Com 70 anos de palco, B. de Paiva é um pilar do teatro brasiliense
Série Teatro 061 homenageia o diretor-dramaturgo que começou a vida como “ponto de teatro” aos 15 anos
atualizado
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Ando sentindo muito a falta de B. de Paiva, nosso museu vivo do teatro. Sempre o encontrava às saídas dos espetáculos com a eterna namorada, a atriz Lourdinha Martins. Ele adorava me contar as histórias que viveu. Prometia escrever um livro, “As Besteiras de B”, rindo como um eterno menino.
Tinha uma piada que B. sempre repetia, para mim, como se estivesse contando pela primeira vez: era sobre como Deus criou o teatro em sete dias. Ouvi, com imenso prazer, umas 15 vezes. Sempre ao final, quando o todo-poderoso fez surgir o “iluminador” (no “fez-se a luz”), ele largava aquela gargalhada gostosa.Ficava bravo quando se lembrava que o Brasil era um país com “Alzheimer”. Reclamava que nenhum jornal publicou uma linha sequer sobre os centenários de Paschoal Carlos Magno e Odilon Azevedo (marido de Dulcina de Moraes). E me desafiava.
Em vez de você ficar escrevendo besteiras e baboseiras, dedique-se a criar textos e projetos que resguardem o teatro
B. de Paiva
Hoje, estou aqui, no Metrópoles e nos palcos, seguindo o conselho do mestre.
Aos 85 anos, o ator, dramaturgo, diretor e educador B. de Paiva não mora mais em Brasília. Desde 2014, mudou-se para Fortaleza, cidade que ele define como “aquela que criei havia 400 anos”. Na capital cearense, segue a vida tranquila ao lado da amada Lourdinha, que ganhou fama em Brasília ao fazer a melhor caranguejada da capital.
https://www.youtube.com/watch?v=GwcLTeNPCcA
B. de Paiva tem uma história que se confunde com a modernização do teatro brasileiro. É do tempo em que a atriz tirava a mesma carteira de saúde que as prostitutas (com todo respeito, as profissionais do sexo). Viu a luta de Paschoal Carlos Magno e Dulcina de Moraes para derrubar essa imposição.
Uma vez, fiquei diante do acervo dele e quase enlouqueci. B. tem relíquias que, talvez, nem a Funarte possua. Participou de mais de 500 produções de rádio, tevê e, sobretudo, teatro.
Ali, descobri que B. de Paiva começou a trajetória como “ponto de teatro”, aquele profissional que dava as falas às estrelas da peça. Encontrei preciosidades do grande Paschoal Carlos Magno, que, a partir do Teatro de Estudante, modernizou o teatro brasileiro.
Quando esse homem chegou a Brasília, a cidade ainda estava a se construir. Era 1968 e B. trazia a bagagem de quem fazia teatro desde os 15 anos. Em 2017, completa 70 anos dedicados às artes cênicas. Chegou aqui dirigindo uma das maiores atrizes brasileiras do século 20, Glauce Rocha, no espetáculo “Um Uísque para o Rei Saul”, na Sala Martins Pena. Com ela, fez ainda “O Exercício” e “Antígona”, esta última uma montagem-marco.
B. de Paiva viria a morar em Brasília uma década depois. A convite de Dulcina de Moraes, passou a comandar a Fundação Brasileira de Teatro (FTB). Antes disso, já frequentava a cidade, nos anos 1970, porque se apaixonou por Ecilda Ramos de Souza, secretária-executiva do Fundo Nacional do Desenvolvimento de Educação (FNDE) — uma das propositoras da Lei de Incentivo à Cultura.
B. é professor aposentado da Universidade de Brasília (UnB) e, durante décadas, foi o guardião da Fundação Brasileira de Teatro (FBT). Está, portanto, na base da formação do ensino superior em artes cênicas da cidade.
A importância de B. de Paiva para a formação teatral em Brasília é primordial. Nos anos 1970, dirigiu a peça “O Exercício”, com Iara Pietricovsky, e pensou numa formação acadêmica capaz de tornar o intérprete em produtor de conhecimento. Ele sempre se preocupou com a formação intelectual do artista. É também figura-chave no teatro cearense.
Ainda em Brasília, ajudou a fundar o Ministério da Cultura e dirigiu a Funarte. Fomentou o teatro amador e fez a ponte para a profissionalização da cena. Adorava montar bons textos brasileiros (de Suassuna a Dias Gomes). Defendia a cultura como eixo de formação da identidade nacional. Para B., a memória é o berço.










