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Pesquisa mostra como sistema imune humano reage a rim de porco

Análise inédita mostra que controlar apenas a rejeição inicial não basta para garantir a sobrevivência do enxerto a longo prazo

atualizado

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Massachusetts General Hospital
Imagem da cirurgia do primeiro paciente a receber um rim de porco foi um homem de 62 anos com doença renal terminal, que passou por cirurgia em 2024 no Hospital Geral de Massachusetts. Metrópoles
1 de 1 Imagem da cirurgia do primeiro paciente a receber um rim de porco foi um homem de 62 anos com doença renal terminal, que passou por cirurgia em 2024 no Hospital Geral de Massachusetts. Metrópoles - Foto: Massachusetts General Hospital

Uma pesquisa liderada por cientistas brasileiros descreveu, em detalhes inéditos, como o sistema imunológico humano reage ao transplante de um rim de porco geneticamente modificado em um paciente vivo.

O estudo analisou a resposta do organismo ao longo do tempo e mostrou que, mesmo com o controle da rejeição inicial, mecanismos mais amplos do sistema imune seguem ativos e podem comprometer a durabilidade do órgão transplantado.

O trabalho foi publicado nessa quinta-feira (8/1) na revista Nature Medicina e analisou o primeiro caso do mundo de xenotransplante renal realizado em um paciente vivo. A cirurgia ocorreu em março de 2024 no Hospital Geral de Massachusetts, ligado à Harvard Medical School, em Boston, nos Estados Unidos.

O paciente, um homem de 62 anos com doença renal em estágio terminal, recebeu um rim de porco com 69 modificações genéticas destinadas a mostrar maior compatibilidade com o organismo humano. Ele morreu cerca de dois meses depois, por causa provável de uma fibrose cardíaca crônica prévia, sem relação direta com o funcionamento do enxerto.


O que é o xenotransplante

  • Xenotransplantes é como são chamados os transplantes de órgãos entre espécies diferentes.
  • Os porcos são os mais estudados, por serem considerados os melhores doadores. Isso se deve tanto à anatomia de seus órgãos, mais semelhante à dos seres humanos, quanto ao fato de serem criados e abatidos em grande número para consumo.
  • Além disso, esses animais têm uma gestação de quatro meses, com muitos filhotes, e já existe uma tecnologia estabelecida para sua criação comercial. Dessa forma, o uso dos seus órgãos para transplantes é mais bem aceito pela sociedade.
  • A principal dificuldade relacionada ao transplante de órgãos de porcos para seres humanos é o fenômeno da rejeição.
  • Ela acontece por conta de determinados antígenos presentes no organismo dos suínos que o corpo humano não suporta, levando à rejeição imediata.

O que o estudo revelou sobre a resposta imunológica

A análise mostrou que, logo após o transplante, o organismo reconheceu o rim como estranho e ativou a chamada rejeição celular, mediada principalmente por linfócitos T. Esse tipo de resposta, comum também em transplantes entre humanos, foi identificado precocemente e controlado com o uso de imunossupressores.

O diferencial do estudo foi observar o que aconteceu depois. Mesmo sem sinais de rejeição grave mediada por anticorpos, os pesquisadores identificaram uma ativação persistente da imunidade inata, que envolve células como monócitos e macrófagos, responsáveis pela primeira linha de defesa do corpo.

Segundo Thiago Borges, professor e pesquisador do Hospital Geral de Massachusetts e da Harvard Medical School, o principal avanço foi entender que o controle tradicional da rejeição não é suficiente nesse tipo de transplante.

“Os dados mostram que não basta modular apenas a imunidade adaptativa, como fazemos nos transplantes convencionais. A resposta da imunidade inata continua ativa e precisa ser tratada de forma específica para que o enxerto tenha maior chance de sobrevivência prolongada”, explicou em comunicado.

Ferramentas avançadas e novos marcadores de rejeição

Para chegar a essas conclusões, os cientistas cruzaram informações clínicas com análises de larga escala, incluindo dados de genes, proteínas, metabólitos e distribuição espacial das células no tecido renal. Esse olhar integrado permitiu identificar lesões no órgão que não apareciam em exames de sangue tradicionais.

Um dos achados foi a detecção de fragmentos de DNA do rim transplantado circulando no sangue do paciente. Esses fragmentos, conhecidos como DNA livre derivado do doador, indicaram danos ao enxerto antes mesmo de alterações clínicas evidentes.

“Mostramos que esse marcador pode ser uma forma sensível e não invasiva de acompanhar a saúde do enxerto em tempo real. Isso pode reduzir a necessidade de biópsias e ajudar no ajuste precoce das terapias”, afirma Borges.

O estudo também reforça que os tratamentos atuais ainda não conseguem controlar totalmente a inflamação persistente associada ao xenotransplante. Para os autores, isso indica a necessidade de combinar novas estratégias, tanto no desenho genético dos órgãos doadores quanto no desenvolvimento de terapias direcionadas à imunidade inata dos receptores.

O pesquisador sênior do Hospital Israelita Albert Einstein Helder Nakaya, um dos autores do artigo, destaca que a pesquisa permitiu mapear com precisão as alterações moleculares envolvidas no processo.

“Foi possível ter uma visão integrada das mudanças celulares e bioquímicas ao longo do transplante. Essas informações podem ajudar a orientar formas mais eficazes de imunossupressão no futuro”, finaliza.

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