Inscreva-se no canal MetrópolesTV no YouTube
Saúde

Neurônios-espelho podem explicar por que adotamos hábitos de quem amamos

Processo envolve neurônios-espelho e liberação de dopamina, mas especialistas alertam para a importância de manter a identidade própria

21/10/2026 02:00
VioletaStoimenova/Getty Images
Casal deitado na cama enquanto mexem no celular

Descobrir um novo estilo musical, passar a frequentar lugares antes não explorados ou apreciar um prato até então rejeitado são mudanças comuns quando se estabelece um vínculo afetivo profundo.

Mais do que uma simples vontade de agradar, a ciência e a psicologia explicam que essa alteração de repertório é motivada por mecanismos neurobiológicos e emocionais específicos que conectam o sistema de recompensa do cérebro à necessidade humana de pertencimento.

No nível cerebral, a internalização dos gostos do outro começa em um grupo especializado de células chamadas neurônios-espelho. Esse sistema funciona como uma simulação interna e é acionado tanto no momento em que uma pessoa realiza uma ação quanto ao observar um terceiro executá-la e expressar algum sentimento.

Quando alguém próximo demonstra prazer genuíno ao escutar uma música ou provar uma comida, os neurônios-espelho reproduzem essa experiência internamente no observador, reduzindo barreiras cognitivas e facilitando a adoção da preferência.

Entre no canal de WhatsApp do Metrópoles Saúde e Ciência

Além do sistema-espelho, o circuito de recompensa desempenha um papel central por meio do condicionamento clássico dopaminérgico. A convivência e o carinho liberam substâncias como dopamina e ocitocina, gerando sensações de segurança e bem-estar.

Estímulos neutros ou desconhecidos presentes nesses momentos — como uma música tocando — passam a ser associados a essa carga emocional positiva, alterando a percepção do córtex sensorial e atribuindo novo valor à experiência.

A psicóloga Alessandra Araújo explica que a dopamina atua como o principal mensageiro da saliência motivacional no cérebro.

“Quando você é exposto a um novo estímulo em um contexto de afeto e alta liberação dopaminérgica, o cérebro reavalia o valor daquele objeto ou experiência para cima. Em termos práticos, algo que talvez você achava indiferente passa a ser visto com olhos mais empáticos”, afirma.

Alessandra aponta que o afeto atua como um “intensificador sensorial”, fazendo com que a experiência pareça fisicamente mais prazerosa devido ao ambiente de segurança.

Entre a flexibilidade e a perda da essência

Sob a ótica da psicologia clínica, a busca por pertencimento e a vontade de criar familiaridade impulsionam a aproximação dos universos pessoais. O cérebro adulto mantém a neuroplasticidade, capacidade de reorganizar conexões neurais e criar novas sinapses ao longo de toda a vida a partir de vivências emocionalmente marcantes.

Porém, existe uma linha tênue entre a expansão saudável do repertório individual e a anulação das próprias preferências.

A psicóloga clínica Layana Paiva ressalta a importância de observar as motivações por trás dessas adaptações para evitar a perda da própria essência.

“Uma coisa é experimentar algo porque queremos compartilhar uma experiência com quem amamos. Outra é abandonar aquilo de que gostamos porque acreditamos que, se formos diferentes, deixaremos de ser desejados”, alerta.

A perda de identidade ocorre quando a adaptação deixa de ser uma escolha espontânea e passa a ser encarada como uma exigência para a manutenção do vínculo. Segundo a especialista, em uma relação saudável deve existir espaço para a manifestação do desacordo e de gostos particulares sem o receio do abandono.

Ressignificação de memórias após términos

As marcas deixadas pelos relacionamentos estendem-se para além do fim das convivências. Como as vivências sensoriais participam diretamente da consolidação das memórias, elementos associados ao vínculo podem adquirir novos significados emocionais com o fim de um ciclo. Músicas ou lugares antes associados ao prazer podem, em um primeiro momento, provocar nostalgia ou dor.

Com o passar do tempo e o distanciamento emocional, é comum que ocorra um processo de ressignificação. As escolhas adquiridas durante a convivência passam por um filtro individual, em que o indivíduo avalia se o hábito incorporado faz sentido para a sua jornada independente ou se estava atrelado apenas à presença do outro.