Depois de 25 anos, “Thelma & Louise”, tragicamente, tem o mesmo frescor da estreia
O filme do diretor Ridley Scott, com Susan Sarandon e Geena Davis, é uma catarse emocional à opressão machista
atualizado
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Aproveitando o Dia Internacional da Mulher e a vinda do Instituto Geena Davis para o Brasil, a coluna Spoilers resolveu revisitar o clássico “Thelma & Louise”, filme de 1991 dirigido por Ridley Scott. Vencedor do Oscar de melhor roteiro original, o filme conta a história de duas mulheres que partem de férias por um fim de semana, mas que rapidamente se envolvem em uma série de crimes pelo sudeste dos Estados Unidos.
“Thelma & Louise” é sempre mencionado como uma parábola feminista, embora seja apenas uma fábula de vingança contra o sistema patriarcal. Ele deve mais a Roger Corman do que a Pedro Almodóvar, digamos assim. O que impede esta obra de ser verdadeiramente escrachada é a direção e o prestígio de seu diretor britânico, o mesmo de “Alien” (1979), obra-prima do terror em que uma mulher é a única sobrevivente de um ataque alienígena.
É importante esclarecer que a classificação do filme como uma fantasia vingativa não equivale a diminuí-lo, mas sim a tirá-lo de uma discussão política à qual ele não se submete. O filme identifica que o machismo e o patriarcado são forças de opressão quase impossíveis de serem vencidas por mulheres. Ele opta então por uma catarse visceral, e não intelectual. O roteiro não está interessado em informar, mas sim em emocionar.
Louise (Susan Sarandon) é uma mulher forte e decidida. Trabalha como garçonete, mora sozinha, fuma, e é dona daquele mais famoso símbolo fálico: um carrão (no caso um Thunderbird de 1966). Thelma (Geena Davis) é uma dona de casa completamente subserviente ao marido. De tanto medo do cidadão, foge de casa sem avisar que vai viajar com a amiga no fim de semana, deixando apenas um bilhete colado numa garrafa de cerveja.
Durante uma parada num bar, Thelma arranja um parceiro de dança contente em enchê-la de bebida. Ele fica mais contente ainda quando ela pede sua ajuda enquanto vomita do lado de fora, no estacionamento. Ele insiste em beijá-la, ela insiste no não, e assim o cowboy se vê no direito de socá-la e tentar estuprá-la. Louise aparece com uma arma para resgatá-la e justamente quando as duas amigas já estão de saída, o cowboy manda ambas chupá-lo. A tentativa desesperada dele em recuperar uma dignidade que não merece o faz, então, morrer com um tiro no peito.
Vingança
Louise, descobrimos, também foi vítima de um ataque sexual, mas num passado distante. Ela sabe que será impossível provar à polícia que houve uma tentativa de estupro, ainda mais quando o bar inteiro testemunhou Thelma dançando com seu agressor. As duas não vivem num mundo em que teriam credibilidade para testemunhar contra um homem. Além disso, as duas já estavam livres do agressor quando o tiro foi dado. Eis aqui a justificativa para classificarmos “Thelma & Louise” como um conto de vingança: a escolha da roteirista em optar por assassinato, e não defesa pessoal.
Em outra parada, desta vez num posto de gasolina, Louise encontra um velho senhor, quase catatônico em sua cadeira de balanço, e lhe oferece as joias que carrega em troca de um chapéu de caubói. A decisão está consolidada: o tempo do Velho Oeste e dos pistoleiros machões está no passado. Neste filme, são as mulheres que atravessam a imensidão do deserto impondo justiça. Elas assaltam uma loja de conveniência, rendem um policial e o trancam, chorando, no porta-malas e ainda explodem o caminhão de um canalha que passa o filme gritando obscenidades para as duas.
Os homens que elas deixaram para trás são mostrados sempre em interiores amontoados, aprisionados pelo abandono feminino enquanto as duas mulheres estão realmente livres na imensidão de céu e areia do deserto americano.

O marido de Thelma é um canastrão caricato, que interrompe uma conversa com ela para assistir televisão. O namorado de Louise, que nunca quis um compromisso, entrega a ela um anel de noivado apenas quando é confrontado com o abandono. O detetive que está atrás delas (Harvey Keitel) até acredita que elas foram vítimas do homem que mataram, mas é completamente impotente e não consegue salvá-las. Sexo vira tabu, pois mesmo quando Thelma dá carona a um andarilho (Brad Pitt) e tem com ele uma descoberta sexual, percebe que o malandro roubou todo o dinheiro que as duas tinham e se mandou.
Ao final, é claro que tanta rebeldia tem de ser punida. Finalmente encurraladas pela polícia, a única chance que elas tem de escapar é o martírio. Na impossibilidade de serem felizes no mundo em que habitam, decidem dirigir para dentro de um abismo. Thelma e Louise viram mártires-rebeldes-símbolo para uma catarse feminina em que os homens são punidos por seus preconceitos. Vendo as campanhas de hoje, do dia da mulher em 2016, é trágico notar que um filme com 25 anos de idade tem o mesmo frescor de antigamente.
Mulheres no cinema
Além disso, o instituto busca influenciar os tipos de papéis que são ofertados às mulheres. Em vez de coadjuvantes e objetos sexuais, cada vez mais se vê necessário que elas vivam suas próprias aventuras e relatem suas próprias histórias. Espera-se que num futuro próximo filmes como “Thelma & Louise” possam ser dirigidos pelas mulheres que os escrevem.
