Inscreva-se no canal MetrópolesTV no YouTube
Vida & Estilo

8 de março: recorde de feminicídios expõe falhas na proteção à mulher

Brasil registra maior número de feminicídios em uma década; silêncio e falta de medidas protetivas são os principais vilões

08/03/2026 10:38, atualizado 08/03/2026 17:38
Foto: Paulo H. Carvalho/Agência Brasília
Denúncia de violência contra mulher

O Brasil chega a este 8 de março, Dia Internacional da Mulher, com uma estatística desoladora: o país registrou, em 2025, o maior número de feminicídios desde que a lei foi criada. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 1.568 mulheres foram assassinadas por questões de gênero no último ano — um aumento de 4,7% em relação a 2024.

O dado revela que, enquanto a sociedade debate homenagens simbólicas, a violência extrema avança silenciosamente dentro dos lares brasileiros, atingindo o ápice de uma série histórica de dez anos.

Receba no seu email as notícias de Fitness&Nutrição

Frequência de envio: Duas vezes na semana

Ver todas as newsletters

Entenda a gravidade do cenário atual

  • Escalada histórica: desde a tipificação do crime em 2015 (com 449 casos), o número de mortes quase quadruplicou, saltando para os atuais 1.568.
  • O “fator invisível”: a maioria das vítimas de feminicídio no DF e no país não possuía Medidas Protetivas de Urgência (MPU) ativas nem registros prévios na polícia.
  • Ciclo de abuso: o crime é o desfecho de um padrão que começa com controle psicológico e evolui para agressões físicas, muitas vezes camufladas por fases de “lua de mel”.
  • Perfil do perigo: o ambiente doméstico segue como o local mais letal, onde o agressor — geralmente o parceiro — exerce controle possessivo.

Uma década de violência em ascensão

A série histórica iniciada em 2015, ano em que o feminicídio entrou no Código Penal, desenha um gráfico de horror. Se no primeiro ano foram 449 casos, o número saltou para 929 em 2016 e não parou de crescer, ultrapassando a marca de 1,3 mil casos durante a pandemia e chegando ao recorde atual.

Para a Delegada Mariana Almeida, Chefe Adjunta da DEAM II, esses números mostram um cenário complexo. “Temos um aumento real da violência, mas também uma maior conscientização para a denúncia. No entanto, o feminicídio é um crime evitável. O silêncio ainda é o maior aliado do agressor”, pontua.

Entre no canal de WhatsApp do Metrópoles Vida & Estilo
Violência contra a mulher
Muitas vítimas desenvolvem dependência emocional, baixa autoestima é um processo de normalização da violência, especialmente quando o abuso se instala de forma gradual

A psicologia por trás da permanência

Romper com essa estatística exige entender por que é tão difícil sair do ciclo de violência. A psicóloga e psiquiatra Lidiane Silva explica que o abuso psicológico é o primeiro passo da escalada.

“O agressor usa o gaslighting para fazer a vítima duvidar da própria sanidade. Isso, somado ao vínculo traumático — onde momentos de violência são seguidos por pedidos de perdão —, cria uma prisão emocional”, afirma.

Muitas mulheres permanecem no relacionamento por medo de represálias, dependência financeira ou a esperança vã de mudança do parceiro. “A vigilância constante sobre horários, roupas e amizades são sinais claros de que a situação pode evoluir para algo fatal”, alerta a médica.

Foto de mulher com mãos em vidro. Dados mostram aumento no número de estupros - Metrópoles
Brasil tem maior número de feminicídios dos últimos 10 anos, diz pesquisa

Medidas protetivas: a barreira entre a vida e a morte

A Lei Maria da Penha é a principal ferramenta de combate a esse recorde de mortes. A Medida Protetiva de Urgência (MPU), que deve ser expedida em até 48 horas, afasta o agressor e proíbe qualquer contato. No Distrito Federal, o descumprimento é crime sem direito a fiança por decisão do delegado.

“A mulher não deve esperar a agressão física para buscar ajuda. A injúria e a violência psicológica já são motivos para acionar a rede de proteção”, reforça a delegada Mariana Almeida. A orientação é clara: ao perceber os primeiros sinais de controle, o isolamento deve ser rompido através de conversas com pessoas de confiança e o acionamento dos canais oficiais, como o 190 ou o 180.

O papel da sociedade

Neste 8 de março, a campanha “Não me dê flores” ganha um peso estatístico: o direito à vida é a reivindicação urgente. Especialistas convergem em um ponto: em briga de marido e mulher, a sociedade deve, sim, intervir. Observar mudanças de comportamento em amigas ou familiares e oferecer escuta sem julgamento são passos essenciais para que a vítima sinta segurança para denunciar e sobreviver.