10 coisas que você precisa saber sobre a trajetória de Agildo Ribeiro
Um dos maiores comediantes do país, ergueu sua carreira no teatro, foi cortejado pelo cinema novo e tonou-se um dos astros da tevê
atualizado
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A participação de Agildo Ribeiro no antigo “Zorra Total” era simbólica perto do que ele representou para a tevê brasileira. Ao lado de nomes como Paulo Silvino, José Vasconcelos, Chico Anysio e Jô Soares, Agildo formava um quarteto fantástico que mudou a forma de se fazer humor na tevê.
O Metropóles faz uma homenagem ao rei da comédia política destacando 10 aspectos de sua trajetória.
1. Filho do inimigo de Getúlio Vargas
Agildo, o menino, era filho do capitão Agildo Barata Ribeiro, um dos líderes da Intentona Comunista, que tentou derrubar Getúlio Vargas em 1935, comandada por Luís Carlos Prestes. Foi preso político na Ilha Grande, onde o menino Agildinho chegou a morar com mãe. Por muito tempo, o futuro comediante sentiu na pele o estigma do pai ser um comunista. Enfrentava, com humor, pois tinha um orgulho imenso daquele que foi um dos “grandes homens deste país”
Costumava dizer que meu pai participou de tanta revolução que só teve tempo de fazer um único filho
Agildo Ribeiro
Certa vez, quando serviu o Exército ouviu de um Tenente uma pilheria ofensiva: “Você é filho daquele barulhento da Praia Vermelha?”. De pronto, o recruta encheu o peito e retrucou:
Sou sim e com muita honra. Agora, se o senhor acha que ele é barulhento, vai lá dizer isso pra ele… Se tiver muita coragem
Agildo Ribeiro
2 Teatro virou sustento
O Exército não serviu para muita coisa na vida de Agildo. A não ser, como ele dizia, aprender a cantar impecavelmente o Hino Nacional Brasileiro. Quando avisou ao capitão Barata que queria fazer teatro, o pai comunista deu o ultimato. “Você tem um ano para se sustentar com essa escolha”.
Agildinho estava com 17 anos, engoliu seco e correu atrás da profissionalização no Teatro do Estudante, de Pascoal Carlos Magno, diplomata, crítico, entusiasta das artes cênicas e um grande revelador de talentos. Quando fez a audição, com um monólogo de “Romeu e Julieta”, de Shakespeare, concorria com ele Paulo Francis, Augusto Cesar Vanucci, Oswaldo Loureiro, Tereza Rachel e Consuelo Leandro, com quem depois se casou.
“Vesti um terno e gravata – olha que cafona. Passei gumex no cabelo com topete e tudo. Era uma coisa meio Elvis Presley, estávamos nos anos 1950. Cheguei e declamei: “O tu que estais rosadas. Será que a morte não se apossou do seu… E por aí fui…
3. Professor de Mitologia Grega
O personagem mais popular de Agildo Ribeiro na tevê brasileiro é uma reminiscência das aulas de teatro grego de Pascoal Carlos Magno, no Teatro do Estudante. Consta que o professor adorava tomar uma boa taça de vinho durante o almoço antes de ir para sala de aula. Começava a falar das peças de Eurípides e, do nada, fechava os olhos e caía num sono profundo. Em respeito, os alunos faziam um silêncio profundo até que um espertinho simulava uma tosse em alto som. Pascoal acordava e emendava um assunto que nada tinha que ver.
Esse pigarro virou a campanhia da Múmia Paralítica, tão bem interpretada pelo comediante Farneto. A ditadura militar, na época, pensou burramente que era uma crítica ao regime. Mas não era. Também, ditadura pensando
Agildo Ribeiro
4. Bailarino de teatro de revista
O primeiro trabalho profissional de Agildo veio aos 22 anos, na peça “Doll Face”, uma revista do empresário Zilco Ribeiro. Era bailarino e estava ao lado da travesti francesa Ivaná, trazida por Walter Pinto ao Brasil. Ivaná influenciou uma geração de travestis vedetes brasileiras, como Rogéria, com quem Agildo trabalharia décadas mais tarde no famoso espetáculo “Alta Rotatividade”.
“Tinha que sobreviver, ganhava o salário e ficava todo feliz. É verdade que não tinha a técnica para dançar na ponta da sapatilha e o jeito era me virar como dava”
5. João Grilo
Em 1957, Agildo deu um salto na carreira fazendo o inédito texto de Ariano Suassuna, “O Auto da Compadecida”. A dramaturgia foi encenada pela primeira vez em Recife, em 1955. Quando chegou a São Paulo, Agildo ganhou o papel de João Grilo por cinco anos. No elenco, passaram nomes como Dulcina de Moraes e Jô Soares.
“Foi a primeira vez que fiquei hospedado num hotel enquanto fazia teatro. Senti-me um profissional”
6. Humor político
A verve de comédia de Agildo vinha da política. Uma forma, talvez, de conciliar a história com seu pai e a opção de carreira. Atuou no Grupo Opinião, que fez do palco uma trincheira contra a ditadura. Na Globo. Encontrou esse espaço, sobretudo, no programa-marco do humor televisivo: “Planeta dos Homens”.
Nos anos 1980, assumiu essa verve forte com o “Cabaré do Barata”, na Rede Manchete, quando contracenava com bonecos de políticos da época. Certa feita, recebeu um inusitado telefonema do então prefeito Paulo Maluf, a quem satirizava com gosto. Ele ligou para reclamar. “Oh Agildo, tem três semanas que meu boneco saiu do ar”
Uma semana depois, o prefeito Paulo Maluf estava no estúdio comigo. Gravamos, eu, ele e o boneco. Surrealismo total
7. Alta Rotatividade
Um dos espetáculos de maior sucesso de Agildo Ribeiro, “Alta Rotatividade” tinha Rogéria, a travesti mais famosa do Brasil nos anos 1980, em cena. Os dois brincavam com costumes. Sexo e opções sexuais eram o prato cheio para um show cujo texto seria impensável nos dias de hoje. Agildo nunca deixou de ser um homem de teatro. O respeito em pisar no palco era imenso.
“Numa noite, numa das apresentações numa boate em Brasília, Rogéria sentou-se no colo do general Golbery. Tinha uma número de interação na plateia. Ela não sabia. Disse que estava escuro. Sentou no primeiro colo que viu. No dia seguinte, quem estava na plateia de novo? O general.
8. Quase Macunaíma
Agildo foi o primeiro nome cotado pelo cineasta Joaquim Pedro de Andrade para viver Manunaíma, personagem do filme obra-prima da cinematografia nacional. Agildo se negou a se submeter ao método de criação da personagem proposto pelo diretor. Ficou com fama de estrela. Arrependeu-se, tentou um encontro, mas não desfez a imagem. Nesse período, Agildo ficou cobiçado pelo Cinema Novo. Fez “Tocaia no Asfalto”, de Roberto Pires. Agildo era nome forte nos filmes da Cinédia. Atuou nas chanchadas inesquecíveis.
“Joaquim queria que eu ficasse dois meses numa floresta pensando: Eu sou a terra, eu sou uma minhoca, agora eu sou a chuva, nós chovemos. Depois, eu sou a flor. Ah, não dava. Além disso, o cachê era uma droga. Eu estava fazendo o maior sucesso na televisão com “Topo Giggio”. Não tinha cabeça para dar esse mergulho no mato”
9. A briga com Jô
A amizade de Agildo e Jô Soares estremeceu-se e virou assunto público a partir de uma polêmica entrevista dada por Agildo à revista Playboy. O pivô da cisão foi o fim do “Planeta dos Homens”, quando Jô supostamente teria convencido Boni, o todo-poderoso da Globo, a trocar o programa pelo “Viva o Gordo”, totalmente em cima de suas criações. No “Planeta dos Homens”, Agildo era uma das estrelas. Ele estava na Europa quando essa decisão de bastidor foi tomada. Na época, decidiu enviar um cartão-postal. Chamava-se “O Beijo do Traidor”, com Judas beijando Cristo.
“Jô nega tudo até hoje. Diz que foram forças ocultas que fizeram a gente se separar. Mas o fato é que eu saí do “Planeta”, mas o programa permaneceu o mesmo: elenco, redatores, horário, tudo estava igual. Menos o nome, que tinha virado “Viva o Gordo”.
Quando Jô voltou para a Globo, Agildo aceitou participar do programa. Saiu dizendo que “talvez” eles tivessem feito as pazes.
10. Imitações espirituais
Agildo era um imitador cheio de nuances. Ninguém fazia Chacrinha como ele. Era impressionante porque não era uma caricatura. Ele enchia a recriação de alma. Às vezes, fazia críticas debochadas. Clodovil ficou chateado porque ele o chamou de alfaiate. Agildo quase desistiu da personagem diante da reclamação. Perguntou se podia fazer algo para remediar essa situação. A resposta foi: “Só é me chamar de costureiro”. Seguiu o recado e Clodovil amou. Um dos sucessos era a imitação de Ibrahim Sued.
Sou de uma geração que aprendeu a arte de representar como completa. Fiz aulas de esgrima e até sapateado para me tornar um ator
Agildo Ribeiro












