Sabia que o câncer pode ser tratado com pílulas? Veja em quais casos
Terapias orais garantem tratamentos mais confortáveis e com mais qualidade de vida aos pacientes. Mas não são isentas de efeitos colaterais
atualizado
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Esqueça a fosfoetanolamina, substância que, um tempo atrás, ficou conhecida pela alcunha de “pílula do câncer” e cujos efeitos terapêuticos nunca foram comprovados em pesquisas. A medicina atualmente tem respostas orais mais eficientes para a doença do que esse composto químico, epicentro do circo científico de 2016. Segundo especialistas, comprimidos podem ser bons coadjuvantes ou até protagonistas da batalha contra tumores, oferecendo menos tempo em hospitais e mais qualidade de vida. A facilidade, no entanto, não é para todo mundo.
“Uma das vantagens é a conveniência de poder tomar a medicação em casa, sem atrapalhar o estilo de vida do paciente”, comenta Adriana Castelo Moura, oncologista do aparelho digestivo e de tumores femininos do Hospital Santa Lúcia. “No caso dos tratamentos injetáveis, às vezes é preciso passar duas ou três horas na clínica. Perde-se um período todo do dia para isso”, continua.Além das horas acoplado a uma bolsa de medicação, o paciente precisa ainda passar por procedimento para instalação de um catéter – e conviver amigavelmente com ele até o fim do tratamento. “Além de não precisar de um catéter, a terapia em casa tem uma série de facilidades. Em caso de viagens, por exemplo, o tratamento não atrasa”, complementa o oncologista Lucianno Santos, diretor da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (Sboc).
Não é “balinha”
Hoje, a maior parte das armas encapsuladas contra o câncer é das chamadas terapias-alvo, um dos trunfos mais modernos da oncologia – no Brasil, circulam há não mais de dois anos. Como esse tipo de tratamento ataca apenas as células doentes, preservando as saudáveis, costumam deixar efeitos colaterais menos agressivos que os causados pela quimioterapia, como queda da imunidade e dos cabelos.
“O efeito depende da classe da medicação”, explica Cristiano Resende, especialista do Instituto Onco-Vida. No caso das terapias-alvo, a lista de reações adversas pode incluir de uma simples dor de cabeça a náuseas e vômitos. “Você pode ter toxicidade diferente do mesmo medicamento em pacientes com doença similar. Se o indivíduo vai manifestar ou não, é muito particular. O importante é desmistificar que droga oral não faz efeito”, comenta o especialista.
O mesmo vale para a quimioterapia, a segunda classe de substâncias que têm equivalentes em comprimidos. Uma delas é o fluorouracil, bastante usado contra o tumor de cólon e que existe, em versões “bastante parecidas”, segundo Lucianno Santos, em formas injetáveis e em cápsulas.
Embora a maior parte das quimioterapias orais não cause queda de cabelo, as típicas baixas de imunidade, náuseas e vômitos provavelmente acompanharão o paciente, mesmo que a droga seja tomada com um copo d’água. “Tem quem peça o comprimido oral por achar que não tem efeito colateral. Isso é uma lenda urbana”, comenta o oncologista.
É para todo mundo?
Se a boa notícia é que os tratamentos orais podem conferir mais conforto a pacientes oncológicos, a má é que os comprimidos ainda beneficiam poucos doentes – principalmente porque as terapias-alvo, maioria entre esses comprimidos, são quase sempre para doenças avançadas.
Uma delas, por exemplo, é o câncer de pulmão que carrega a mutação EGFR, responsável por não mais do que 25% dos casos de enfermidade no órgão. “Para doença metastática ou localmente avançada, você trata o paciente apenas com medicação oral, sem necessidade de que ele venha à clínica”, comenta Lucianno Santos. “É um comprimido por dia apenas e pode ser usado por muito mais tempo, porque eles são menos tóxicos do que os quimioterápicos”, observa.
Os especialistas alertam, porém, que mesmo quando o arsenal terapêutico e o diagnóstico permitem, nem sempre os comprimidos são a primeira escolha. Isso porque levar o tratamento sozinho, longe dos olhos do médico, é uma responsabilidade fora do alcance de alguns pacientes. “A terapia oral guarda inconvenientes. O profissional precisa ter certeza de que o paciente vai aderir ao tratamento”, pondera Adriana Moura, do Hospital Santa Lúcia.
Tem paciente idoso que é resistente a ter um cuidador e você precisa ter um cuidado maior. Alguns medicamentos não podem ser tomados em jejum. Outros, só podem em jejum. Tudo isso precisa ser respeitado à risca. Tratamento de câncer não é dipirona.
Luciana Castelo Moura, oncologista do Hospital Santa Lúcia
Planos de saúde
Desde janeiro de 2018, os planos de saúde são obrigados, pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), a cobrirem oito novos tratamentos contra o câncer – todos de uso oral. A lista é atualizada a cada dois anos.
As drogas contempladas na atualização do rol de tratamentos são para seis tipos diferentes de tumor e foram bastante comemoradas por especialistas – crizotinibe, dabrafenibe, enzalutamida, everolimo, afatinibe, ruxolitinibe, ibrutinibe e tramatinibe, usadas para tipos específicos de câncer de pulmão, próstata, sangue, melanoma, neuroendócrinos e leucemia.
“Mesmo com algumas drogas importantes tendo ficado de fora, achamos a lista maior do que o esperado. Não estamos 100% felizes, mas estamos menos tristes”, ponderou, na época, o diretor da Sboc, Gustavo Fernandes, chefe da oncologia do Hospital Sírio-Libanês em Brasília.






