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Tipo Assim

Quando os portugueses descobrem Brasília (e acham um tédio)

Integrantes do Teatro O Bando, um dos principais grupos de Lisboa, conhecem a cidade e estranham a ausência humana nas vias sem esquinas

Sérgio Maggio19/09/2015 00:01, atualizado 18/09/2015 22:26
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Quando os portugueses descobrem Brasília (e acham um tédio)
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Guilherme Noronha, Sara de Castro e Rui Francisco: integrantes d’O Bando lisboeta  *Divulgação**

PILOTO – Atenção, tripulação. Pouso autorizado.

Ao ouvir o comando, o ator português Guilherme Noronha dirige os olhos sobre a vastidão de verde e de concreto que risca o chão Brasília em quadradinhos. Apesar de ter tido uma noção sobre a arquitetura de Oscar Niemeyer e o urbanismo de Lucio Costa, ele não tem ideia do que encontrará em solo. O desenho da capital em formato de avião é uma das surpresas da viagem. O jogo parece divertido. Tenta encontrar os contornos geométricos (tarefa cada dia mais difícil, por sinal), quando algumas vozes roubam o estado de concentração.

COMISSÁRIO – Bem-vindos a Brasília!

PASSAGEIRA (entediada) Brasília? Putz! Acabaram as minhas férias!

O prenúncio de quase um castigo anunciado pela passageira ao lado é um contraponto para os sentimentos de Guilherme. Apesar de estar aqui a trabalho, tudo que encontrará pela frente terá o sentido da descoberta. A maior delas: O Brasil. É a primeira vez que vem ao país e, numa cidade, que diretamente não tem o marco da colonização.

GUILHERME – Estou impressionado com o horizonte. A vastidão. A sensação de infinito.

Guilherme veio numa missão especialíssima. Trazer para os brasilienses a leitura portuguesa de um dos clássicos do maior escritor brasileiro de todos os tempos: Machado de Assis. Adaptador e encenador do espetáculo Casa Verde, monólogo inspirado na obra-prima O Alienista, desembarcou sob uma umidade perfeita para camelos e beduínos, ao lado da atriz Sara de Castro e do Rui Francisco (iniciados no Brasil, mas virgens em Brasília). Todos integrantes da Cia. de Teatro O Bando, tradicional grupo lisboeta fundado em 1974.

Conheça mais sobre o bando, a partir do depoimento do diretor João Brites.

Coração quente e cidade vazia
Sob aquele céu azul e sem um floco de nuvem, Guilherme, Sara e Rui aportaram cercados de afetos. Foram pegos no aeroporto pelo cerimonial do Festival Cena Contemporânea e encontraram um amigo de longa data: Diego Borges, ator e diretor do grupo brasiliense Teatro do Instante, que trabalhou com os portugueses em Lisboa e criou laços de amizades.

Sem saber, Diego, o amigo de coração quente, seria chave para entender a dor e a delícia de se pisar nesta cidade no auge da seca, quando os ipês amarelos e a sede humana explodem em intensidades semelhantes e sensações contraditórias.

SARA – Estávamos aqui de certa forma porque Diego se encantou com o nosso trabalho e passou a multiplicá-lo. Com ele, começamos a entender que desvendar Brasília era um caminho melhor traçado pela mão do outro.

Trajeto amalucado
Já instalado no Setor Hoteleiro Norte, Rui estava a alguns metros da Torre de TV e desejou conhecê-la de perto. Pensou em atravessar o Eixo Monumental, mas foi aconselhado a fazer a aproximação de carro. Estranhou, mas aceitou a carona. Numa mesma viagem, viu a Torre pelo lado sul, passou pelo Teatro Dulcina, percorreu toda a Esplanada, retornou pela Praça dos Três Poderes e fechou o circuito pelo lado norte da Torre. Toda vez que se lembrar de Brasília, promete desenhar essa rota amalucada para contar a experiência de estar numa cidade de automóveis.

RUI – Soube que existem 826 postos de gasolina (!?) no corpo central de Brasília. Então, olho para o lado e não vejo pessoas.

GUILHERME – Os encontros estão acontecendo nas quadras, nos apartamentos.

SARA – Entranho também a falta de diversidade de classes sociais.

RUI – Tenho a sensação de que a cidade foi feita para não falhar, como um modelo de perfeição, só que falha. Não foi feita na dimensão das pessoas e tem a lógica da escala dos arquitetos.

Os visitantes concluem que, sem o coração quente de Diego, dois dias seriam suficientes para conhecer Brasília Patrimônio da Humanidade, mas pouco para a vida que se esconde nos vãos monumentais. Diego ouve o relato, sorri de canto, não é de falar muito, acho que ele se sentiu especial, como se tivesse sido feito pelo traço do arquiteto.

Mas… Peraí. E se um jovem nascido em Brasília fosse pela primeira vez numa outra cidade e essa cidade fosse Lisboa?

Todos riem.

Certamente, o estranho seria Lisboa.

Mas isso não é o tema central do romance O Alienista?

Esse Machado de Assis, sempre atualíssimo!