Por que a memória falha quando estamos estressados?

Sob pressão e estresse cérebro prioriza sobrevivência e prejudica atenção e memória, explica psiquiatra

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Ilustração colorida com fundo azul de face humano e cérebro em evidência - Metrópoles.
1 de 1 Ilustração colorida com fundo azul de face humano e cérebro em evidência - Metrópoles. - Foto: Freepik

Esquecer compromissos, dar “branco” em provas ou perder o raciocínio em momentos de pressão são situações comuns — e têm explicação científica. Quando o corpo está sob estresse, o cérebro ativa um mecanismo primitivo conhecido como “luta ou fuga”, que prioriza respostas rápidas diante de possíveis ameaças.

Nesse cenário, funções cognitivas mais complexas, como memória e atenção, ficam em segundo plano. De acordo com o psiquiatra Eduardo Perin, especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), esse processo altera diretamente o funcionamento mental.

“Quando a pessoa está sob estresse, o cérebro liga o sistema de ‘luta ou fuga’, que tende a priorizar a resposta ao que parece urgente ou ameaçador. Nesse momento, reduz a eficiência de funções cognitivas mais refinadas, como atenção, memória de trabalho e flexibilidade mental”, explica o psiquiatra.

Isso significa que na prática a mente fica mais focada em lidar com a pressão do que em registrar ou recuperar informações — o que ajuda a explicar lapsos de memória em situações estressantes.

Ansiedade e excesso de preocupação “ocupam” a memória

O impacto do estresse na memória também está diretamente ligado à ansiedade. Segundo Perin, pensamentos de preocupação constante consomem recursos mentais importantes.

“A ansiedade consome recursos da memória de trabalho e prejudica a atenção. A pessoa fica mais capturada por preocupação e antecipação negativa, e menos disponível para raciocinar com clareza”, afirma.

Esse fenômeno explica a sensação de “branco” em momentos decisivos, como apresentações, entrevistas ou provas. O cérebro está ocupado demais com sinais de ameaça para conseguir acessar informações armazenadas.

Do ponto de vista biológico, o estresse ativa um sistema hormonal conhecido como eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, responsável pela liberação de substâncias como cortisol e adrenalina.

A neuropsicóloga Sandra Schewinsky, do Hospital Sírio-Libanês, explica que esses hormônios são essenciais em situações pontuais, mas prejudiciais quando permanecem elevados por muito tempo.

“Quando o cortisol permanece elevado por períodos prolongados, como ocorre no estresse crônico, ele pode prejudicar o funcionamento de áreas importantes do cérebro, afetando a capacidade de registrar, consolidar e recuperar informações”, destaca Schewinsky.
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O excesso de estresse libera hormônios que afetam áreas do cérebro ligadas à memória e à atenção

Quando há excesso de estresse, a comunicação entre algumas áreas do cérebro é prejudicada, comprometendo todo o processo da memória. As principais regiões afetadas são:

  • Hipocampo: responsável pela formação de novas memórias;
  • Amígdala: ligada às emoções;
  • Córtex pré-frontal: essencial para atenção, planejamento e memória de trabalho.

Estresse crônico pode causar efeitos mais duradouros

Nem todo esquecimento é motivo de preocupação. Em muitos casos, as falhas de memória são temporárias e desaparecem quando o estresse diminui. No entanto, quando a pressão é intensa e prolongada, os impactos podem ser mais duradouros.

Perin alerta que o estresse crônico afeta diretamente circuitos cerebrais importantes. “A pessoa pode até continuar funcionando, mas com mais lentidão, mais distração e mais erros, além de maior dificuldade de organizar informações”, afirma.

Já Schewinsky destaca que o problema pode ir além da memória. “O estresse contínuo também está associado a maior risco de condições como acidente vascular encefálico, infarto e problemas metabólicos, como o diabetes”, explica.

Outro ponto importante é que a memória de curto prazo costuma ser a primeira afetada. Em casos mais graves, o prejuízo pode atingir também a memória de longo prazo.

Rotina moderna intensifica o problema

Fatores do dia a dia têm potencializado o impacto do estresse na memória. Os principais identificados pelos especialistas são: excesso de trabalho e sobrecarga mental, privação de sono, uso constante de telas e redes sociais e exposição contínua a informações e notícias.

“Isso fragmenta a atenção e, muitas vezes, rouba sono de qualidade — e sono insuficiente compromete atenção, memória de trabalho e funções executivas”, diz Perin.

Em casos mais extremos, o quadro pode evoluir para burnout, caracterizado por exaustão, dificuldade de concentração, irritabilidade e até sintomas depressivos.

Foto colorida com fundo rosa de desenho em cor branca que imita a face humana e uma bola de lã de cor vermelha que simula a existência de um cérebro. - Metrópoles.
Esquecer coisas no dia a dia pode ter mais a ver com estresse do que você imagina

Falhas de memória ocasionais são comuns, mas alguns sinais indicam a necessidade de avaliação profissional. O psiquiatra explica que é importante buscar ajuda quando os lapsos passam a interferir na rotina.

“O sinal de alerta é quando a dificuldade de memória ou concentração interfere no trabalho, nos estudos ou nos relacionamentos, ou vem acompanhada de insônia, ansiedade intensa ou exaustão”, afirma Perin.

Schewinsky reforça que é essencial analisar o contexto. Em geral, lapsos relacionados ao estresse melhoram quando a causa é resolvida. Porém, quando persistem ou pioram, é necessário investigar.

O que fazer para proteger a memória

A boa notícia é que o cérebro tem capacidade de se recuperar — desde que o estresse seja controlado. Especialistas apontam algumas estratégias eficazes:

  • Melhorar a qualidade do sono;
  • Praticar atividade física regularmente;
  • Fazer pausas ao longo do dia;
  • Reduzir o uso excessivo de telas;
  • Investir em relações sociais e momentos de lazer;
  • Praticar técnicas de relaxamento e respiração.

Além disso, a terapia cognitivo-comportamental pode ajudar a reduzir pensamentos negativos e liberar recursos mentais. “Quando a pessoa reduz preocupação excessiva e autocrítica, ela consegue prestar mais atenção e registrar melhor as informações”, conclui Perin.

Esquecer coisas sob pressão não significa, necessariamente, um problema grave. Na maioria das vezes, é apenas o cérebro tentando lidar com uma sobrecarga. Mas ignorar sinais persistentes pode custar caro.

Se o estresse virou rotina e a memória começou a falhar com frequência, o caminho mais inteligente não é forçar a produtividade — é desacelerar e cuidar da saúde mental.

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