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Saúde

“Não imaginava que seria um câncer”, diz adolescente com tumor na tireoide

Anna Laura recebeu o diagnóstico aos 15 anos, com metástases; médico explica o aumento dos casos entre os jovens e os principais sintomas

17/10/2026 02:00
Arquivo pessoal
Foto colorida de mulher com máscara , óculos e um tubo fino ligado ao pescoço - Metrópoles.

A dor no pescoço foi a primeira mudança percebida por Anna Laura Rocha, hoje com 20 anos, moradora de Icó, no Ceará. Pouco depois, apareceram caroços visíveis no lado direito da região, que levaram a adolescente a procurar atendimento com os pais. A investigação revelou um câncer de tireoide, com comprometimento no pescoço e nos pulmões.

“Não imaginava que seria um câncer, muito menos que a doença teria esse desdobramento e exigiria todo o tratamento pelo qual passei”, conta a estudante de medicina.

Anna Laura fez uma ultrassonografia cervical e foi encaminhada para uma punção, procedimento que coleta material para análise. Segundo ela, foram 20 dias até a conclusão do diagnóstico. O tumor tinha componentes papilífero e folicular, e as metástases pulmonares foram identificadas posteriormente, nos exames realizados antes da cirurgia.

Apesar do comprometimento dos pulmões, ela não sentia falta de ar, cansaço ou outro desconforto respiratório.

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Por que câncer de tireoide é comum entre os jovens?

O caso chama atenção para uma doença frequentemente identificada em jovens, principalmente mulheres. Rafael De Cicco, cirurgião de cabeça e pescoço e diretor da Sociedade Brasileira de Cirurgia de Cabeça e Pescoço, explica que o câncer de tireoide está entre os mais diagnosticados em mulheres de 20 a 29 anos. A afirmação, porém, não se aplica da mesma forma aos homens da faixa etária, entre os quais predominam outros tumores.

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Segundo o médico, boa parte do aumento dos diagnósticos está relacionada ao maior acesso a consultas, ultrassonografias e exames de imagem com melhor tecnologia, capazes de identificar alterações que antes passavam despercebidas. “A maior parte do aumento vem do fato de procurarmos mais”, afirma De Cicco.

O especialista acrescenta que também há um aumento real, de menor proporção, provavelmente relacionado à obesidade e a fatores ambientais ainda pouco compreendidos. Portanto, o crescimento dos registros reúne tanto uma maior detecção quanto um aumento da ocorrência da doença.

De acordo com o cirurgião, a diferença entre os sexos aparece a partir da puberdade e diminui após a menopausa, o que sugere uma participação dos hormônios, embora o papel do estrogênio ainda não esteja estabelecido.

Entre os fatores de risco conhecidos, o médico destaca a exposição à radiação na região do pescoço durante a infância, o histórico familiar e algumas síndromes hereditárias. Anna Laura afirma que não tinha familiares com câncer e nunca havia feito acompanhamento por alterações na tireoide.

Quais sinais precisam de avaliação?

O câncer de tireoide pode se desenvolver sem provocar dor ou alterações nos exames hormonais. Por isso, a ausência de sintomas não exclui a doença, como ocorreu com o comprometimento pulmonar de Anna Laura. De acordo com De Cicco, as principais alterações que merecem atenção são:

  • Nódulo na frente do pescoço: é uma das manifestações mais frequentes e deve ser avaliado.
  • Caroço na lateral do pescoço: pode corresponder a um linfonodo aumentado, principalmente quando persiste por mais de três ou quatro semanas sem melhora.
  • Crescimento progressivo do caroço: aumenta a necessidade de investigação.
  • Rouquidão persistente ou dificuldade para engolir: são manifestações menos comuns e podem estar associadas ao comprometimento de estruturas próximas à tireoide.

A investigação costuma começar com avaliação médica, dosagem de TSH, exame de sangue usado para avaliar a função da tireoide, e ultrassonografia. Conforme as características encontradas, pode ser indicada uma punção com agulha fina.

“A maioria dos nódulos é benigna, e o objetivo é identificar com precisão os poucos que não são”, explica o cirurgião.

O médico ressalta que jovens sem sintomas ou fatores de risco não devem fazer ultrassonografias de rastreamento indiscriminadamente. A investigação sem indicação pode levar a procedimentos e cirurgias sem benefício.

Tratamento e retomada dos estudos

O tratamento depende da extensão da doença e do risco de cada paciente. Segundo o especialista, a cirurgia pode retirar parte ou toda a tireoide, além dos linfonodos comprometidos, quando necessário. O iodo radioativo é utilizado de forma seletiva e, em pacientes jovens, as metástases pulmonares também podem responder ao tratamento.

Anna Laura passou pela retirada total da tireoide e por uma cirurgia para remover estruturas comprometidas no lado direito do pescoço, além de três ciclos de iodoterapia.

O tratamento exigiu viagens para Salvador, períodos de isolamento e restrições alimentares antes das aplicações de iodo. “Enquanto meus colegas saíam e se divertiam, eu precisava permanecer recolhida para tratamentos e dietas rigorosas”, lembra.

A estudante relata fraqueza, queda de cabelo, ressecamento da pele e episódios de taquicardia durante os ajustes da reposição hormonal, além do impacto emocional do afastamento das aulas e do convívio social.

Atualmente, Anna Laura cursa o terceiro semestre de medicina, faz reposição hormonal diária com levotiroxina e mantém acompanhamento médico e psicoterapêutico. Segundo ela, o quadro oncológico está controlado e estável, com consultas e exames periódicos.

“Sinto que meu organismo já se adaptou melhor à reposição hormonal do que nos anos iniciais, então minha qualidade de vida é boa, o que me permite seguir com os estudos, por exemplo.”