Cidade Limpa: região da “Times Square de SP” é uma das mais multadas
Projeto da “Times Square paulistana” quer transformar a esquina da São João com a Ipiranga com painéis luminosos inspirados em Nova York
atualizado
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No mesmo centro de São Paulo onde a prefeitura municipal deve instalar painéis de LED inspirados na Times Square — uma dos pontos turísticos mais famosos do mundo, em Nova Iork –, no famoso cruzamento das avenidas São João e Ipiranga, a Subprefeitura da Sé, responsável pela região, aplicou mais de R$ 1,3 milhão em multas ligadas à Lei Cidade Limpa nos últimos 12 meses. O valor é o terceiro maior entre todas as 32 subprefeituras da capital paulista.
Segundo dados fornecidos pela Prefeitura de São Paulo ao Metrópoles por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI), a Subprefeitura da Sé registrou 72 autuações ligadas à Lei Cidade Limpa nos últimos 12 meses. Desse total, 41 terminaram em multa e outras 31 ficaram apenas em notificações orientativas. Com isso, a região aparece na 5ª posição entre as subprefeituras com maior número de multas aplicadas na capital.
Apesar de não liderar em número de ocorrências, a Sé está entre as regiões com maior valor arrecadado em penalidades. Ao todo, foram mais de R$ 1,3 milhão em multas aplicadas no período, o terceiro maior valor entre todas as subprefeituras da capital.
Os dados também mostram que a região tem um índice de punição acima da média da cidade. Das 72 autuações registradas na Sé, 41 terminaram em multa, o equivalente a 56,9% dos casos. Na média geral da capital paulista, esse percentual é de cerca de 42%.
Subprefeiuras mais multadas
1º lugar: Pinheiros lidera o ranking das multas da Lei Cidade Limpa, com R$ 2,4 milhões aplicados em 103 autuações nos últimos 12 meses.
2º lugar: Freguesia do Ó/Brasilândia, com R$ 2,3 milhões em penalidades distribuídas em 86 casos registrados.
3º lugar: A região da Sé soma mais de R$ 1,3 milhão em multas. Apesar do valor elevado, foram 41 autuações.
4º lugar: Vila Mariana registrou cerca de R$ 1,1 milhão em multas relacionadas à Lei Cidade Limpa, distribuídas em 85 autuações.
5º lugar : A Mooca fecha o ranking com aproximadamente R$ 876 mil em penalidades aplicadas em 46 registros de irregularidades.
Onde estão as multas
As ações mais frequentes na região envolvem anúncios indicativos sem licença, publicidade irregular e instalação de banners em vias públicas. Já o maior impacto financeiro veio de 4 autuações relacionadas a anúncios em empenas cegas — laterais de prédios sem janelas — que, sozinhas, somaram cerca de R$ 671 mil em multas.
Os dados também mostram uma mudança no ritmo da fiscalização ao longo do último ano. Entre fevereiro e junho de 2025, os valores aplicados foram mais baixos. A partir de julho, houve aumento nas autuações, com pico em setembro, quando a Subprefeitura da Sé aplicou cerca de R$ 668 mil em multas em um único mês.
Times Square Paulistana
Batizado oficialmente de Boulevard São João, o projeto conhecido como “Times Square paulistana” prevê a instalação de grandes painéis de LED e projeções digitais no cruzamento das avenidas São João e Ipiranga, um dos pontos mais tradicionais do centro de São Paulo.
A proposta foi aprovada pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico (Conpresp) e faz parte de um plano da prefeitura para revitalizar a região central da capital.
Inspirado na Times Square, em Nova York, o projeto pretende transformar o local em um polo de experiências visuais, cultura e tecnologia, com exibição de conteúdos digitais, intervenções artísticas e campanhas públicas. Diferente do modelo norte-americano, porém, a proposta paulistana não prevê publicidade comercial nos telões.
Para a arquiteta e urbanista Pérola Felipette, doutora em Paisagem e Ambiente e professora da Universidad Científica del Sur, o projeto da “Times Square paulistana” levanta discussões.
Na avaliação da especialista, a proposta de instalar grandes painéis de LED no cruzamento das avenidas São João e Ipiranga representa uma exceção dentro da lógica estabelecida pela legislação. “Eu acho que o projeto não esbarra na Lei Cidade Limpa, ele bate de frente”, afirma.
Pérola avalia que o impacto vai além da publicidade e envolve também a experiência urbana e o uso do espaço público. Segundo ela, telas digitais muito luminosas podem alterar a paisagem da região, aumentar os estímulos visuais e até afetar a circulação das pessoas no cotidiano.
O que é a Lei Cidade Limpa?
Criada em 2006, durante a gestão do então prefeito Gilberto Kassab, a Lei Cidade Limpa foi implantada com o objetivo de reduzir a poluição visual em São Paulo. A legislação passou a limitar outdoors, faixas, letreiros e anúncios publicitários espalhados pela cidade, além de estabelecer regras para o tamanho e a instalação de placas comerciais em fachadas de imóveis. Veja antes e depois da Lei Cidade Limpa:
A proposta da lei era reorganizar a paisagem urbana da capital paulista, diminuindo o excesso de publicidade nas ruas e tornando mais visíveis elementos da arquitetura, sinalizações e espaços públicos da cidade. Desde então, a fiscalização das regras ficou sob responsabilidade das subprefeituras, que podem aplicar notificações e multas em casos de irregularidades.
“Tão deixando a gente sonhar”
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), publicou nas redes sociais um vídeo em defesa da “Times Square paulistana”.
Na publicação, Tarcísio afirmou que o projeto pretende unir tecnologia, cultura e revitalização urbana para transformar a dinâmica da região central da cidade. “Tão deixando a gente sonhar!”, escreveu o governador ao compartilhar um vídeo produzido com Inteligência Artificial (IA) mostrando como a área poderia ficar após a implantação dos telões.
As imagens divulgadas, no entanto, mostram uma versão mais ampla e iluminada do projeto atualmente discutido pela Prefeitura de São Paulo. O vídeo exibe fachadas tomadas por anúncios e painéis digitais em uma estética inspirada diretamente na famosa Times Square nova-iorquina. Segundo o governador, os painéis devem exibir, principalmente, conteúdos culturais, informativos e serviços voltados à população.
O que diz a prefeitura
Em nota, a Prefeitura de São Paulo afirmou que o projeto da “Times Square paulistana”, não representa uma exceção à Lei Cidade Limpa. Segundo a Secretaria Municipal de Urbanismo e Licenciamento (SMUL), a iniciativa foi viabilizada por meio de um Termo de Cooperação previsto na própria legislação, que permite parcerias com a iniciativa privada para execução e manutenção de melhorias urbanas sem custos ao município. A gestão municipal também afirmou que, neste momento, não há estudos para alterar a Lei Cidade Limpa.
Já a Secretaria Municipal das Subprefeituras informou que as 32 subprefeituras da capital realizam fiscalizações para verificar o cumprimento da legislação. De acordo com a pasta, os números registrados na região da Sé refletem tanto a atuação da fiscalização quanto a grande concentração de comércio no centro da cidade.



























