Luiz Melodia era voz de um Brasil inventivo e poético
O cantor faleceu, na última sexta-feira (4/8), aos 66 anos
atualizado
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Quando Cassia Eller morreu, nas últimas horas de 2001, eu liguei para Luiz Melodia. Estávamos chocados com a súbita tragédia de uma das maiores intérpretes do país. No papel de entrevistador e entrevistado, subvertemos o distanciamento e as estranhezas. Melodia estava com a voz embargada. Eu não segurei muito o choro.
“É uma pena. Estamos perdendo nossos transgressores”
Luiz Melodia
Melodia construiu uma carreira como quis, sem abrir mão do que acreditava ser. Por vezes, não foi compreendido pela indústria de shows. Lembro-me de uma apresentação na Villa-Lobos na qual o cantor não entrou em cena, atrasou-se e os produtores se descabelavam em público. Quando começou, fez um espetáculo inesquecível.
Melodia era voz de Brasil inventivo e poético que rompeu a invisibilidade, graças a transgressão que trazia em si. Se aproximava de gênios como Itamar Assumpção, Jards Macalé sem perder a singularidade.
Dono de uma poesia única, construiu um repertório que tocava no perigoso conceito de popular. “Negro Gato” selou essa passagem. Uma vez, num show na Praça do Conjunto Nacional, fez uma multidão cantar cada verso, numa comunhão que diluía o amargo rótulo de marginal. Luiz Melodia era uma poeta e esse conceito já abarcava seu universo particular.










