O risco que “Aquarius” corre de ser boicotado rumo ao Oscar
Carta aberta do cineasta Kléber Mendonça questiona presença de crítico na Comissão de Avaliação do MinC. Mesmo sem ter visto o filme, o jurado faz campanha negativa do filme pernambucano
atualizado
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O Brasil nunca ganhou um Oscar. Assim como, até este sábado (20/8), não trouxe ao país uma medalha de ouro para o futebol masculino. O cinema e o futebol são formas de expressões estratégicas para mudar a imagem desgastada de uma nação no exterior. Arte e esportes são capazes de transmutar o pensamento do espectador mundial diante de um Brasil de escândalos de corrupção, epidemias de saúde, escalada de desemprego e descontrole da violência.
Dessa forma, delinear e investir numa política pública que eleve produtos culturais ao patamar de excelência internacional é tão importante quanto subir ao pódio após o jogo Brasil x Alemanha.
O filme “Aquarius”, do pernambucano Kleber Mendonça Filho, aponta com um favoritismo internacional que nos faz lembrar os desempenhos de “Central do Brasil”, de Walter Salles, que, em 1999, emplacou duas indicações (filme estrangeiro e atriz), e “Cidade de Deus”, de Fernando Meirelles, que, em 2004, surpreendeu com quatro nomeações (diretor, roteiro adaptado, fotografia e edição).
Apesar de não ter vencido na Riviera, surgiu como favorito em Cannes, ganhando críticas entusiasmadas. Venceu o Festival de Sydney. Tem distribuição em mais de 60 países em todas as plataformas (cinema, TV e VOD, incluindo Netflix em quatro territórios) e estará, em setembro, nos festivais de Toronto e Nova York. No elenco, traz Sônia Braga, uma das atrizes latino-americanas de maior prestigio internacional.
Parece natural que “Aquarius” seja um franco favorito para representar o Brasil no Oscar, a partir de seleção transparente e democrática feita pelo Ministério da Cultura (MinC). No entanto, fatores políticos em torno do longa-metragem criaram uma atmosfera de insegurança, que ganha contornos perigosos para a credibilidade da política pública do órgão.
Seria este o motivo?
Durante a apresentação em Cannes, a equipe de “Aquarius” fez um legítimo protesto sobre o processo de impeachment, que correu o mundo e irritou bastante quem apoiava a posse do governo interino. Na época, o presidente Michel Temer tinha abolido o Ministério da Cultura por não considerá-lo essencial em sua plataforma política. E o protesto de “Aquarius” ecoou fortemente entre os artistas, que já ocupavam equipamentos culturais ligados à pasta, num protesto nacional histórico.
Há duas semanas, rumores sobre uma estratégia para se “vingar” de “Aquarius” ganharam as redes sociais com a nomeação de Marcos Petrucelli para a comissão que vai avaliar e escolher os candidatos. O problema é que o jornalista é um notório opositor do cineasta e de suas posições políticas
Tecnicamente, Petrucelli seria um nome adequado. É jornalista da área de entretenimento, atua na Rádio CBN, e acredito que o mesmo padrão técnico aplica-se aos outros nomes da comissão, pessoas ligadas ao cinema e à cultura, livres para tomar suas decisões. No entanto, a questão é que o jornalista em questão vem atacando, por questões políticas suas já há três meses, “Aquarius”, filme escrito e dirigido por mim, e que o jornalista membro oficial da comissão já informou não ter visto
Kleber Mendonça Filho
Carta pública
A denúncia de Kleber Mendonça Filho virou hoje (19/08) carta aberta à população. O cineasta ainda desmonta o “ataque” de que a equipe de mais de 30 profissionais de “Aquarius” tenha ido a Cannes de férias com estadias pagas por dinheiro público, com orçamento (segundo Petrucelli) de “500” euros por dia.
É triste ter que corrigir com fatos, puros e simples, o tipo de mentira destrutiva que um comunicador tem espalhado de forma tão irresponsável. E essa pessoa está numa comissão que deveria defender os interesses do país, para julgar um filme que ele mesmo vem caluniando da forma mais torpe imaginável
Kleber Mendonça Filho
Em sua defesa, Marcos Petrucelli lembra que a comissão tem nove membros e o filme de Kleber Mendonça Filho é tão favorito quanto os demais candidatos. Aproveita para falar das divergências políticas entre os dois. Elas existem, são ideologicamente opostas, mas não farão diferença (garante o crítico), que, com este episódio, diz-se colocado no posto do “mais temido do país”.
Eticamente comprometida
O fato é que eticamente nenhuma comissão de avaliação pública pode transparecer tendências sejam políticas, sejam estéticas antes do processo de julgamento. É muito difícil que um jurado, tão carregado de ardor político contra um cineasta e um filme, possa exercer, com credibilidade, uma avaliação imparcial. O estrago já foi feito. Só essa sensação de insegurança nos leva para um tempo de guerra fria, no qual a vingança aos opositores era tramada na calada da noite, nas famosas “geladeiras”, que artistas opositores eram colocados.
Que “Aquarius” seja avaliado com lisura. Só assim, poderemos por fé num processo que deve estar acima de ideologias. Que a obra fale por si e sejam enterradas polêmicas menores.
“Aquarius” é um filme sobre amar as pessoas, estar com elas. É também sobre a defesa de um ponto de vista, de uma opinião baseada em fatos e em experiência de vida através do respeito à história de cada um, e como isso se choca com o poder. Ou seja, Aquarius está em casa
Kleber Mendonça Filho
“Aquarius” estreia em 1º de setembro. Confira o trailer.
