Como a musicoterapia pode ajudar no desenvolvimento de autistas

Especialistas explicam como a música pode favorecer comunicação, rotina e regulação emocional em pessoas dentro do espectro autista

atualizado

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Mãe e filha brincando juntas. Musicoterapia para crianças autistas. Metrópoles
1 de 1 Mãe e filha brincando juntas. Musicoterapia para crianças autistas. Metrópoles - Foto: Freepik

Com o aumento dos diagnósticos de autismo no mundo, cresce também o interesse por abordagens terapêuticas que ajudem na comunicação, na regulação emocional e na qualidade de vida de pessoas dentro do espectro. Nesse contexto, a música tem chamado atenção de pesquisadores e profissionais da saúde pelo potencial de estimular diferentes áreas do cérebro ao mesmo tempo.

Estudos mostram que a experiência musical ativa regiões ligadas à emoção, à memória, à atenção e à linguagem. Para pessoas autistas, essa ativação pode favorecer processos importantes de desenvolvimento e interação.

Segundo o musicoterapeuta Gustavo Gattino, professor associado da Universidade de Aalborg, na Dinamarca, a música tem uma capacidade única de acessar áreas do cérebro que nem sempre são estimuladas pela linguagem verbal.

“A música tem um acesso direto ao cérebro emocional. Ela organiza, regula e cria conexões que muitas vezes não conseguimos acessar apenas pela fala. Por isso, ela se torna uma ferramenta tão potente dentro de processos terapêuticos, especialmente no autismo”, afirma.

Além disso, a música também está ligada ao chamado sistema de recompensa do cérebro, responsável pela sensação de prazer e motivação.

“A experiência musical pode gerar uma sensação muito intensa de prazer, semelhante ao que sentimos ao comer algo de que gostamos muito. Isso aumenta o engajamento e torna o processo terapêutico mais natural”, explica Gattino.

Intervenção precoce faz diferença

Especialistas destacam que intervenções terapêuticas tendem a ter melhores resultados quando começam cedo. O desenvolvimento do cérebro nos primeiros anos de vida é altamente sensível a estímulos e aprendizagens.

“O cérebro de uma criança com autismo se desenvolve de forma diferente. E quanto mais cedo conseguimos identificar sinais e iniciar intervenções, maiores são as chances de promover autonomia, aprendizado e qualidade de vida”, explica o médico Fernando Gomes, neurocirurgião, neurocientista e professor livre-docente da Universidade de São Paulo (USP).

Nesse cenário, a música pode funcionar como uma ponte para estimular habilidades importantes, especialmente quando integrada a outras abordagens terapêuticas.

Música pode ajudar na comunicação e na rotina

Pessoas autistas frequentemente enfrentam desafios relacionados à comunicação, à regulação emocional e à sobrecarga sensorial. A musicoterapia busca justamente trabalhar esses aspectos por meio de atividades estruturadas com som, ritmo e interação.

Gattino ressalta que a musicoterapia vai muito além de simplesmente ouvir músicas. “A musicoterapia é uma intervenção estruturada, com objetivos terapêuticos claros. Utilizamos ritmo, som e interação para trabalhar comunicação, vínculo e organização emocional”, explica.

O ritmo, segundo ele, desempenha um papel importante nesse processo. “O ritmo ajuda a organizar o cérebro. Ele cria previsibilidade e segurança, o que pode reduzir a ansiedade e facilitar a participação da pessoa nas atividades”, afirma.

Pequenas estratégias também podem ser utilizadas no cotidiano de famílias e cuidadores para ajudar na organização da rotina.

Entre os exemplos estão usar músicas para sinalizar momentos específicos do dia, como a hora de dormir ou de se alimentar, criar rotinas com sons previsíveis e utilizar o ritmo para ajudar a acalmar em situações de agitação.

Diferença entre ouvir música e fazer musicoterapia

Apesar do interesse crescente, especialistas alertam que ouvir música não é o mesmo que participar de sessões de musicoterapia.

Na musicoterapia, a música deixa de ser apenas um estímulo passivo e passa a ser utilizada como ferramenta ativa dentro de um processo terapêutico conduzido por um profissional.

Ouvir música pode trazer benefícios, mas a musicoterapia envolve objetivos terapêuticos definidos, acompanhamento clínico e atividades estruturadas”, afirma Gattino.

Nesse processo, a música é usada para estimular interação, expressão e desenvolvimento de habilidades. Em muitos casos, ela se torna uma forma alternativa de comunicação.

“A música deixa de ser apenas um fundo sonoro e passa a ser um meio de interação. Ela pode ajudar a construir vínculo, facilitar a expressão e promover desenvolvimento real”, conclui.

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