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Aos 27 anos, o biólogo Iran Augusto Neves ostenta um raro currículo acadêmico. Há poucas semanas, recebeu o grau de mestre, conferido a duras penas pelo programa de pós-graduação da Universidade de São Paulo (USP), uma das mais afuniladas do país, o suprassumo da elite intelectual brasileira. Está orgulhoso do feito, mas poderia estar mais. Nem tudo foram flores no caminho que percorreu da graduação até a defesa da sua tese – na verdade, por causa dela, Iran quase perdeu a vida em janeiro. Quis ele mesmo tirá-la, num dia de exaustão no laboratório.

Não conseguiu. Mas entrou para a estatística crescente, segundo pesquisas, de estudantes travando batalhas simultâneas com os prazos e as agruras da pesquisa de um lado e a ansiedade e a depressão do outro. Só na turma de Iran, foram duas tentativas de suicídio desde que ele ingressou no mestrado – que o biólogo saiba. Uma delas, no laboratório. Outro colega, de um departamento vizinho, conseguiu.

“Antes de tentar me matar, pensei em desistir. Mas não podia, pois, se largasse o mestrado, teria de devolver todo o dinheiro da bolsa recebido até ali, que é pífio (R$ 1,5 mil por mês, pela Capes), mas eu não tinha. Ainda precisava ouvir da minha orientadora: ‘como assim você não tem dinheiro para estar aqui todos os dias se você recebe para isso?’. Ela não tem noção do que é esse dinheiro”, desabafa o mestrando.

Depressão e tentativas de suicídio entre universitários e pós-graduandos não são assunto novo dentro das universidades. Em 2017, o tema chegou a ganhar páginas de jornais com o termo “surto de suicídios” depois que seis alunos da Faculdade de Medicina da USP tentaram se matar, entre janeiro e abril. Pouco depois, alunos da Universidade Federal de Viçosa (MG) lançaram a campanha #NãoÉNormal na internet para expor casos de demandas abusivas de escolas e professores que comprometem a saúde mental dos estudantes.

Alunos de graduação usaram os próprios canais no YouTube para falar sobre o assunto. Os temas vão de “escolha sua saúde mental” a “faculdade não é o que você pensa”.


Agora, a academia começa a utilizar suas ferramentas para dar nome, dimensão e visibilidade ao problema.

Um terço dos alunos
O último grito foi dado por pesquisadores do Centro de Ciências da Saúde da Universidade do Texas, nos Estados Unidos. Um estudo publicado na revista científica Nature, na última semana, aponta que 36% dos alunos de mestrado e doutorado sentem-se deprimidos ou ansiosos em grau moderado ou grave. Na população geral, o índice fica na casa dos 6%.

Os números vieram de entrevistas com quase 3 mil pessoas, em 26 países, de áreas diferentes do conhecimento. O mesmo problema foi relatado por alunos da saúde, das ciências biológicas, de exatas e de humanas. E pesou mais para mulheres e transgêneros do que para estudantes homens.

Ao todo, 41% dos entrevistados afirmaram ter ansiedade moderada ou grave, enquanto 39% disseram estar deprimidos. Entre alunas, o índice ficou nos 43% e 41%, respectivamente. Enquanto isso, mais da metade dos alunos trans lidam com algum grau de sofrimento mental nas academias: 55% com ansiedade e 57% com depressão.

“Muitos estudos mostraram que mulheres estão mais suscetíveis a desordens mentais do que homens. Por isso, não ficamos surpresos com nossos resultados, pois alinham-se a trabalhos anteriores”, disse, ao Metrópoles, Teresa Evans, líder do levantamento e professora da Escola de Medicina da Universidade do Texas. Isso não significa, na sua avaliação, que os números não reforcem a necessidade de se debater o espaço e a cobrança das mulheres na academia.

 


A advogada Tuany Baron, de 24 anos, aluna da pós-graduação em direito na Universidade Federal do Paraná (UFPR), aprendeu cedo: se quisesse mais do que o bacharelado no currículo, deveria ter estômago forte.

Ela entrou em um programa de pesquisa em pós-graduação ainda na faculdade, aos 19 anos. Só compartilhava do posto dado como privilegiado com outro aluno de graduação, como ela. Mas não foi a sisudez dos termos e das normas acadêmicas que acabou com sua saúde mental, e, sim, o clima doentio da academia.

“Fui incentivada, sempre, a competir com meus colegas, a competir com outros grupos e a enxergar todos os demais alunos da faculdade como rivais”, conta. “A longo prazo, essa postura começou a me fazer sentir incapaz, menos que os outros, ou que eu não fosse suficiente para estar lá. Cheguei a um ponto em que adoeci. Desenvolvi depressão e ansiedade, e posteriormente viraram síndrome do pânico”, conta Tuany.

Um dos professores líderes sempre dizia que não aceitava ‘pessoas medíocres’. Eu incorporei o mito da genialidade e me sentia frequentemente uma ‘sabotadora’ "
Tuany Baron de Vargas, mestranda de direito na Universidade Federal do Paraná

Tuany hoje concilia o mestrado com um trabalho de coaching para alunos desesperados às voltas com a dissertação.  Eles recorrem à advogada, segundo ela mesma, quando sentem que não atendem aos requisitos “sobrenaturais” para a pós. “Procuram-me como ‘última ‘solução’ antes de desistirem”.

(Des)Orientadores
Durante as entrevistas, os pesquisadores do Texas perguntaram aos voluntários também sobre a  relação com professores e orientadores de teses. A maioria não se mostrou satisfeita com a pessoa com a qual mais lidam no período de diplomação.

Mais da metade deles disseram não se sentir valorizados pelo professor e não acham que os orientadores sejam bons mentores ou, ainda, que farão grande diferença na vida profissional da cada um no futuro.

Entre os relatos recebidos pela reportagem, é comum surgirem, naturalmente, histórias de abuso, agressões verbais, ameaças ou carga excessiva de trabalho. Iran, da USP, conta que chegou a ser obrigado a passar 16 horas em um seminário científico certa vez sob ameaça de perder a bolsa-auxílio, única fonte de renda.

“O departamento de onde eu venho é bem voraz”, diz o aluno. “E o ego dos professores é grande. Eles mandam e desmandam. Eu era o ‘queridinho’ da minha orientadora e isso foi pior para mim. Academicamente, são excelentes. Mas eles não têm um treinamento sobre como dar aula, como lidar com pessoas. Conhecimento só não é suficiente”, acredita Iran.

Dormir e acordar dentro de laboratórios a fim de cumprir prazos também não são eventos raros entre os estudantes. Pablo Roxo, de 29 anos, mestrando em ciências da computação na Universidade Federal da Bahia, conta que certa vez passou 40 horas consecutivas na universidade. “Dormi no chão do laboratório. E isso foi só uma das vezes”, lembra.

Vi minha qualidade de vida diminuindo. Estava sempre com a cabeça esgotada, a alimentação precária, ora com muita fome, ora sem fome alguma e sempre cansado. Você passa a odiar aquilo e não consegue sair."
Pablo Roxo, aluno de mestrado da UFBA

Pablo chegou a ser chamado de “personal bullying” pelo orientador – que fazia piadas sempre que sentia vontade. As agressões também vieram na forma de tapas nas costas e na cabeça. Os alunos riam. Pablo tentou se matar, mas não conseguiu. Caiu no chão depois de uma tentativa malsucedida de enforcamento.

“Eu demorei cinco minutos para perceber que não tinha morrido. Meu ouvido entupiu. Lembro de abrir os olhos e ficar olhando a cerâmica do chão estampada e cheia de pó”, lembra.

Ele recorreu, depois, à coordenação da faculdade e decidiu trancar o curso de mestrado. E foi fazer uma especialização na área de formação. Voltou recentemente à universidade, com fôlego renovado e uma nova orientadora mais flexível. Mesmo assim, por causa do prazo (o período máximo de conclusão do mestrado é de quatro anos), não sabe se conseguirá concluir a tempo.

Alto nível
O resultado da pesquisa americana assusta, mas não mostra nada novo a quem vive entre as paredes da pós-graduação. Pelo menos não na visão do psiquiatra Raphael Boechat, professor da Universidade de Brasília e orientador de mestrado e doutorado da Faculdade de Medicina da instituição. Segundo o especialista, a deterioração da saúde mental dentro da academia é grave, mas reflete um fenômeno que tem sido observado em toda a sociedade e, também, fora dela.

“Isso acontece em qualquer profissão que demanda muita dedicação e trabalha com um limite de tempo, o chamado ‘deadline’. Esse é o problema do mestrado. Esses limites são meio aterrorizantes para algumas pessoas porque, em tese, se você passa dele, está fora”, comenta.

O nível de cobranças, as longas horas nos laboratórios ou debruçados em artigos e o volume de trabalho também contribuem para a situação. Mas é algo, de acordo com o professor, que vem de cima. “A Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, ligada ao Ministério da Educação) exige um volume alto de artigos da instituição para creditar nota a ela. Essa cobrança, naturalmente, é repassada aos alunos da pós, ou a nota da universidade baixa”.

Ele acredita que a exigência, no entanto, não é a mesma em todos os cursos, áreas de estudo ou universidades. “Uma vez, estive na palestra de um Prêmio Nobel de Medicina em visita à Universidade Federal da Bahia, em Salvador, e ele ficou admirado com a beleza do prédio antigo. Na época, comentou que nunca seria Prêmio Nobel se estudasse ali, porque não conseguiria se concentrar. Ele passou a vida em laboratórios”, comenta o psiquiatra.

Tem coisas que você só alcança com muito esforço mesmo. Ninguém vai achar que vai fazer um estudo de qualidade sem algum nível de estresse e cansaço. Isso não existe. A patente maior da academia, o doutorado, não pode ser fácil. Tanto que ninguém é obrigado a fazer. "
Raphael Boechat, psiquiatra e professor da pós-graduação da Faculdade de Medicina da UnB

Teresa Evans, da Universidade do Texas, por sua vez, espera que, pelo menos, o resultado do seu estudo sirva para as academias e instituições que apoiam as universidades “liderarem o caminho primeiro em reconhecer os desafios e, depois, em trabalhar por recursos e intervenções”. “A pressão, às vezes, se torna mais do que a pessoa pode aguentar”, diz.

Confira nas galerias trechos de relatos recebidos pela reportagem:

Iran Augusto Neves, 27 anos, biólogo e mestre em ciências pela USP:

 

 

Pablo Ricardo Roxo, 29 anos, mestrando em ciências da computação na UFBA:

 

 

Tuany Baron de Vargas, 24 anos, advogada e mestranda em direito da UFPR:

 

Thiago Consiglio, 28 anos, mestrando em educação na UFSCar Sorocaba:

 

 

 

 

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