Geraldo Moraes, o cineasta que teve a morte quase roteirizada

Conhecido pela sua paixão ao Brasil Central, diretor faleceu no sábado (5/8), enquanto filmava série sobre o Pantanal

atualizado

metropoles.com

Compartilhar notícia

Facebook/Reprodução
Geraldo Mores
1 de 1 Geraldo Mores - Foto: Facebook/Reprodução

Geraldo Moraes escreveu um capítulo singular na história do cinema brasileiro. As suas narrativas fabulosas mergulharam no universo do Brasil central. Ele carregava em si esse orgulho. Escrevia filmes com paisagens que os cineastas do mercado evitavam. Não seguia as rotas comuns: os pampas, as praias cariocas, a paisagem nordestina. Por vezes, tão solicitadas.

Geraldo optou pela vastidão das terras, pelo horizonte a perder de vista, a imensidão do Pantanal. Havia um amor intenso por esse Brasil ainda tão pouco conhecido. Ele exilou-se aqui quando a ditadura militar apertou o cerco. Cheio de ideologias, militou na experiência do Centro Popular de Cultura (CPC) da UNE. No centro do país, ganhou sossego pra criar, ser professor da Universidade de Brasília (UnB) e estabelecer uma raiz não só com Brasília mas com o Centro-Oeste.

Talvez, por isso, morrer, no último sábado (5/8), tão inesperadamente no meio de um set no Pantanal, tenha sido um desfecho tramado pelo destino. Geraldo despediu-se fazendo o que mais gostava e numa terra que amava profundamente. Se houvesse algum conforto em sua partida, seria essa combinação roteirizada.

Tratado como um mestre pelos que cultuam o cinema autoral, Geraldo Moraes era um cavalheiro no set de filmagens. Acompanhei certa vez o média-metragem “Pequena Paisagem do Meu Jardim”, dirigido pelo filho, o ator Bruno Torres. Quando o pai chegou ao local, foi aplaudido pela equipe. Elegante, não quis dar palpites. Foi para um canto, mudou o ângulo de visão e viu o menino que adorava brincar com as câmeras se tornar um profissional de mão cheia.

Não consigo acompanhar o ritmo dessa garotada. É muito intenso

Geraldo Moraes

Geraldo tinha um tempo próprio. Conversamos uma vez sobre sua relação com o cinema, que se iniciou ainda menino no Rio Grande do Sul. “A narrativa parecia não precisar correr. Os personagens não necessitam explicar. O cinema fala por si em seu tempo”, contou;

Havia um tempo próprio para colocar cada pedaço da história em seu lugar. O cineasta gostava de contar detalhes pela paisagem. “No Coração dos Deuses” e “Círculo de Fogo”, apesar de tão diferentes, contam a história a partir do que se passa em volta. O espaço era a métrica de Geraldo. Em “O Homem Mau Dorme Bem”, essa paisagem é quase um personagem. Fica na memória fortemente o posto de gasolina, a estrada que seguem e tudo que fica pelas margens.

Em plena atividade, Geraldo teve a vida interrompida no momento em que fazia a série “Pantanal e seus Bichos”. Havia ainda a produção do novo longa, “Pele Seca”. Com uma identidade com o cinema de Brasília, da militância ao exercício pedagógico, o cineasta era um personagem da história do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. No palco do Cine Brasília, segurou alguns Candangos e celebrou a arte de inventar mundos.

Quais assuntos você deseja receber?

Ícone de sino para notificações

Parece que seu browser não está permitindo notificações. Siga os passos a baixo para habilitá-las:

1.

Ícone de ajustes do navegador

Mais opções no Google Chrome

2.

Ícone de configurações

Configurações

3.

Configurações do site

4.

Ícone de sino para notificações

Notificações

5.

Ícone de alternância ligado para notificações

Os sites podem pedir para enviar notificações