AA no Zoom: luta para ficar longe do vício segue on-line na pandemia

Impedidos de realizar encontros presenciais, grupos de ajuda mútua, como os Alcoólicos Anônimos, migraram para o ambiente virtual

atualizado 05/12/2020 10:29

Yanka Romão/Metrópoles

Geralmente realizadas em pequenas salas, salões de festa ou igrejas, as reuniões de grupos de ajuda mútua como o Alcoólicos Anônimos (AA) e o Narcóticos Anônimos (NA) tiveram que se adaptar ao isolamento imposto pela pandemia de coronavírus. Desde março, as associações trocaram os abraços e depoimentos ao vivo por reuniões via internet. Se por um lado o ambiente virtual proporciona praticidade, as chamadas de vídeo impossibilitam o contato humano, um dos alicerces do método utilizado pelas iniciativas.

Orestes*, membro da diretoria do escritório do AA em Brasília, explica que, logo que saiu o decreto do governo do Distrito Federal proibindo a abertura de serviços não essenciais, no início da pandemia, a comunidade começou a se organizar. Todos os grupos presenciais foram fechados e as reuniões migraram para plataformas como Zoom, Google Meets e Zello. “Quando o GDF permitiu a reabertura de igrejas, colégios e outras entidades, alguns grupos resolveram reabrir [presencialmente]”, detalha.

Atualmente há, em Brasília, 93 grupos ativos do AA, sendo que 54 estão funcionando de forma presencial. Desses, 13 reabriram entre novembro e dezembro. Até o mês passado, Orestes conta que os interessados nas reuniões eram contatados por participantes mais antigos, que encaminhavam as pessoas a eventos abertos ou enviavam links de acesso aos encontros a distância.

Alexander* é um dos coordenadores de reuniões on-line do AA no DF. Apesar de ter sido contra a mudança no início, hoje o piscineiro participa de grupos do Brasil inteiro. Ele comparece aos encontros virtuais cinco vezes por semana, além de ajudar a organizar outros 95 grupos de Brasília e do entorno.

Em abril, Alexander completou 11 anos de sobriedade contínua. As reuniões virtuais não são necessariamente uma novidade no AA, mas eram pouquíssimas, especialmente em comparação com os tempos atuais. “Já existem até grupos on-line que não existem presencialmente, foram criados justamente por conta da pandemia”, completa.

O Narcóticos Anônimos funciona de maneira semelhante ao AA. Cristiano B., membro do NA e coordenador de diversos grupos virtuais, diz que, antes da pandemia, o NA promovia cerca de 70 mil reuniões semanais em 150 países diferentes. “No Brasil, temos em torno de 5 mil grupos”, contabiliza.

A principal ferramenta de recuperação de adictos – pessoas “cuja vida é controlada pelas drogas” de acordo com a definição do NA –  é a troca de experiências, explica Cristiano. Não há nenhum tipo de aconselhamento profissional ou medicação. “São simplesmente adictos em recuperação, se ajudando e partilhando depoimentos”, resume. “Como as experiências são muito parecidas, o exemplo, a empatia e a identificação são muito fortes. Não há paralelos para o valor terapêutico da ajuda de um adicto para outro.”

Para ele, a praticidade de não ter que se deslocar ao local das reuniões encorajou pessoas mais tímidas a procurarem a ajuda do NA. “A desvantagem é que [os encontros] dependem das condições de internet. Se a pessoa não tem uma conexão boa, fica difícil acompanhar”, pondera Cristiano. Falta de privacidade em casa ou de um espaço em que a pessoa possa se concentrar na reunião também são motivos que podem causar afastamento do método on-line, segundo ele.

Ambiente on-line, acolhimento real

Enquanto alguns participantes adoraram a novidade a ponto de não pensarem em aderir às reuniões presenciais nem quando a pandemia acabar, outros não se adaptaram tão bem. “Temos companheiros com 40, 50 anos de sobriedade contínua que não aceitaram [as reuniões on-line] de jeito nenhum”, comenta. Alexander, coordenador de grupos do AA em Brasília, faz parte do time que se adaptou bem ao apoio virtual. “Participo de reuniões no Rio Grande do Sul e vou conhecê-los pessoalmente em janeiro. A única diferença é a distância, mas o propósito é o mesmo”, defende.

A organização de cada grupo é independente, mas, de maneira geral, funciona como as reuniões presenciais, tanto no AA quanto no NA. O coordenador precisa ter noções básicas das ferramentas virtuais, mas não há a necessidade de estruturas complexas, como microfones ou um estúdio. Basta um celular ou um computador com acesso à internet.

Há grupos em que os depoimentos são organizados por ordem de chegada na sala virtual, outros funcionam de maneira espontânea, em que a palavra é passada para quem se sentir à vontade. Os participantes têm, em média, 10 minutos para falar. Um temporizador na tela informa o tempo e um sinal avisa quando faltam três minutos para o fim do período. Não é permitido interrupções. Se um companheiro estiver falando e alguém esquecer o microfone aberto, os coordenadores podem desativá-lo.

Recaída: um perigo constante

A pandemia causou ansiedade em muita gente e quem luta contra um vício pode viver isso de maneira ainda mais intensa. Recaídas, especialmente durante o período mais duro de isolamento social, infelizmente foram mais frequentes, segundo Orestes, membro da diretoria do AA em Brasília. “Elas aconteceram especialmente entre as pessoas mais jovens e entre as que estavam começando”, conta. “Percebemos que os pedidos de ajuda também aumentaram. Não houve um dia da pandemia que não tivesse ao menos um telefonema de pessoas procurando as reuniões.”

Não há dados oficiais com relação ao número de recaídas, por conta do anonimato dos grupos. Contudo, Cristiano B, coordenador de algumas reuniões on-line do NA, relata que alguns membros, especialmente os que não se adaptaram às plataformas virtuais, viveram episódios de reincidência. “A pandemia trouxe muita ansiedade e incerteza. Para quem tem predisposição a usar drogas, as recaídas podem acontecer”, reconhece. “Mas a grande maioria segue limpo nas reuniões virtuais.”

Fábio Aurélio Leite, psiquiatra do Hospital Santa Lúcia Norte, explica que a pandemia aumentou a ingestão de bebidas alcoólicas e outras drogas, não só entre adictos. “O ato de estar em ambiente doméstico facilita o excesso porque a bebida ou outra substância está disponível, a pessoa não precisa dirigir e ninguém está vendo”, justifica o médico. O estresse e o acúmulo de serviço do home office também são gatilhos que podem levar ao uso de substâncias psicoativas.

A cultura brasileira de contato físico constante, segundo o psiquiatra, pode tornar as reuniões on-line complicadas para algumas pessoas. “O abraço, o aperto de mão fazem a diferença, especialmente para quem demonstra algum tipo de desarranjo emocional”, completa. “Nós temos necessidade não só de acolhimento verbal, mas físico também.” O abraço é especialmente terapêutico para pessoas que viveram questões familiares complexas, como pais ausentes ou violentos.

Ainda que virtuais e sem contato físico, as reuniões de grupos de ajuda mútua têm essa função acolhedora, defende Fábio Leite. Fazer parte de uma comunidade, on-line ou não, ajuda a nutrir sentimentos de empatia, acolhimento, pertencimento e esperança. “Às vezes as pessoas andam com usuários de drogas e se sentem parte de uma família, ainda que de forma patológica. Então, é necessário que eles se sintam acolhidos em outro lugar, que sintam que pertencem àquele grupo e recebam algum tipo de manifestação afetiva.”

*Os nomes dos entrevistados foram alterados para manter o princípio de anonimato do AA e do NA.

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