Quanto tempo levaria para criar uma vacina em caso de nova pandemia?

Especialistas explicam por que algumas vacinas levam anos e o que acelerou o processo durante a Covid-19

atualizado

metropoles.com

Compartilhar notícia

Unsplash
Close-up das mãos de uma pessoa de luva segurando uma ampola de vacina e uma seringa na outra mão. Metrópoles
1 de 1 Close-up das mãos de uma pessoa de luva segurando uma ampola de vacina e uma seringa na outra mão. Metrópoles - Foto: Unsplash

O registro recente de surtos como o de ebola na República Democrática do Congo e o registro de hantavírus em um navio de cruzeiro reacenderam uma pergunta que ganhou força durante a pandemia de Covid-19. Diante de uma nova ameaça global, quanto tempo a ciência levaria para desenvolver uma vacina?

A resposta depende de uma combinação de fatores que vão desde o comportamento do vírus até a capacidade de resposta internacional. Em condições normais, o desenvolvimento de uma vacina costuma levar de cinco a 10 anos. Em cenários de emergência sanitária, porém, esse prazo pode cair para cerca de um a dois anos, dependendo do vírus, da tecnologia disponível e da mobilização internacional.

Como uma vacina é desenvolvida?

Segundo Mayra Moura, diretora da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), todo o processo começa muito antes dos testes em humanos. Primeiro, os pesquisadores precisam entender como o vírus age no organismo e qual parte dele pode ser neutralizada pelo sistema imunológico.

“É preciso compreender o ciclo da doença para definir qual antígeno será usado e qual plataforma é mais adequada para aquela vacina, como vírus atenuado, inativado ou RNA mensageiro”, explica.

Depois da fase laboratorial, começam os testes pré-clínicos, realizados em animais, para avaliar segurança e resposta imunológica. Só então a vacina segue para as três fases de estudos clínicos em humanos.

A fase 1 envolve um grupo pequeno de voluntários e avalia principalmente segurança e dose. Na fase 2, o número de participantes aumenta e os pesquisadores analisam também a eficácia. Já a fase 3 reúne milhares de pessoas e exige um acompanhamento mais longo para confirmar proteção e possíveis efeitos adversos.

Mayra destaca que todo esse caminho costuma ser demorado porque uma etapa depende do sucesso da anterior. “Você não pode começar a fase 2 sem concluir a fase 1 com segurança. Além disso, existem protocolos éticos, avaliações regulatórias e monitoramentos que podem durar anos”, afirma.

Ela lembra ainda que os órgãos reguladores, como a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), também precisam analisar protocolos e resultados antes da aprovação, o que pode levar meses.

O que acelerou as vacinas da Covid-19

Durante a pandemia de Covid-19, o desenvolvimento das vacinas aconteceu em tempo recorde, o que gerou dúvidas por parte da população sobre a segurança dos imunizantes. No entanto, especialistas afirmam que nenhuma etapa foi pulada.

O sanitarista Jonas Lotufo Brant, professor do Departamento de Saúde Coletiva da Universidade de Brasília (UnB), explica que a velocidade foi possível porque já existiam pesquisas anteriores sobre coronavírus.

“Desde a SARS, a comunidade científica vinha desenvolvendo plataformas para esse grupo de vírus. Quando surgiu a Covid-19, parte desse caminho já estava pronta”, afirma.

Além disso, houve uma mobilização internacional inédita. Segundo Brant, governos, universidades, laboratórios e agências regulatórias passaram a atuar de forma integrada, com financiamento elevado e compartilhamento rápido de informações.

“Quando você coloca mais recursos e mais pessoas trabalhando ao mesmo tempo, consegue fazer algumas etapas em paralelo sem comprometer a segurança”, diz.

O esforço global reduziu intervalos burocráticos e acelerou a produção de dados científicos.

Por que algumas doenças dificultam a criação de vacinas

Nem todo vírus permite uma resposta rápida da ciência. Segundo Brant, doenças como hantavírus ainda representam um desafio justamente porque os surtos costumam ser pequenos e esporádicos.

“É difícil testar uma vacina quando os casos aparecem em surtos localizados e desaparecem rápido. Muitas vezes, quando a vacina chega na fase 3, já não existem casos suficientes para avaliar se ela funciona”, pontua.

No caso do ebola, o cenário foi parecido durante décadas. Os surtos anteriores eram menores e dificultavam os estudos. A situação mudou no grande surto registrado no oeste da África entre 2014 e 2016, que permitiu acelerar os testes de vacinas que já vinham sendo estudadas.

Mesmo assim, o especialista alerta que o surto atual envolve outra variante do vírus, o que pode exigir adaptações nas vacinas já existentes.

Outro desafio é a capacidade de detectar rapidamente novas doenças. Segundo Brant, quanto mais cedo um surto é identificado, maiores são as chances de conter a transmissão enquanto vacinas e tratamentos ainda estão sendo desenvolvidos.

“É muito mais fácil controlar 10 casos do que mil. Hoje, um vírus que surge em um lugar pode rapidamente chegar a qualquer parte do mundo”, diz.

Vigilância e resposta global

Os especialistas afirmam que a experiência da Covid-19 deixou um legado importante na área da saúde global, principalmente em vigilância epidemiológica e tecnologia de vacinas.

Ainda assim, eles alertam que o mundo continua vulnerável a novas epidemias, especialmente em regiões com baixa infraestrutura sanitária, grande circulação de pessoas e intensa interação entre humanos e animais.

Para Brant, fortalecer sistemas de vigilância em diferentes países é tão importante quanto investir em laboratórios e pesquisa científica.

“A gente nunca sabe exatamente onde vai surgir a próxima doença. Por isso, a resposta precisa ser global e rápida”, finaliza.

Quais assuntos você deseja receber?

Ícone de sino para notificações

Parece que seu browser não está permitindo notificações. Siga os passos a baixo para habilitá-las:

1.

Ícone de ajustes do navegador

Mais opções no Google Chrome

2.

Ícone de configurações

Configurações

3.

Configurações do site

4.

Ícone de sino para notificações

Notificações

5.

Ícone de alternância ligado para notificações

Os sites podem pedir para enviar notificações