Público do Cena Contemporânea puxa “Fora Temer” depois dos espetáculos
Aplaudida diversas vezes em cena aberta, a montagem fluminense tem sequências diretamente ligadas ao momento político, como o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff
atualizado
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Instigados por espetáculos que passam a limpo no palco discussões políticas sobre o Brasil e o mundo, espectadores do Cena Contemporânea têm puxado gritos “Fora Temer” depois das apresentações. Foi assim nesta sexta-feira (26/8) com “Caranguejo Overdrive”, no Teatro Sesc Garagem, quando, aos efusivos aplausos finais, o coro surgiu espontaneamente.
Aplaudida diversas vezes em cena aberta, a montagem fluminense tem sequências diretamente ligadas ao momento político, como o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff, numa interpretação visceral da atriz Carol Virgüez. Ao final, o público, extasiado com a performance dos atores e da banda, saiu do teatro com um “Fora Temer”.
Na quinta-feira (25/8), a montagem “A Floresta Que Anda”, de Christiane Jatahy, encenada no Mezanino do Museu Nacional Honestino Guimarães, instigou espectadores a puxar o mesmo coro enquanto desciam a rampa que interliga o equipamento cultural ao Eixo Monumental. A peça fala de desaparecidos em ditaduras, da fuga dos imigrantes da Síria e da ação desmedida da polícia nas favelas cariocas.
Caranguejo não é peixe
“Caranguejo Overdrive” (Aquela Companhia de Teatro/RJ) é uma ode aos que foram sucumbidos pelo furor da história, aos que nunca serão citados e aos enterrados, como narra a dramaturgia pulsante de Pedro Kosovski, para virar comida de caranguejos e pôr na roda o ciclo da vida.
Num só tempo dramático, o espetáculo alinha diversas discussões urgentes que orbitam o genocídio diário dos miseráveis. Da Guerra do Paraguai, que usurpou a vida de negros, índios e excluídos, cujas vidas não atendiam aos interesses da nação, à força avassaladora do crescimento das cidades que soterra, sem piedade, os que estão às margens.
A força da montagem está na potência da sua dramaturgia espetacular ao se associar à sonoridade pop do power trio, numa unicidade estética ao projeto “Mangue Beat”, que deglutiu a tradição e fez a cena musical brasileira sair do marasmo nos anos 1990.

Nesse sentido, a direção de Marco André N uns deixa evidente os pontos de vistas do coletivo ao alinhar o texto de Pedro Kososvki à partitura sonora. Nesse entre, estão as performances de um elenco ligado firmemente à cena, como se fossem caranguejos em seu habitat-lama.
O destaque de Carol Virguez é intrínseco à proposta. Cabe a ela, estrangeira de nascença, brasileira de convívio, passar a limpo um Brasil que, por vezes, nem entendemos direito. Os aplausos em cena aberta à atriz é um misto de agradecimento por proporcionar uma reflexão crítica (quase um orgasmo) e pela performance arrebatadora.
