Dismorfia corporal: entenda o que pode causar a “feiura imaginária”

Novas gerações cobram inclusão da diversidade de corpos como um caminho para evitar distúrbios associados à aparência, comuns em jovens

atualizado 25/07/2021 11:22

mulher deitada na cama com rosto virada para a camaUnplash

A idealização de um corpo perfeito, reforçada nas redes sociais por influenciadores digitais e pela indústria da beleza, pode ser gatilho para pessoas que tendem a desenvolver distúrbios associados à aparência, como é o caso da dismorfia corporal. Conhecida como “síndrome da feiura imaginária”, o Transtorno Dismórfico Corporal (TDC) acomete homens e mulheres, com incidência maior entre os mais jovens, com idades entre 15 e 30 anos.

Pessoas que enfrentam esse distúrbio geralmente têm uma visão equivocada da própria aparência, de acordo com Juliana Gebrim, neuropsicóloga pelo Instituto de Psicologia Aplicada e Formação de Portugal (Ipaf) e psicóloga clínica pela Universidade de Brasília (UnB).

Segundo a especialista, pessoas diagnosticadas com TDC relatam insatisfação com o próprio corpo e relacionam as características corporais com problemas para conseguir emprego, manter amizades ou um relacionamento amoroso, entre outras situações.

“A pessoa atribui as dificuldades pelas quais passa à aparência. Isso se torna um problema e prejudica o indivíduo quando invade a vida profissional, social e familiar”, explica a psicóloga, que alerta para casos em que o TDC leva a problemas de saúde como transtornos alimentares, por exemplo.

Além da pressão social pelo corpo idealizado, a psicóloga lista outros fatores que podem desencadear o quadro. “Pode ser um quadro depressivo ou de ansiedade associado a uma baixíssima autoestima”, explica Juliana.

Pesquisa

Uma pesquisa da Faculdade de Medicina da Universidade Estadual Paulista (Unesp), publicada no início deste ano na revista científica Anais Brasileiros de Dermatologia, abordou justamente a relação dos traumas com o TDC. Realizado com 223 mulheres adultas atendidas em um serviço público de tratamento dermatológico, o levantamento mostrou que 84% das voluntárias relataram experiências de violência doméstica, 78% sofreram abuso sexual e 70% foram vítimas de bullying.

A prevalência de TDC foi observada em 48% das participantes que desabafaram queixas relacionadas à aparência e beleza. O trabalho também registrou que o TDC é mais frequente entre pacientes que passaram por cirurgias plásticas e que as principais queixas são sobre manchas na pele, acne, rugas, estrias, varizes e envelhecimento.

De acordo com Juliana, o excesso de cirurgias ou a busca por cirurgias desnecessárias, nas quais a pessoa gasta, às vezes, além do orçamento que possui para solucionar um defeito imaginário, são sinais que alertam para um transtorno psicológico grave. “Muitas dessas pessoas colocam a própria vida em risco, quando começam a restringir alimentos, se submetem a tratamentos cirúrgicos e se expõem a erros, prejudicando a saúde como um todo”, destaca a psicóloga.

Uma saída para evitar transtornos relativos à aparência e demais distúrbios associados passa pela ressignificação da ideia de “defeito do corpo”. É o que propõem duas jovens mineiras criadoras de conteúdo para as redes sociais.

Beleza na diversidade

Com a ideia de ser um espaço para a inclusão da diversidade de corpos e peles, o projeto “Todo Corpo/Toda Pele” foi lançado na segunda-feira (12/7) e surgiu a partir de questionamentos sobre padrões estéticos feitos por Kéren Paiva, de 24 anos, moradora de Contagem (MG), e Layla Brigido, de 27 anos, que reside atualmente em Vitória (ES).

“É muito prazeroso ver cada vez mais pessoas se sentindo mais livres, se sentindo mais em paz com a sua pele, com o seu corpo, então passamos a criar esse tipo de conteúdo e o retorno tem sido muito emocionante”, relata Layla.

Ela foi submetida a um tratamento contra câncer aos 16 anos e precisou de quimioterapia. Com o tempo, ganhou peso e passou a receber diversas críticas a respeito de seu corpo. “Isso começou a me machucar e sofri muito por muito tempo, porque eu também achava que engordar era a pior coisa. Perdi todas as minhas roupas, estava cheia de coisas complicadas ao mesmo tempo. Minha saída foi criar um espaço para falar de beleza de forma mais livre e inclusiva”, explica.

Kéren Paiva, parceira de Layla na empreitada, também encabeçou o “movimento pele livre” no Brasil, que defende a liberdade para se ter pele com manchas, acne, rugas e outras características geralmente assimiladas como “imperfeições”.

“A Layla falava nas redes dela de autoestima e aceitação do corpo. Então comecei a questionar o porquê de não aceitar a minha própria pele. Existe por aí tanto preconceito, pressão, racismo que as pessoas enfrentam, por isso queremos contribuir com essa desmistificação de ideias”, conta Kéren.

A jovem, que lida com a acne desde os 11 anos de idade, relata como o conteúdo da amiga lhe provocou uma “virada de chave”: “Eu me maquiava inteira para ir para a escola e nunca era o suficiente para esconder a acne. Infelizmente muita gente pensa que pessoas com acne são sujas, não lavam o rosto ou não cuidam direito da pele, sendo que eu me cuidava muito. Isso foi imposto às pessoas para um consumo da indústria da beleza, eles lucram com as nossas inseguranças”, critica Kéren.

Para Layla, os tempos mudaram para melhor quando se observa a abertura de mais espaços onde esses debates acontecem. “Hoje a gente consegue falar mais sobre isso. Uns anos atrás não seria aceito, seríamos consideradas loucas. Temos que aproveitar os espaços que existem e contribuir nos processos de aceitação das pessoas, ajudando a elevar a autoestima delas. Muita gente nos procura para agradecer pela maneira como estamos abordando o assunto'”, enfatiza Layla.

Veja algumas das publicações do perfil das jovens criadoras de conteúdo nas redes sociais:

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