Evolução dos ácaros tornou os animais super dependentes de humanos
Estudo mostra que o Demodex folliculorum perdeu genes ao longo da evolução e depende cada vez mais da pele humana para sobreviver

Eles são microscópicos, vivem nos poros da pele e passam despercebidos pela maioria das pessoas. Os ácaros da espécie Demodex folliculorum habitam principalmente o rosto humano e, segundo um estudo publicado em 21 de junho na revista científica Molecular Biology and Evolution, estão se tornando cada vez mais dependentes do organismo humano após milhões de anos de adaptação.
A pesquisa não afirma que os ácaros estão “se fundindo” aos seres humanos. O que os cientistas observaram é um processo evolutivo: vivendo em um ambiente estável e protegido, o animal perdeu parte da autonomia e simplificou sua estrutura biológica.
Para a pesquisa, os cientistas sequenciaram o genoma do Demodex folliculorum para entender como o ácaro evoluiu vivendo exclusivamente na pele humana.
Os resultados mostraram que a espécie perdeu diversos genes ao longo da evolução e hoje possui um dos genomas mais simples já registrados entre parentes dos artrópodes.

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Ver todasSegundo os autores, isso ocorreu porque o ambiente onde vive oferece alimento constante, temperatura estável e pouca necessidade de enfrentar predadores ou competir por sobrevivência.
Como consequência, o organismo também ficou mais simples. O ácaro apresenta menos células musculares nas pernas e depende quase totalmente do corpo humano para completar seu ciclo de vida.
Cada vez mais dependente do ser humano
Os pesquisadores sugerem que o Demodex folliculorum está deixando de ser apenas um ectoparasita para se aproximar de um simbionte obrigatório, ou seja, um organismo que não consegue sobreviver sem o hospedeiro.
Um achado curioso envolve o comportamento noturno do ácaro. Como perdeu parte dos mecanismos biológicos que regulam seu próprio relógio interno, ele parece utilizar a melatonina produzida pela pele humana como sinal para se tornar ativo durante a noite, quando sai dos poros para procurar parceiros e se reproduzir.
Segundo os autores, a perda contínua de genes e a baixa diversidade genética podem colocar a espécie em um “beco sem saída” evolutivo. Em outras palavras, o Demodex folliculorum pode ficar tão especializado em viver no corpo humano que perderá a capacidade de se adaptar caso o ambiente mude.
A pesquisa também desfez um antigo mito. Durante muitos anos acreditou-se que o ácaro não possuía ânus e acumulava resíduos dentro do próprio corpo até morrer. A análise mostrou que isso não é verdade: a espécie possui uma abertura anal funcional.
Apesar da descoberta, os pesquisadores ressaltam que a presença do Demodex folliculorum faz parte da microbiota normal da pele. A maioria das pessoas convive com o ácaro sem apresentar qualquer sintoma ou problema de saúde.
O principal avanço do estudo está em mostrar como um organismo microscópico pode mudar profundamente ao longo da evolução quando passa milhões de anos vivendo em estreita associação com um único hospedeiro: o ser humano.


