A falta de sono virou rotina e afeta – e muito – nossa saúde

A privação de sono, seja por distúrbios ou por falta de tempo, aumenta o risco de câncer, depressão e infarto

atualizado 20/03/2016 18:43

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Dormiu bem? Mesmo? Tem certeza? Se a resposta for sim, parabéns. Você faz parte de um seleto grupo de brasileiros que não têm problemas para curtir uma boa noite de sono, dessas reparadoras, com horas suficientes de descanso. Alguns estudos dão conta de que mais de 60% da população têm dificuldade para dormir bem. Cerca de 5% têm sonolência diurna. Segundo um estudo antigo, da Universidade Federal de São Paulo, em 2009, 77% dos moradores da capital paulista apresentavam algum problema relacionado ao sono.

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Somados os números à relação de doenças às quais a privação de sono está relacionada e aos reflexos disso à luz do dia – como queda na produtividade no trabalho, por exemplo -, os especialistas passaram a considerar noites mal dormidas um problema de saúde pública. Nos EUA, sono ruim é oficialmente epidemia desde 2014. Para se ter uma ideia, num levantamento de 2009 do Control Disease Center, quase 6% das pessoas com entre 35 e 45 anos relataram ter caído no sono enquanto dirigiam no mês anterior. Sono não é problema só para quem não dorme.

Dormir mal faz mal
Culpe quem quiser. É o trabalho que não cabe dentro do dia e invade a madrugada, a ansiedade que não te deixa pregar os olhos, um bebê que interrompe o seu sono que nem a Tele Sena, de hora em hora. O fato é que as pessoas estão adoecendo. Sono insuficiente está ligado a maiores riscos de doenças cardiovasculares, diabetes, obesidade, além de perda de memória, baixo rendimento, dificuldade de concentração, sonolência diurna e pior – ansiedade e depressão, doenças que já têm gatilhos mais que suficientes nessa sociedade que vive no 220 volts. Estamos pagando um preço alto pela qualidade de vida ruim que virou nosso modus operandi.

Tenho pacientes que trabalham cedo, pegam três ônibus e levantam às 3h da manhã. Aí eles dormem no ônibus ou no metrô e é como se ali fosse ainda o dormitório deles. Eles acordam e depois continuam seu sono a caminho do trabalho. Imagina a repercussão disso na saúde física e mental dessa pessoa. A privação de sono é um problema.

comenta o neurologista Luciano Ribeiro, do Instituto do Sono de São Paulo e presidente da Associação Brasileira do Sono

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A estatística geral diz que o brasileiro dorme, em média, sete horas por noite. Nos consultórios e avaliações, diz Ribeiro, quase nunca chega a isso. E não só em adultos. Vários estudos ligam a privação de sono em crianças e adolescentes – especialmente em quem estuda pela manhã – a casos de ansiedade e depressão. E nem sempre é excesso de iPad antes da cama (embora às vezes seja, sim). Pode ser uma rotina que simplesmente não cabe no nosso ritmo biológico.

“Algumas pessoas são vespertinas. Dormem tarde e acordam tarde. É uma característica genética. Não é questão de se adaptar”, explica Ribeiro. Imagina, para essas pessoas, o sofrimento de enfrentar uma aula de matemática às 7h. “Uma crianças dessas que for para a escola às 6h vai ter problemas de aprendizado. Gera déficit de atenção, baixo rendimento…”

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O outro lado da moeda é quando a falta de sono é causada por um distúrbio. Os mais comuns são insônia e apneia obstrutiva do sono, quando a pessoa têm momentos durante a noite em que fica mais de dez segundos sem respirar. Além de perigoso, no caso da apneia, os distúrbios trazem prejuízos à vida. Outro caso é a narcolepsia, quando uma pessoa tem episódios incontroláveis de sono, o que pode causar uma série de problemas no trabalho, por exemplo.

“Por isso, é muito importante que as pessoas se conscientizem da importância do diagnóstico e do tratamento. Quem tem apneia, tem maior índice de complicações cardiovasculares. E os casos de narcolepsia, por exemplo, às vezes levam até 10 anos para o diagnóstico”, frisa a neurologista Rosana Cardoso Alves, da Associação Brasileira do Sono.

Por isso, não, dormir não é frescura. Rasgue a máxima de que dormir é para os fracos, aconchegue-se debaixo do edredom e só se mexa depois que o sono atrasado estiver em dia. Se você ainda não está convencido do porquê, aí vão cinco motivos, segundo especialistas:

1. Aprendizado:
É durante o sono que o cérebro fixa o aprendizado. Além disso, noites mal dormidas podem causar piora da memória e sonolência diurna, o que dificulta a concentração. Junte tudo isso, e o resultado são crianças – ou adultos – taxados de dispersos, burros ou preguiçosos.

2. Produtividade no trabalho:
Os mesmos problemas listados acima podem acarretar desempenho ruim no trabalho. Pensando em termos econômicos, pense o que isso pode custar a uma empresa onde a maior parte dos funcionários dorme mal. A coisa é tão séria que algumas companhias começaram a adotar a siesta, ou as chamadas “salas de descompressão”, onde pufes, redes e almofadas convidam os funcionários a um cochilo reparador depois do almoço.

3. Constrangimentos:
Em casos extremos, falta de sono pode gerar uma sonolência tão forte durante o dia que algumas pessoas relatam cair no sono até no meio de uma reunião importante ou – imagine – durante um encontro. Na melhor das hipóteses, você pode desperdiçar o amor da sua vida. Na pior, vai acabar demitido e tendo a vida profissional abalada.

4. Obesidade:
Também é no sono que o organismo “regula” os hormônios da fome e da saciedade. Além disso, uma pesquisa de 2012 da Universidade de Uppsala, na Suécia, revelou que quando se dorme mal, uma região do cérebro responsável pelo apetite fica mais ativa.

5. Câncer:
Já é velha a noção de que privação de sono aumenta o risco de problemas cardiovasculares, como infarto e derrame. Mas em 2012, cientistas da Universidade de Wisconsin, nos EUA, relacionaram também o problema – especificamente a apneia do sono – a um maior risco de morte por câncer. Segundo o estudo, entre os mais de 1,5 mil voluntários, acompanhados por 22 anos, os que sofriam de apneia tinham cinco vezes mais chances de morrer de câncer que os outros.

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