Por que a obsessão por diagnósticos virou um problema nas redes

Termos psicológicos se popularizaram na internet e mudaram a forma como muitas pessoas interpretam emoções, comportamentos e sofrimento

atualizado

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Ilustração de duas pessoas de perfil, uma com cérebro com sol, outra com chuva - Metrópoles
1 de 1 Ilustração de duas pessoas de perfil, uma com cérebro com sol, outra com chuva - Metrópoles - Foto: Richard Drury/ Getty Images

É cada vez mais comum que pessoas se identifiquem com transtornos e condições de saúde mental a partir de vídeos curtos, testes e relatos pessoais compartilhados na internet, muitas vezes sem avaliação clínica. Termos como ansiedade, TDAH, trauma ou narcisismo circulam com facilidade e, em alguns casos, passam a ser usados como explicação imediata para sentimentos e comportamentos do dia a dia.

Especialistas ouvidos pelo Metrópoles alertam que esse movimento pode trazer alívio momentâneo, mas também distorcer a forma como o sofrimento é compreendido e tratado.

O psiquiatra André Botelho, do Hospital Sírio-Libanês, explica que dar um nome ao que se sente pode funcionar como uma resposta rápida para a angústia. “Organiza o desconforto e dá uma sensação de controle e pertencimento. Não sou só eu”, afirma.

Segundo ele, o mesmo acontece quando alguém tenta enquadrar o outro em um diagnóstico, como se isso resumisse atitudes difíceis de entender.

A psicóloga clínica Andrezza Chagas, do Grupo Reinserir, acrescenta que essa busca também se relaciona a uma necessidade de pertencimento e, em alguns contextos, à tentativa de garantir direitos e reconhecimento.

“O acesso irrestrito a criadores de conteúdo sem formação profissional incentiva a ideia de que é preciso ter um diagnóstico como explicação imediata para pensamentos ou comportamentos considerados disfuncionais”, diz.

O efeito das redes na popularização dos rótulos

A difusão de termos psicológicos nas redes sociais tem um lado positivo, ao ampliar o interesse por saúde mental. Mas, na avaliação de Botelho, o problema surge quando conceitos complexos são apresentados fora de contexto.

“Os transtornos acabam virando recortes. A pessoa se reconhece em um sintoma isolado e conclui: ‘Sou isso ou fulano é aquilo’”, explica o psiquiatra.

Ele aponta que a lógica dos algoritmos também contribui para a distorção. Quanto mais um conteúdo emociona ou viraliza, mais ele aparece, criando a impressão de que certos transtornos são muito mais comuns do que realmente são.

Riscos do autodiagnóstico e de diagnosticar o outro

Os especialistas alertam que se rotular sem avaliação profissional pode atrasar cuidados adequados. O psicólogo clínico Felipe dos Santos Minichelli, que atua em São Paulo, explica que um diagnóstico incorreto pode comprometer todo o processo terapêutico.

“Conviver com um erro de diagnóstico é um atraso para um tratamento psicológico de qualidade”, diz. Ele lembra que, quando envolve medicamentos, o risco se torna ainda maior.

Andrezza compara esse comportamento à automedicação. “O sujeito passa a ocupar um lugar que não lhe corresponde e pode reproduzir sintomas por imitação. Isso pode até influenciar uma futura avaliação profissional, favorecendo diagnósticos equivocados”, aponta.

André também chama atenção para o impacto nas relações. “Se alguém passa a ter certeza de que o parceiro ou o chefe é narcisista com base em conteúdos das redes, tende a agir a partir dessa crença, o que pode gerar conflitos e danos”, destaca.

Rótulo atrapalha busca por ajuda

Outro risco é a sensação de que encontrar um nome já resolve o problema. Segundo André, o rótulo pode adiar o cuidado real. “A pessoa entra em uma peregrinação por confirmações, trocando de testes e conteúdos, sem acompanhamento consistente”, afirma.

Além de tudo isso, ainda existe a desigualdade no acesso. “Enquanto muitos usam diagnósticos como justificativa para certos comportamentos, há quem precise de avaliação capacitada e não tenha recursos. Isso reforça a necessidade de políticas públicas para saúde mental”, diz Felipe.

Diagnóstico é indispensável

André reforça que diagnósticos não podem ser feitos a partir de vídeos ou comportamentos isolados. “Não é um checklist. Envolve história, contexto, tempo de evolução, prejuízo funcional e exclusão de outras causas. O algoritmo não faz perguntas, o profissional faz”, diz o psiquiatra.

O médico conclui que, mais do que nomear, o essencial é compreender o sentido do sofrimento. “Tratar alguém emocionalmente exige olhar a experiência singular de cada pessoa e decidir, juntos, como cuidar”.

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