Letalidade da Covid-19 no Brasil caiu 65,2% desde o início da pandemia

Avanços no tratamento da infecção e no conhecimento dos profissionais de saúde fizeram com que a taxa de letalidade da doença diminuísse

atualizado 21/02/2021 22:12

Hugo BarretoMetrópoles

Há quase um ano, quando foi diagnosticado o primeiro caso de coronavírus em território brasileiro, o Sars-CoV-2 era um mistério para a ciência e a medicina. Um vírus completamente novo, com sintomas leves que evoluíam rapidamente e levavam o paciente a óbito, sem que houvesse o que fazer. Nas primeiras semanas da pandemia no Brasil, a taxa de letalidade, ou seja, a quantidade de óbitos registrados em relação aos casos confirmados, era de 6,9%, de acordo com um estudo da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) publicado no Jornal Brasileiro de Pneumologia.

Hoje, o cenário mudou. A letalidade caiu e, apesar do número ainda alto de novos casos contabilizados diariamente, a taxa se estabilizou por volta de 2,4%. As novas opções de tratamento, os medicamentos passando por testes em estudos clínicos, os hospitais sendo expandidos e a experiência adquirida por parte dos profissionais de saúde aumentaram as chances de os pacientes com Covid-19 sobreviverem.

O infectologista Leonardo Weissmann, consultor da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), explica que, na prática, a taxa de letalidade deve ser ainda menor. Como ela é calculada levando em consideração o número de casos confirmados, que é subestimado, a conta final pode mostrar índice diferente.

O tratamento

Infectologista do Hospital Sírio-Libanês e vice-presidente da Sociedade de Infectologia do Distrito Federal, Alexandre Cunha conta que, nos primeiros atendimentos, a única coisa que podia ser feita era oferecer oxigênio ao paciente. “Não tínhamos nenhum tratamento específico para o quadro, o que fazíamos era dar suporte ventilatório e suplementação de oxigênio ao paciente que não tinha oxigenação adequada. Inclusive, um dos equívocos no início da pandemia era intubar o paciente precocemente, o que não se mostrou uma boa alternativa”, pontua.

Nas primeiras semanas, como tudo ainda era um mistério, foram testados vários medicamentos, como a cloroquina e a azitromicina, por exemplo, além de um antiviral usado para HIV. Depois, estudos comprovaram que nenhum dos dois fármacos fazem diferença no prognóstico do paciente com Covid-19.

No meio do ano, surgiu a primeira luz para ajudar no tratamento: o corticoide dexametasona, que mostrou ser útil aos pacientes que precisam de oxigênio. A descoberta se deu a partir de um grande estudo da Universidade de Oxford, no Reino Unido. Hoje, todas as pessoas hospitalizadas com quadro mais avançado da doença recebem o medicamento.

Outra classe de remédios incorporada ao longo dos meses foi a dos anticoagulantes, principalmente em quadros mais graves. O objetivo é evitar a formação de trombos sanguíneos, muito comuns e, às vezes, perigosos. Os compostos usados até agora são apenas para pacientes hospitalizados e com necessidade de suplementação de oxigênio e ventilação mecânica – eles podem fazer mal a pessoas com sintomas leves. Até o momento, não há medicação que tenha mostrado eficácia em casos brandos da Covid-19.

“Foram dois grandes ganhos. Além disso, sem ser tratamento medicamentoso, melhoramos muito as técnicas de ventilação mecânica e os cuidados de UTI, há diversas formas de oxigenação não invasiva. O uso de estratégias de UTI facilitaram o manejo desses pacientes”, explica Cunha.

Oxigênio no sangue

A medicina também descobriu, com o passar dos meses, a possibilidade de os pacientes desenvolverem hipoxia silenciosa, condição em que o indivíduo apresenta redução nos níveis de oxigênio no sangue, mas sem manifestação clínica – ou seja, sem falta de ar. Hoje, os profissionais de saúde já orientam o uso do oxímetro para que a pessoa saiba o momento certo de procurar o serviço de emergência. Quando tratada no começo, a situação tem um desenrolar mais favorável.

Para Weissmann, os profissionais de saúde, bem como a comunidade científica, estão em curva de aprendizagem desde o começo da pandemia e, hoje, conseguem lidar melhor com o paciente que chega ao serviço de urgência infectado pelo novo coronavírus. “Nosso objetivo é salvar vidas. A redução da letalidade é uma consequência positiva do trabalho desenvolvido”, afirma o infectologista.

Cunha conta que, no dia a dia, é possível perceber a queda da taxa de letalidade, principalmente entre os internados, que agora têm considerável chance de sobrevida. “Conseguimos oferecer um tratamento melhor. A maior diferença hoje é ter acesso a um bom serviço de saúde. O que pode aumentar a letalidade novamente é a falta de leito, de oxigênio, de assistência médica, etc.”, frisa.

Apesar de já termos caminhado uma longa estrada desde a descoberta do novo coronavírus, ainda há muito o que precisamos saber sobre o vírus que colocou o mundo de cabeça para baixo. Falta evidência suficiente para o uso de plasma convalescente (parte do sangue que contém anticorpos de pessoas que já tiveram a doença) e a utilização de outros medicamentos.

Também não se sabe muito sobre as consequências a longo prazo. “Não dá para dizer que a Covid-19 seja menos assustadora. Ainda vemos muita gente morrendo. Conforme o tempo vai passando, cada vez mais vamos descobrindo informações sobre o vírus e a doença”, pondera Weissmann.

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