Rede de fintech de policial usada pelo PCC lavou R$ 6 bi em 16 países
Duas instituições financeiras foram alvo de operação conjunta entre o MPSP e a Polícia Federal; policial foi preso a pedido da Justiça

São Paulo – A rede da fintech gerida pelo policial civil Cyllas Salerno Elia Júnior, preso suspeito de lavar dinheiro para o Primeiro Comando da Capital (PCC), teria movimentado bilhões de reais em ao menos 16 países, incluindo o Brasil.
A lista, mencionada no pedido de busca e apreensão do Ministério Público de São Paulo (MPSP), obtido pela reportagem, é composta por países europeus, da América Latina, além dos Estados Unidos e da China, cujas movimentações são destacadas pela Promotoria – justamente pelo fato de, no país asiático, o monitoramento feito pelas autoridades ser interrompido.
Ao Metrópoles, o promotor Lincoln Gakiya afirmou que, para o MPSP, “não foi uma surpresa” . “Eles [criminosos] têm, na verdade, tentado dificultar a rastreabilidade de recursos com operações [financeiras] casadas, envolvendo não só outras contas, como outras instituições financeiras. Na China, isso perde toda a rastreabilidade.”
Até o momento, investigação da Polícia Federal (PF) e do MPSP identificou que, nos últimos cinco anos, a fintech do policial movimentou R$ 6 bilhões.
Gakiya atribui a criação de fintechs por parte do crime organizado a uma deficiência de fiscalização dos órgãos encarregados para esse fim.
“O que nós estamos vendo hoje é um outro patamar, que atingiu o crime organizado, que se sofisticou nessa engenharia financeira de lavagem [de dinheiro], que começou lá atrás, utilizando doleiros no começo, até enterrando dinheiro nas casas-cofre, e hoje utilizando brechas legais e muito bem assessorados. Esses criminosos estão, definitivamente, operando no mercado financeiro formal.”
Braço corrupto do estado
A ascensão do PCC ao status de máfia, como a define o próprio promotor de Justiça, deve-se ao auxílio do “braço corrupto do estado” nas ações da facção criminosa. Gakiya afirmou “causar desconforto” ao Ministério Público a constatação da infiltração do crime organizado nas estruturas governamentais, entre elas, as policiais.
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“A presença, infelizmente, desse braço corrupto do estado é o meio necessário para que a organização criminosa [PCC] consiga atingir os seus objetivos, não é? E um deles é a manutenção da defesa do território que eles já ocuparam, é a manutenção dos seus negócios, na lavagem de dinheiro. Então, sem esse braço [do estado], sem essa infiltração nas estruturas do estado, certamente o PCC não teria atingido esse nível que atingiu hoje.”
Como já mostrado pelo Metrópoles, policiais civis e militares estão presos sob a suspeita de envolvimento com as práticas criminosas da facção – incluindo a lavagem de dinheiro – além de participação direta e indireta no assassinato de Vinícius Gritzbach, executado no Aeroporto Internacional de São Paulo, na região metropolitana, oito dias após delatar o envolvimento de agentes do estado com o PCC.
Fintechs
As fintechs, como são chamadas as empresas que oferecem serviços financeiros por meio de plataformas on-line, viraram o novo esconderijo do dinheiro de facções que lucram com o tráfico de drogas, como o PCC, de empresários que fogem de dívidas e impostos e até mesmo de casas de apostas envolvidas em esquemas de lavagem.
Ao lado de Gakiya, o promotor Fábio Bechara, que também atua no Gaeco, afirmou nesta terça-feira (25/2) que “os novos meios de pagamentos substituíram o papel de doleiros”, que ganharam fama nos últimos anos ao serem presos por lavar e esconder dinheiro dos grandes escândalos de corrupção no Brasil.

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Ver todasAs companhias desse perfil têm vendido abertamente contas blindadas contra bloqueio judicial e rastreamento, deixando os saldos bancários dos clientes invisíveis para o Sistema de Busca de Ativos do Poder Judiciário (Sisbajud), que executa bloqueios em processos judiciais, e até para o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), órgão responsável por identificar transações suspeitas.
Operação Hydra
O policial civil Cyllas Salerno Elia Júnior foi preso, nesta terça, na Operação Hydra, deflagrada pelo Ministério Público e a Polícia Federal para combater a lavagem de dinheiro ligada à facção criminosa.
A investigação, que mira na atuação das fintechs 2GO Bank e Invbank, foi iniciada a partir da delação de Vinícius Gritzbach.
Cyllas Elia é fundador e CEO da fintech 2GO Bank. Ele já havia sido preso em 26 de novembro do ano passado, durante a Operação Tai-Pan, da PF, contra crimes financeiros que movimentaram R$ 6 bilhões nos últimos cinco anos.
O policial foi solto em janeiro, após decisão da Justiça Federal, mas estava afastado das funções e responde a um procedimento na Corregedoria da Polícia Civil.
De acordo com o MPSP, Gritzbach “jogou luz na atuação de fintechs para o branqueamento de bens e valores oriundos de atividades criminosas”. Essa é uma das frentes das investigações realizadas pela PF, cujo objetivo é desarticular esquema de lavagem de dinheiro por meio das instituições de pagamento.

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Ver todasEm resumo, duas empresas ofereciam serviços financeiros de forma alternativa às instituições bancárias tradicionais, movimentando valores ilícitos. Elas constituíram engenharia financeira complexa para velar os reais beneficiários.
A PF e o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do MPSP, cumpriram um mandado de prisão preventiva e dez mandados de busca e apreensão em endereços nas cidades de São Paulo, Santo André e São Bernardo.























