O brilho de Victoria Azarenka e a baita temporada de tênis feminino
A querida bielorrussa ressurge em grande estilo: apresentando seu melhor jogo, enquadrando sua amiga e mostrando que o circuito feminino está em aberto
atualizado
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Causaram espécie as declarações cretinas e sinceronas de Raymond Moore. Promotor de Indian Wells, o segundo mais importante torneio norte-americano de tênis, atrás apenas do US Open, esse senhor basicamente disse à imprensa internacional que o tênis praticado pelas mulheres é um esporte de segunda linha e que as atletas deveriam agradecer ao interesse e ao dinheiro que os homens movimentam nas quadras.
Bem curioso ele ter dito isso horas antes de as finais de seu próprio torneio o desmentirem de maneira tão ligeira e inapelável. Na chave masculina, para a surpresa de ninguém, Novak Djokovic passou um par de semanas com a patrola ligada e esmigalhou o pobre coitado que aparecesse pela frente. Na ausência de um Roger Federer a encurtar seu calendário por questões físicas e diante apenas de um Rafael Nadal a percorrer o circuito sem o vigor de outrora, Djoko desconhece rivais. Perde apenas aqui e acolá, eventualmente, quase sempre em fases agudas dos certames e nunca para adversários muito mais fracos. Primeiro colocado do ranking mundial e pentacampeão de Indian Wells (2012/2016), Djokovic não perdeu um único set nesta edição do torneio californiano e, nos últimos três jogos de lá, venceu categoricamente Jo-Wilfried Tsonga, Rafael Nadal e Milos Raonic.
Portanto, se ainda há algum interesse e alguma surpresa no circuito de tênis profissional, prezado Raymond Moore, agradeça (de joelhos) às mulheres. Em Indian Wells, a bielorrussa Victoria Azarenka ressurgiu com maestria após algumas temporadas um tanto irregulares.
Uma das mais técnicas e consistentes trocadoras de bola do esporte, a popular e carismática Vika superou a amiga e rival Serena Williams num jogo decisivo que teve tudo o que não foi possível enxergar na chave masculina: equilíbrio entre as duas jogadoras, alternância de ações, sobressaltos emocionais, esticadas e encolhidas no placar, superação da vencedora e grandeza da perdedora.
Enfim, drama e movimento, beleza e graça. Não se pode pedir a um par de atletas muito mais do que isso. Seguem aqui os melhores momentos da peleja, conforme editados pela Associação de Tênis Feminino (WTA)…
A vitória de Victoria
Para vencer Serena Williams (e Djokovic) é preciso se manter em alto nível o jogo inteiro. Uma brechinha, já era. Victoria Azarenka, em temporadas anteriores, tinha dado provas de que pode ser essa pessoa. Principalmente pela consistência de seu jogo defensivo e pelo poderoso primeiro saque. Mas problemas físicos e pessoais a submeteram a longos altos e baixos por dois ou três anos.
Victoria tem agora Sascha Bajin como treinador, o mesmo camarada que esteve ao lado de Serena por oito vitoriosos anos. O efeito da parceria talvez já possa ser notado em quadra. Nesse domingo, em duplo 6/4, Victoria parecia estar preparada para devolver toda a sorte de golpes de Serena. Não arredava do fundo de quadra. Trocava bolas com um repertório de cruzadas e paralelas e deixadinhas e slices a que poucas tenistas podem recorrer.
E quando seu primeiro serviço entrou, Serena não teve muito o que fazer. Nesse sentido, o primeiro set de Victoria foi especialmente vibrante. Ela impôs um ritmo quente desde o início, quebrando por duas vezes a vantagem de Serena Williams – a primeira delas logo no primeiro game – e salvando break points. Por mais que Serena fizesse, Victoria tinha precisão nos pontos mais importantes, vencia os pontos mais importantes.
Para extravasar a frustração, Serena arrebentou um par de raquetes contra o chão. Victoria olhava para ela e seguia inabalável. Para vencer o tênis de Serena Williams, pode crer que Vika já percebeu isso, é preciso vencer também o teatrinho de Serena Williams. Em meados do segundo set, quando o primeiro serviço de Victoria parou de entrar, por um momento a partida ficou na iminência de virar. Serena venceu três games seguidos, recuperando a larga distância que tinha permitido à adversária no marcador. Mas logo Victoria retomou sua concentração e voltou a trocar bolas no fundo de quadra. Campeã em Melbourne em janeiro, ela assim conquistou sua segunda taça neste ano. Victoria Azarenka estava fazendo falta.
Indian Wells confirma o cenário apresentado no Aberto da Austrália. Djokovic ali já demonstrava que não vai ter para ninguém este ano. E ali Serena Williams deixava o título lhe escapar diante de uma adversária em ostensiva trajetória de superação. Daquela feita, a alemã Angelique Kerber, atual número três do ranking. Desta vez, Victoria Azarenka a retornar com o impacto ao grupo das dez mais, pulando da décima-quinta para a oitava posição. Basta uma espiada no Top Ten da WTA para perceber que, daqui por diante, todas essas atletas devem ser levadas em consideração a cada torneio. Serena não terá um ano fácil, não.
E, claro, vale muito para a WTA e para o tênis profissional inteiro que Victoria Azarenka reapareça em grande estilo justamente no momento em que o esporte perdeu uma de suas maiores referências. Há um par de semanas, ainda lembramos, Maria Sharapova foi afastada por doping, num episódio francamente desabonador e ainda longe de estar devidamente esclarecido. É de se lamentar por Maria, mas o tênis é maior que esta ou aquela, este ou aquele. Bem maior.

