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Unhas batem na tela do celular, os dedos amassam devagar um papel e uma voz sussurra sons ritmados. Esse ritual se repete nos vídeos chamados de ASMR. A promessa deles é te induzir ao sono e “arrepiar seu cérebro” por meio de sons e fala ritmada. Para quem já se aventurou pelas partes menos famosas do YouTube e esbarrou na técnica, o resultado foi “tiro e queda”.

A estudante de artes cênicas Ana Luíza de Franco, 23, descobriu os vídeos em 2014 com um ex-namorado. Até hoje ela assiste e diz que sempre fica curiosa para saber se vai funcionar. “Parece que o ASMR me dá relaxamento mental”, afirma. ASMR é uma sigla em inglês para “Autonomous Sensory Meridian Response”, algo como resposta sensorial autônoma do meridiano em português. À primeira (e talvez à segunda) vista os vídeos podem parecer bizarros e até cômicos.

Geralmente quem protagoniza as gravações são mulheres com a frase de abertura “que bom que você voltou”. Elas sussurram em um microfone especial chamado binaural e fazem movimentos com as mãos. Além disso, elas emitem barulhos específicos com a boca, batem as unhas em caixas e arranham objetos. Para Ana Luíza, a descoberta do ASMR foi fascinante. “Gostei de notar os sons, arrepiei em alguns e dormi. Passei a prestar mais atenção em quais sons poderiam causar percepções positivas e negativas” afirma.

Gabriel Borges, 22, conta que começou a assistir aos vídeos no começo do ano, na esperança que fosse dormir melhor. “No primeiro, fiquei muito entusiasmado. Pesquisei um monte no YouTube. Hoje em dia estou ‘viciado’, então o efeito já não é o mesmo, mas quando eu fico alguns dias sem assistir, eles voltam a todo vapor”, afirma.

A criatividade do conteúdo é extensa. Existem tipos com temas, como “ASMR culinário”, no qual a youtuber Sweet Carol usa sons da preparação de sagú para relaxar o espectador. Outra coisa popular são os “roleplays” (encenação) no qual essas mulheres interpretam esteticistas de Spa, maquiadoras, operadoras de caixa de supermercado e até agentes do FBI.

Independente do assunto, as falas sempre são em um tom de voz baixo e ritmado. O psicólogo e psicoterapeuta Gerson Pinho do Hospital de Pronto Atendimento Infantil afirma que os métodos dos vídeos são parecidos com hipnose. “O ASMR não se difere tanto de algumas técnicas utilizadas por procedimentos ligados à meditação ou adotadas por hipnoterapeutas e hipnólogos, como um tom de voz suave, compassado e intervalado”.

O especialista explica também que as demandas da vida moderna tornam mais difícil cair no sono. Por isso, ele considera o ASMR uma boa forma de desligar a mente e relaxar. “Sugere-se procurar um ambiente tranquilo e pouco iluminado, escolher um bom fone de ouvido que não gere desconforto, assistir ao vídeo em tela cheia, além de desligar o celular ou desativar as notificações”.

Ao dizerem coisas como “que bom que você voltou” e “como você está?” nos vídeos, o psicólogo acredita que é criado um produto que parece personalizado. “Estreita o abismo que há entre a ficção e a realidade”, fala. Como não existem estudos sobre o tema, Gerson acha difícil afirmar qual tipo de efeito esse falso vínculo entre protagonista e espectador pode ter. “As consequências deste vínculo podem ser tanto positivas quanto negativas.”

O “arrepio do cérebro” também é algo que não tem comprovação científica, mas a maioria dos adeptos do ASMR afirma sentir isso com os gatilhos dos vídeos. A origem do método é desconhecida e alguns apontam que os primeiros vídeos de ASMR foram protagonizados pelo pintor Bob Ross, na série “The Joy of Painting”, na qual ele falava sobre técnicas de pintura.

O programa era dos anos 80 e há relatos de pessoas que assistiam Bob só pelo seu tom de voz relaxante. Os episódios também contavam com outros aspectos que são populares nos vídeos de ASMR de hoje, como a frase “que bom que você veio”, movimentos de mãos e voz ritmada.

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