10 anos após vencer melanoma, paciente ainda vive com medo da doença
Acompanhamento médico e mapeamento das pintas seguem fazendo parte da rotina de quem já teve melanoma

Uma pinta que começou a crescer, escurecer e coçar foi o primeiro sinal de que algo estava errado. Aos 29 anos, a social media Carolina Xavier acreditava que seria apenas mais uma lesão de pele retirada em consultório, como já havia acontecido antes. Em vez disso, recebeu o diagnóstico de melanoma, o tipo mais agressivo de câncer de pele. Hoje, dez anos após o tratamento, ela está livre da doença, mas diz que o medo nunca desapareceu completamente.
O diagnóstico chegou em maio de 2016, depois que uma dermatologista decidiu investigar a lesão localizada acima do seio direito. Carolina lembra que a médica retirou um pequeno fragmento para biópsia e escreveu a palavra “urgente” no pedido do exame. Dias depois, ela recebeu sozinha o resultado.
“Quando peguei aquele papel e li o termo ‘melanoma maligno‘, acho que entrei em choque. É a sensação de o chão se abrir e você não vai conseguir fazer nada”, lembra.
Nos primeiros momentos após ler o resultado da biópsia, Carolina conta que ficou desesperada. Mesmo assim, voltou ao trabalho e tentou seguir a rotina normalmente, apesar de não conseguir dimensionar a gravidade do diagnóstico. “Eu travei. Continuei fazendo minhas coisas meio no automático”, lembra.
Nas semanas seguintes, porém, a rotina mudou completamente. Vieram novas consultas, exames e a cirurgia para retirar a lesão com uma margem de segurança. O maior receio era descobrir que o melanoma já havia atingido os linfonodos ou outros órgãos.
Os exames mostraram que a doença ainda estava restrita à pele, o que aumentava as chances de cura. Ainda assim, a preocupação não desapareceu.
“Os primeiros cinco anos foram muito intensos. A cada exame vinha aquela ansiedade pelo resultado. Também ficava apreensiva para saber se alguma das pintas tinha mudado ou se apareceria uma nova”, conta.
Segundo a dermatologista Adriana Rochetto, colaboradora do Comitê Científico do Instituto Lado a Lado pela Vida, esse sentimento é comum entre pacientes que tiveram melanoma.
“Mesmo após o tratamento bem-sucedido, o acompanhamento continua sendo muito importante porque o melanoma é um câncer de pele mais agressivo, com potencial para atingir linfonodos e outros órgãos”, explica.
Ela afirma que cerca de 80% das recorrências acontecem nos três primeiros anos após o tratamento, motivo pelo qual esse período exige vigilância mais frequente.
Depois dos três anos, muitos pacientes passam a fazer consultas anuais, mas o acompanhamento costuma ser mantido por toda a vida. “É frequente que os pacientes convivam com medo do retorno da doença. Do ponto de vista emocional, isso pode ser bastante pesado”, afirma a especialista.
Acompanhamento para o resto da vida
Hoje, dez anos depois do diagnóstico, Carolina faz consultas anuais com o oncologista e com a dermatologista.
Além de exames de sangue, raio X e ultrassonografia, ela realiza um mapeamento corporal por dermatoscopia digital, exame que registra fotografias das pintas para comparar possíveis alterações ao longo do tempo. “O oncologista costuma brincar que será um casamento para o resto da vida”, conta.
Ela diz que tenta encarar os exames com tranquilidade, mas admite que a ansiedade aparece nos dias que antecedem as consultas. “Sair da sala sabendo que está tudo bem me deixa mais leve. Depois dos exames, eu e meu marido sempre vamos comemorar em algum restaurante”, compartilha.

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Ver todasO melanoma também mudou completamente sua relação com o sol. Antes do diagnóstico, Carolina buscava a marquinha de biquíni, tomava sol por longos períodos e quase nunca usava protetor solar.
“Hoje uso protetor o ano inteiro, boné, óculos escuros, roupas com manga longa quando viajo, manguito para dirigir e evito os horários de maior sol. Entendi que preciso me proteger”, diz.
Mais do que isso, ela passou a observar o próprio corpo com muito mais atenção. “Tenho muitas pintas, então estou sempre de olho para caso alguma comece a coçar, sangrar ou mudar de aparência.”
Melanoma exige atenção
Ao contrário de outros tumores de pele, o melanoma apresenta maior risco de se espalhar para outros órgãos quando não é diagnosticado precocemente.
“Nem todo câncer de pele é igual. O carcinoma basocelular, por exemplo, costuma crescer apenas localmente. Já o melanoma tem potencial para causar metástases e pode levar à morte quando não tratado adequadamente”, explica Adriana.
De acordo com a dermatologista, justamente por isso qualquer mudança em uma pinta merece avaliação médica. O acompanhamento também é importante porque quem já teve melanoma apresenta maior risco de desenvolver novos tumores ao longo da vida.
Além disso, parentes de primeiro grau também devem realizar avaliação periódica das pintas, pois apresentam risco aumentado para a doença.
Ao lembrar da própria trajetória, Carolina espera que sua experiência incentive outras pessoas a procurarem ajuda logo nos primeiros sinais.
“Sempre que alguém me diz que marcou uma consulta porque ouviu minha história, sinto que tudo isso ganhou um propósito. O diagnóstico precoce faz toda a diferença”, finaliza.

















