Ao premiar Green Book: O Guia, Oscar reage mal aos ventos da mudança

Anos após o movimento #OscarsSoWhite, em prol da diversidade na cerimônia, Academia decepciona ao fazer escolha amena e neutra

Diamond Films/DivulgaçãoDiamond Films/Divulgação

atualizado 25/02/2019 16:03

A vitória de Green Book: O Guia no Oscar 2019 evidencia que certos maus hábitos nunca morrem. Algumas coisas pareciam ter mudado na configuração do prêmio desde que a Academia consagrou Conduzindo Miss Daisy, o filme de “amizade” entre a patroa branca (Jessica Tandy) e seu motorista negro (Morgan Freeman), em 1990.

O instrutivo 12 Anos de Escravidão (2013) levou a estatueta. O movimento #OscarsSoWhite clamou por mais atenção à diversidade étnica, racial e sexual entre indicados e vencedores. Moonlight: Sob a Luz do Luar (2017), drama sobre negros gays, significou o resultado imediato desse protesto. Diretores mexicanos passaram a dominar a categoria, com cinco prêmios em seis anos para Del Toro (A Forma da Água), Cuarón (Gravidade e Roma) e Iñárritu (Birdman e O Regresso).

Três décadas depois de Miss Daisy, os papéis meramente se inverteram: agora o cliente é Don Shirley (Mahershala Ali), pianista erudito negro, e seu funcionário, um ítalo-americano truculento e falastrão apelidado de Tony Lip (Viggo Mortensen) – ou Tony Bocudo, para nós, brasileiros.

Tal qual Miss Daisy, porém, o longa é todo feito por gente branca. Peter Farrelly dirigiu e dividiu o roteiro com Brian Currie e Nick Vallelonga, filho de Tony. Deu no que deu. Uma produção feel good com grandes atuações da dupla principal, mas que patina cada vez que almeja discutir racismo e intolerância nos EUA dos anos 1960. Na trama, Shirley faz uma turnê pelo sul do país, região historicamente preconceituosa.

Green Book realiza contorcionismos para mostrar que, veja bem, Tony Lip também sofre por ocupar uma posição social pouco privilegiada – é apenas mais um imigrante esforçado e turrão de Nova York. O filme faz de tudo para redimi-lo, inclusive, de seu racismo. Em troca das cartas românticas à esposa ditadas por Shirley, ele ensina o patrão a devorar frango frito e a escutar música pop, como se o pianista fosse desconectado das pessoas mais simples da sua comunidade e de suas raízes culturais.

Por esses e outros ruídos, o longa foi duramente acusado de tratar Shirley com superficialidade. Tanto pela crítica como por herdeiros do artista.

Quando Julia Roberts anunciou o título principal para o filme de Peter Farrelly, confirmando a previsão do troféu do sindicato dos produtores (PGA), a Academia passou uma mensagem no mínimo contraditória sobre o que pensa da diversidade:

“Sim, gostamos de Infiltrado na Klan, Pantera Negra e Roma, tanto que demos prêmios importantes para esses filmes. Somos fãs de Spike Lee, Wakanda e de Cuarón e suas memórias de infância sobre a babá Cleo. Mas preferimos algo não tão radical, não tão ‘político’. Queremos algo mais alegre e conciliador. Agradecemos a compreensão.”

Em meio ao #OscarsSoWhite, alguns anos atrás, a organização da estatueta anunciou que estava, aos poucos, rejuvenescendo e arejando o perfil do votante do Oscar. Uma maneira de afastar um pouco aquela imagem do “branco hétero de meia-idade” tão associado à tradição do prêmio e a escolhas no mínimo previsíveis e datadas – as pomposas produções de época, as cinebiografias de pessoas famosas e por aí vai.

Com Green Book, a Academia parece recuar de edições passadas, quando venceram filmes como A Forma da Água e Moonlight, e assumir uma incômoda postura de neutralidade. Eis o risco de ser tão ameno: o esquecimento ou, já entrando nos negócios, a baixa audiência, marca recente do Oscar de uns tempos para cá.

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