Professor com TOC relata experiência: “Acendia e apagava a luz 10 vezes”
Éric Barioni, de 36 anos, convive com o TOC há duas décadas. Hoje recorre à medicação e terapia para controlar obsessões e compulsões
atualizado
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O ex-jogador de futebol David Beckham, 47 anos, falou recentemente sobre como o Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC) está presente em seu cotidiano, com rituais de limpeza “cansativos”, seguidos à risca nas madrugadas, enquanto a família dorme. “O fato é que todos vão dormir e eu, limpar. Limpo as velas, coloco as luzes da forma certa, me certifico de que tudo está limpo. Odeio descer de manhã e ter copos, pratos e tigelas sujas”, explicou durante as gravações de um documentário para a Netflix sobre sua vida e carreira.
Embora a maioria das pessoas associe o TOC à “mania de limpeza”, o problema é mais complexo do que o desejo de organização. O transtorno causa sofrimento intenso aos pacientes que se sentem obrigados a cumprir rituais para que a vida flua. O professor universitário Éric Barioni, 36 anos, conhece bem a realidade. Ele convive com TOC há cerca de duas décadas, mas foi diagnosticado apenas depois de uma série de crises de ansiedade, pânico e depressão.
“Muita gente usa o termo TOC de forma superficial e isso é uma forma de agressividade na fala. Só quem tem o transtorno, sabe o quanto é sofrido”, afirma Éric, diagnosticado aos 24 anos.
O professor acredita que traumas de infância tenham gerado um quadro de ansiedade que se manifesta por meio do TOC. A “virada de chave” para o desencadeamento dos sintomas ocorreu quando ele estava na adolescência e a mãe sofreu um quadro de intoxicação alimentar grave.
“Lembro de ir para o quarto e tremer muito. Sei que ali foi uma virada entre o Éric que não tinha nada e o que passou a ter. Desde então, comecei a achar que estava doente, apresentando sintomas de visão, como dor nos olhos, e urinários, sentia muita ardência ao urinar, sem explicação”, recorda. O caso ficou mais grave quando, para se livrar dos pensamentos de doença e morte, Éric começou a ter compulsões.
TOC
O TOC é caracterizado pela presença de obsessões ou compulsões, ou as duas juntas. Um dos fatores levados em consideração para o diagnóstico é o nível de interferência desses sintomas na vida diária do paciente.
“Todos nós temos alguma obsessão ou compulsão, mas o fator decisivo para o diagnóstico é observar se esses sintomas impactam negativamente na vida da pessoa. Se atrapalham suas relações em casa, na escola e no trabalho, e se a intensidade dos sintomas provoca sofrimento psíquico”, explica a psicóloga Penélope Ximenes, mestre em educação pela Universidade de Brasília (UnB).
As obsessões podem aparecer em forma de pensamentos, impulsos, imagens recorrentes e persistentes, que sejam intrusivas e indesejáveis. As compulsões, por sua vez, são comportamentos repetitivos ou atos mentais que o indivíduo se sente compelido a executar para evitar as obsessões.
O TOC pode ser desenvolvido em qualquer idade, mas é mais recorrente entre a infância e a adolescência. Depois, os sintomas vão aparecer ligados a algum trauma ou vivência estressante. “O diagnóstico é feito geralmente na infância, com a observação dos sintomas e do conteúdo das compulsões. É preciso trabalhar o quadro o quanto antes”, afirma Penélope.
Não existem causas específicas para o desenvolvimento do transtorno. Acredita-se que ele é desencadeado por traumas e abusos, mas não há relação de causa e efeito estabelecida. “Algumas pessoas desenvolvem sem ter passado por abusos”, explica a psicóloga.
Sintomas
Sem conseguir um diagnóstico para as doenças que acreditava ter, Éric desenvolveu uma série de compulsões para tentar lidar com os pensamentos. Elas começavam, geralmente, alguns minutos antes de ele dormir. “Meu ritual era passar no banheiro para abrir e fechar a torneira algumas vezes e molhar as minhas mãos um número de vezes iguais até que me sentisse seguro para sair de lá”, recorda.
Já no quarto, ele acendia e apagava a luz cerca de 10 vezes e fechava o trinco da janela o mesmo número de vezes. “Se eu não fizesse isso, não conseguia me desvincular dos pensamentos. Então tinha que me beliscar, retorcer ou fazer qualquer coisa que fosse dos dois lados do corpo para me acalmar. Se, mesmo depois de tudo isso, os pensamentos viessem, precisava dar pequenos socos na parede para relaxar”, afirma.
O comportamento foi invadindo os dias do rapaz, que passou a criar estratégias para aliviar a tensão e a ansiedade. “Para mim, isso sempre foi algo velado. Achava que ninguém estava vendo os meus gestos repetitivos até um dia em que parei em um semáforo e vi uma pessoa fazendo exatamente o que eu fazia, e ela certamente achava que ninguém a estava observando. Eu me reconheci naquela pessoa e me perguntei quantas vezes outras pessoas me viram nessas cenas”, recorda.
Tratamento
Para controlar o TOC, Éric faz uso de medicamentos para ansiedade e vai a sessões de terapia uma vez por semana. O tratamento permitiu que ele aprendesse a lidar com os pensamentos intrusivos que costumam reaparecer em momentos de crise.
“A psicoterapia tem papel fundamental na vida dos pacientes para que eles tenham fases de remissão do transtorno. As situações de estresse ao longo da vida podem servir de gatilho, mas eles já terão maior capacidade de lidar com elas”, afirma a psicóloga Penélope Ximenes.
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É tique ou TOC?
O professor universitário conta sua trajetória com no livro É Tique ou TOC, lançado em 2022. A publicação foi uma maneira de fazer um desabafo, colocar no papel aquilo que já havia superado e se aproximar dos alunos. “O livro não é um case de sucesso porque continuo tratando o TOC. É a minha experiência como portador do transtorno”, explica.
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