Após 4 anos de espera, casal adota irmão do filho: “Dia mais feliz”
A emocionante história de Lela e Wilson, que realizaram o sonho do filho ao adotar seu irmão biológico, separado desde a adoção
atualizado
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Quando Kauê, aos 6 anos, descobriu que seria adotado sozinho, um pedaço do seu sorriso se apagou. Ele queria o irmão mais velho de volta. “Eu fiquei um pouquinho triste, porque eu não ia poder ficar com o meu irmão”, contou o menino, hoje com 11 anos. Quatro anos depois, a promessa se cumpriu: Gabriel, de 15 anos, seu irmão biológico, voltou ao seu lado para morar de vez com sua família adotiva.
Essa é a história de Lela de Vincenzo, chef de cozinha e criadora de conteúdo, e de seu marido, Wilson Faria. Depois de anos tentando engravidar, sem sucesso, e de lidar com tratamentos dolorosos de fertilização, eles escolheram abraçar uma nova forma de construir família e, na fila de adoção, entraram o pequeno Kauê. O amor veio primeiro, mas algo ficava incompleto, faltava Gabriel, o irmão que Kauê lembrava em sonhos, mas guardava no peito em silêncio.

Do desejo de ser mãe às portas da adoção
“Passei quatro anos tentando engravidar, até me permitir parar. Era muito sofrimento”, recorda Lela. Sem saber exatamente o que acontecia no seu corpo, ela enfrentou diagnósticos de baixa reserva ovariana e o desgaste emocional dos hormônios. Os procedimentos eram caros, as expectativas altas, os incômodos frequentes. Até que, exausta, decidiu: “Chega, não dá mais pra mim.”
Foi nesse ponto de ruptura que Lela e Wilson deram entrada no processo de adoção, em janeiro de 2017. A espera, conta ela, foi feita de ansiedade constante: “Uma espera, sim, é uma ansiedade. Que eu não saía de casa achando que alguém ia me ligar do fórum a qualquer momento.”
A chegada de Kauê: um lar em construção
Durante a pandemia, a chance surgiu: em setembro de 2020, o telefone tocou. “Temos uma criança, chegou a sua vez na fila, e nó temos o Kauê. Ele tem seis anos e está para adoção.” Sem demora, vieram os encontros on-line — desenhos, dobraduras, jogos — , e então a visita presencial. Em dezembro daquele ano, Kauê passou a morar definitivamente com Lela e Wilson.
Ainda assim, a vida com um filho adotado veio com o peso da separação: Kauê tinha um irmão mais velho. “Ele sempre falou da saudade que ele tinha e que ele queria muito entender por que não puderam ser adotados juntos”, conta Lela. Era na ausência de Gabriel que se escondia uma dor silenciosa, uma lembrança tênue, às vezes confusa: “Ele dizia que o irmão dele era branco”, surpreendia-se Lela, pois Kauê não tinha certeza exatamente de como se lembrava.
Gabriel: anos longe, espera e reencontro
Gabriel, por sua vez, viveu fora do convívio com Kauê. “Foi bem triste… Foi uma despedida. Não foi uma despedida que eu esperava que a gente tivesse, porque a gente era irmão”, diz Gabriel. O jovem saiu de um abrigo, foi para outro, viveu na incerteza sobre lares que abriram para ele, que iam bem ou não.
Quando Lela e Wilson souberam que Gabriel tinha sido devolvido por outra família, resolveram insistir: “Vamos atrás”, disseram um ao outro. “Nosso advogado entrou em contato com o fórum. Falei: ‘Queremos o Gabriel para nós”, explica a mãe. E vieram os passos formais, os documentos e o encontro esperado.
O reencontro dos irmãos que aqueceu milhares de corações
No dia em que Lela contou para Kauê que Gabirel viria morar com eles, algo mudou para sempre. “Foi o dia mais feliz da minha vida. Eu nunca vi o Kauê daquele jeito”, lembra a chef de cozinha. Kauê, que guardara a saudade do irmão em gavetas invisíveis, pulou e chorou de alegria: “Todo mundo chorou, mas foi muito legal”, afirma o pequeno.
Assista ao vídeo do reencontro:
Quando Gabriel foi questionado sobre descobrir que seria Kauê o seu “novo” irmão, ele respondeu: “Eu fiquei muito feliz. Eu agradeci por esse tempo, por vocês terem cuidado dele tão bem”. Gabriel, que esteve tanto tempo em abrigos, finalmente entendeu que seu irmão e seus novos pais o esperavam e iriam acolhe-lo e amar.
Reflexões, força e esperança
Hoje, a casa de Lela e Wilson pulsa com o riso dos dois meninos. “Minha família é maravilhosa”, diz Kauê, seguro e sorridente. E Gabriel: “Eu estou achando isso tudo maravilhoso.” Sentimentos parecidos que carregam no fundo o peso de anos de espera, despedida e incerteza.
Lela deixa um recado para quem está na fila de adoção ou pensa em adotar: “Adoção não é caridade. É um jeito de formar uma família, é uma via de parentalidade […] Quero muito que os pais, os casais que querem ter filhos, tenham esperança. Que as crianças que foram devolvidas tenham esperança. Porque existe uma luz no fim do túnel, existe um final feliz.”
O final feliz deles chega com um nome, com dois irmãos reunidos e com um lar reconstruído. Com a certeza de que o amor, quando insistido, transforma destinos.






































