Mapeamento cerebral e neurofeedback são usados no acompanhamento do TDAH
Técnicas analisam a atividade elétrica cerebral e buscam treinar a autorregulação, mas não substituem a avaliação clínica do TDAH

O diagnóstico de Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) é feito a partir da avaliação clínica, que considera sintomas, histórico e dificuldades enfrentadas no dia a dia. Mas pessoas com o mesmo diagnóstico podem apresentar características diferentes.
Com a proposta de investigar essas particularidades, clínicas têm recorrido ao mapeamento cerebral quantitativo e ao neurofeedback — técnicas que analisam a atividade elétrica do cérebro e utilizam sinais dessa atividade durante sessões de treinamento.

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Ver todasA Gray Matters Brasil, clínica especializada nesses procedimentos, utiliza o mapeamento cerebral para avaliar padrões de atividade elétrica e, a partir dos resultados, elaborar protocolos individualizados de neurofeedback. A proposta é trabalhar habilidades como atenção, concentração e controle das respostas.
“Duas pessoas podem chegar com a mesma queixa, o mesmo sintoma ou até o mesmo diagnóstico e, ainda assim, apresentar padrões de funcionamento cerebral bem diferentes”, afirma a neuropsicóloga Hannah Louzada, diretora clínica da Gray Matters Brasil.
Segundo ela, a avaliação busca acrescentar informações sobre o funcionamento cerebral às queixas relatadas pelo paciente. É importante, porém, diferenciar essa análise do diagnóstico de TDAH, que continua dependendo de avaliação clínica. O mapeamento não deve ser usado isoladamente para confirmar o transtorno nem para definir a necessidade de medicamentos.
Entre no canal de WhatsApp do Metrópoles Saúde e CiênciaComo funciona o mapeamento cerebral
O mapeamento cerebral quantitativo, conhecido pela sigla qEEG, é feito a partir de um eletroencefalograma (EEG), exame que registra a atividade elétrica cerebral por meio de sensores colocados no couro cabeludo.
De acordo com a diretora da empresa, os registros são analisados por métodos que incluem o swLORETA — uma técnica matemática usada para estimar as possíveis fontes da atividade elétrica em diferentes regiões do cérebro. A análise considera características como a distribuição das frequências cerebrais e a comunicação entre redes neurais.
Os resultados são comparados a bancos de dados de referência e interpretados junto com o histórico, os sintomas e as queixas da pessoa. A intenção é identificar padrões que possam contribuir para a compreensão das dificuldades apresentadas.
“É essa compreensão individual que nos dá mais precisão para acolher as queixas de cada pessoa e pensar em estratégias direcionadas às necessidades reais daquele cérebro”, explica Hannah.
A técnica também pode ser utilizada pela clínica na avaliação de queixas relacionadas à atenção, à memória, ao sono e à ansiedade. No entanto, o mapeamento não confirma o diagnóstico de TDAH nem é recomendado formalmente para orientar o tratamento do transtorno.
“O diagnóstico do TDAH é clínico. O eletroencefalograma não faz o diagnóstico”, afirma o neurologista e neuroimunologista Thiago Taya, do Hospital Brasília.
Ele ressalta que alterações na atividade elétrica cerebral podem aparecer em pessoas com TDAH, mas também estão presentes em outras condições. Além disso, nem todas as pessoas com o transtorno apresentam os mesmos padrões, o que limita o uso do exame para identificar o TDAH.
O eletroencefalograma pode ajudar na investigação de outras condições que causam sintomas semelhantes, como a epilepsia, mas não é indicado formalmente para diagnosticar o TDAH.

O que é o neurofeedback
Depois do mapeamento, a clínica pode propor sessões de neurofeedback. O procedimento utiliza sensores para acompanhar a atividade elétrica cerebral em tempo real e apresentar ao paciente sinais visuais ou sonoros relacionados a determinados padrões dessa atividade.
Durante o treinamento, a pessoa recebe esse retorno enquanto realiza uma tarefa. A proposta é favorecer a aprendizagem de padrões de autorregulação por meio da repetição.
O método se baseia na neuroplasticidade, capacidade que o cérebro tem de aprender e modificar a organização e o funcionamento de suas redes ao longo da vida. “O cérebro não é uma estrutura fixa. Ele possui a capacidade de aprender, se adaptar e reorganizar seu funcionamento ao longo da vida”, diz Hannah.
No acompanhamento de pessoas com TDAH, a intenção é treinar habilidades relacionadas à manutenção da atenção, ao controle de impulsos e à regulação da atividade cerebral. A clínica individualiza os protocolos de acordo com os resultados do mapeamento e os objetivos definidos para cada paciente.
A proposta, porém, não significa que o neurofeedback produza os mesmos resultados para todas as pessoas. A eficácia depende das evidências disponíveis para cada aplicação, e a avaliação do benefício precisa considerar mudanças concretas nos sintomas e na rotina.
O que dizem as evidências científicas?
O neurofeedback ainda não tem evidências robustas que sustentem seu uso como tratamento de primeira linha para o TDAH. Uma metanálise publicada em 2025 na revista JAMA Psychiatry, com 38 ensaios clínicos e 2.472 participantes, não encontrou melhora significativa nos sintomas gerais, na atenção, no controle inibitório ou na memória operacional.
“O neurofeedback é uma opção terapêutica alternativa que pode trazer benefícios para alguns pacientes, mas não é considerado tratamento de primeira linha”, afirma Taya. O neurologista recomenda priorizar tratamentos com eficácia comprovada, como psicoterapia e medicamentos quando indicados.
