereços ou rotina familiar.
- Prefira postar nos Stories para amigos próximos ao invés do feed e, de preferência, compartilhe por aplicativos de mensagens criptografadas.
- Observe e monitore os comentários e repostagens.
- Desative a opção de download, compartilhamento ou repost automático, quando a plataforma permitir.
- Mantenha perfis fechados. Controle quem tem acesso às postagens e priorize conteúdos que respeitem a dignidade da criança.
Sempre que possível, é recomendável envolver a criança na decisão sobre o que será compartilhado, fortalecendo sua autonomia e o vínculo de confiança com os adultos e responsáveis. “Compartilhar momentos da infância pode ser uma forma bonita de celebrar o crescimento dos filhos, porém, é essencial que isso seja feito com cuidado. A proteção começa no gesto de pensar antes de postar”, completa Gesyka.
A especialista em segurança infantil reforça a necessidade de que as plataformas se responsabilizem por conteúdos inadequados e que a legislação se fortaleça para a proteção de crianças e adolescentes.
O constrangimento
Outro ponto muito abordado no debate sobre o sharenting é a publicação de conteúdos que podem ser vexatórios para a criança, seja no presente, seja no futuro, afinal, uma vez publicado é difícil, quase impossível, remover o conteúdo da internet por completo.
“A exposição de situações vexatórias envolvendo crianças, como momentos de choro, medo, constrangimento ou comportamentos considerados engraçados pelos adultos, pode acarretar sérios prejuízos ao desenvolvimento emocional, social e psicológico dessa criança”, afirma Gesyka.
Ainda que sejam feitas com o intuito de divertir e sem intenção de ferir os sentimentos da criança, o conteúdo dessas publicações pode gerar impactos negativos duradouros na forma como a criança se percebe e se relaciona com o mundo ao seu redor.
Em uma fase de construção da identidade e da autoestima, a exposição constante a situações humilhantes ou desconfortáveis, mesmo que a criança não compreenda totalmente naquele momento, pode favorecer a internalização de sentimentos de vergonha, insegurança e desvalorização.










