Academia Brasileira de Letras é a extensão simbólica da Casa Grande

Ao negar o clamor popular pra eleger a primeira escritora negra, a estupenda Conceição Evaristo, ABL segue alheia ao Brasil real

atualizado 31/08/2018 9:12

Esse pequeno texto que segue quer ser uma ficção. Mas não é pura invenção do imaginário. Portanto, qualquer semelhança com a realidade é mesmo uma articulação política. Nasce em resposta à eleição da cadeira 7 da Academia Brasileira de Letras que elegeu o cineasta Cacá Diegues em detrimento à escritora premiada Conceição Evaristo.

Era um vez…

O clima seria de festa. O ano, de Xangô, orixá da justiça e do merecimento. Há tempos não se falava da Academia Brasileira de Letras (ABL) com uma certa simpatia. Estava a caminho de lá uma rainha negra, escritora de primeira linha, cuja literatura transcende mundos e transforma ideias. Como uma matriarca, a mineira de 71 anos, seguia erguida pelos braços do povo. Homens, mulheres, trans e crianças a cortejavam.

 

Era pra ser uma um rebuliço, com samba de umbigada a noite inteira. No entanto, a porta não se abriu. Simplesmente, passaram as trancas, desligaram as luzes e falaram baixinho. Dentro dos salões, só os cochichos e risos educados de escárnios. O plano era fazer o povo desistir do que parecia ser um sanidade. “Imagina, essa senhora negra entre nós”, disse um imortal que fora presidente da República e escreveu meia dúzia de questionável literatura.

Quando tudo já tinha se transformado em paz, um instrumentista esquálido assumiu o piano de cauda. Ah, os imortais se fartaram, como nunca, de bom champanhe francês e canapés cafonas. A cadeira 7, que outrora foi de Castro Alves, escapuliu das mãos da senhora escritora negra na calada do dia.

FIM

Quem perde com essa eleição surda?

Certamente, Conceição Evaristo não pode ser a derrotada. Teve um único voto no salão nobre mofado e repleto de homens brancos e abastados. No entanto, ganhou milhões de seguidores do Brasil real, que mata, estupra e despreza as suas mulheres negras, algumas, talvez, sonhassem em ser escritoras. A literatura de Conceição traz uma vida que há muito se perdeu nos corredores da Academia, fundada por homens e, há tempos, praticamente feitas por homens. Em nada remonta a entusiasta definição de seu fundador, Machado de Assis.

A glória que fica, eleva, honra e consola

Machado de Assis

O conceito de Machado de Assis sobre a ABL passa longe do que se tornou a instituição para a sociedade brasileira. Um espaço obsoleto, incapaz de reagir do ponto de vista político e literário aos anseios do país. Há estudos que mostram como a ABL flertou cinicamente com os períodos ditatoriais. Quem leu Farda, Fardão, Camisola de Dormir, de Jorge Amado, tem a consciência de que a instituição sempre esteve muito mais para os conchavos de um parlamento ordinário do que para o debate sobre os rumos da leitura e da literatura nacional.

No regime militar, a ABL teve um papel de legitimador do golpe. Em uma importantíssima pesquisa, o professor Diogo Cunha constatou a extensão desse triste papel da Academia. “Não se fez apenas por meio de uma colaboração aberta por parte alguns imortais. Foi o comportamento do conjunto de seus membros, seus silêncios, seus diferentes graus de acomodação, a proximidade que eles mantinham com os representantes do regime, manifestada numa intensa sociabilidade, e a elaboração, difusão e circulação de um discurso conservador, que tiveram um papel mais importante”.

Não se tem notícia de um posicionamento político dessa instituição sobre os movimentos democráticos de rua. Sabemos o que pensa alguns dos seus imortais sobre o golpe de 2016, o fora Temer e o Lula Livre. Mas absolutamente nada sobre os posicionamentos da instituição. A opção é alienante. De ser uma literatura de gabinete. Talvez, por um motivo simples: a Academia Brasileira de Letras (ABL) sempre foi mesmo o retrato da Casa Grande, frequentada por machos de português refinado. Uma instituição, sobretudo, que sempre estiveram de alguma forma em estado de complô para manter o senhorio com o livro em mãos.

Atualmente, são 35 homens para 40 vagas. Muitos políticos cujos livros nunca passaram pelas vistas de milhões de brasileiros

Há apenas cinco mulheres. Poeticamente, as mais respeitadas. Nenhum imortal é negro. Como devastou Jorge Amado em seu romance íntimo, muitos adentraram os salões pelas coalizões. Não é espantoso, portanto, que a candidatura da escritora mineira e negra Conceição Evaristo tenha sido solenemente desprezada.

A Academia Brasileira de Letras não seria a Academia Brasileira de Letras se colocasse samba, feijoada e cerveja em seu salão nobre

Últimas notícias