"Vamos demorar anos para vacinar todos contra a dengue", diz diretor do Butantan.
Em entrevista ao Metrópoles, o infectologista Esper Kallás fala sobre as estratégias do Butantan para ampliar a vacinação contra a dengue

A dengue exerce impacto na saúde pública no Brasil desde que foi introduzida no país, na década de 1980. Mas 2024 ficou marcado como o ano de recordes históricos: foram 6,6 milhões de casos e 6.183 mortes. Embora o lançamento de uma vacina nacional aumente a esperança de uma mudança no jogo, o infectologista e diretor do Instituto Butantan, Esper Kallás, acredita que o caminho ainda é longo e que as medidas de prevenção não podem ser deixadas de lado, mesmo pelos já vacinados.
https://youtu.be/s0a21UY2MFg
A Butantan-DV é a primeira vacina do mundo em dose única que protege contra os quatro sorotipos da dengue. O registro foi concedido pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em 8 de dezembro de 2025, para ser utilizada na população com 12 a 59 anos.
Desde então, já foram enviadas 1,3 milhão de doses ao Programa Nacional de Imunizações (PNI). Em fevereiro, o Instituto Butantan anunciou a antecipação do envio de outras 1,3 milhão de doses ainda no primeiro semestre deste ano, totalizando 2,6 milhões de vacinas.
Entre no canal de WhatsApp do Metrópoles Saúde e CiênciaSegundo Kallás, essas doses serão entregues até abril. “A gente percebeu que há uma necessidade de doses em maior quantidade no Brasil desde que começamos a montar o nosso programa”, afirma em entrevista ao Metrópoles.
Ainda assim, a imunização deve se restringir aos grupos de maior risco à doença em 2026. O Ministério da Saúde começou a vacinar profissionais de saúde da atenção primária que atuam no SUS em fevereiro. A expectativa da pasta é vacinar 1,2 milhão de médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem e agentes comunitários.
Depois deles, o plano é começar a vacinar as faixas etárias mais velhas (com no máximo 59 anos) e expandir para as mais jovens gradativamente, à medida que mais doses são entregues pelo Butantan.
“A prioridade que o Ministério da Saúde vem apontando é imunizar as pessoas com mais idade. O motivo dessa decisão é o fato delas terem chances maiores de desenvolver doença mais grave”, destaca.
Kallás lembra que, pelos critérios da Anvisa — que indica a vacina apenas a pessoas de 12 a 59 anos —, seriam necessárias cerca de 120 milhões de doses para imunizar toda a população nessa faixa etária. Mas o planejamento para uma produção desse tamanho é complexo.
A planta da fábrica deve levar em consideração a complexidade da vacina e a demanda. Por ser um imunizante de dose única, depois que a população for vacinada, não há a necessidade de continuar com a fabricação em larga escala e é preciso encontrar uma nova utilidade para a fábrica.
“Como a gente não tem essa disponibilidade de pronta entrega, vamos demorar alguns anos para conseguir atingir esse número. Começa-se sempre por aqueles que são mais suscetíveis à doença mais grave”, explica.
Proteção por cinco anos
Um estudo feito pelo Instituto Butantan e publicado nessa quinta-feira (5/3) na revista Nature, mostrou que a vacina contra a dengue permanece eficaz por pelo menos cinco anos após a aplicação.
Ao todo, mais de 16 mil voluntários com idades entre 2 e 59 anos participaram do estudo. Depois de cinco anos de acompanhamento, a eficácia geral contra a dengue sintomática confirmada por exame foi de 65%. A proteção para casos graves chegou a 80,5%.
No período de cinco anos — aqueles que apresentam sinais de alarme ou risco de complicações —, nenhuma pessoa vacinada desenvolveu quadro grave de dengue, nem precisou de hospitalização por causa da doença.
Cuidados após a vacinação
O infectologista reforça que, mesmo após tomar a vacina, a população precisa continuar a seguir as medidas de prevenção contra o mosquito Aedes aegypti, como eliminar os focos de água parada.
“O mesmo mosquito pode transmitir outras doenças — chikungunya e zika — e a gente sabe que todas as medidas de prevenção se beneficiam quando são tomadas juntas. Ter uma vacina que seja tão boa quanto a Butantan-DV e abandonar as outras medidas de prevenção [pode faze] o tiro pode sair pela culatra”, aponta.




















