Racismo: MPSP pede que Justiça aceite denúncia contra vice-prefeito
Parecer do MPSP defende que a Justiça aceite a nova denúncia contra o vice-prefeito de Rio Preto, Fábio Marcondes, (PL) por injúria racial

A promotora Fernanda Aliperti Coelho Prado Neubern, do Ministério Público de São Paulo (MPSP), protocolou, nesta quarta-feira (17/6), um parecer em que defende o recebimento pela Justiça de Mirassol, no interior paulista, de denúncia pelo crime de injúria racial praticado pelo vice-prefeito de São José do Rio Preto, Fábio Marcondes (PL), contra um segurança do Palmeiras. O caso ocorreu no dia 23 de fevereiro de 2025, após uma partida naquela cidade, válida pelo Campeonato Paulista de futebol. Na ocasião, o político chamou o profissional palmeirense de “macaco velho”.
No documento, Neubern afirma que há indícios suficientes para prosseguimento da ação, apesar das decisões anteriores que anularam provas e arquivaram o processo, em maio passado, quando a Justiça havia entendido que a nova tentativa do MPSP pretendia corrigir uma denúncia inicial que não tinha provas suficientes – e que o promotor José Silvio Codgno não tinha considerado o relatório da Polícia Civil que utilizou inteligência artificial para transcrever a suposta ofensa dita pelo acusado ao segurança palmeirense.
No entanto, para a promotora, “o ordenamento jurídico exige apenas prova da materialidade e indícios suficientes de autoria”. Agora, o recurso será julgado pela 3ª Câmara de Direito Criminal do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP). A data ainda não foi definida.
Em nota enviada ao Metrópoles, o advogado Ediênio Xavier Barreto afirma que respeita o posicionamento institucional da PGJ, mas ressalta que se trata de parecer não vinculante, cabendo ao Tribunal de Justiça realizar sua própria análise do caso. “Mantemos a convicção de que a decisão proferida pela Justiça de Mirassol foi correta e devidamente fundamentada, razão pela qual seguimos confiantes em sua manutenção pelo Tribunal. A defesa já apresentou suas contrarrazões ao recurso e aguarda a apreciação da matéria pelo Tribunal de Justiça.”
Entre no canal de WhatsApp do Metrópoles SPÀ reportagem, Fábio Marcondes acrescentou que “o próprio parecer admite que ‘os dois laudos oficiais do Instituto de Criminalística não confirmaram a expressão ‘macaco'”. “O MP escreveu isso”, complementou o vice-prefeito.
Em agosto passado, o promotor José Silvio Codogno afirmou, em relatório, que o xingamento foi proferido após a vítima pedir para o filho do vice-prefeito se afastar do local por onde passariam os atletas do Palmeiras, que deixavam o Estádio Municipal José Maria de Campos Maia em direção ao ônibus que os aguardava no estacionamento. A Promotoria – que também pediu a perda do mandato, na semana passada –, havia denunciado o vice-prefeito por infração aos artigos 2º-A e 20-A, ambos da Lei do Racismo (Lei nº 7.716/1989).
Conforme os autos, Marcondes não gostou de ver o filho ser repreendido pelo segurança, passando a discutir com o homem e proferir contra ele uma série de insultos. Para Codogno, o réu “praticou injúria racial atingindo a honra subjetiva da vítima”.
Além da condenação pelo crime, o promotor havia requerido a perda do cargo público ocupado pelo vice-prefeito e a fixação de indenização em favor do segurança no valor de 50 salários mínimos.

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Frequência de envio: Diário
Ver todasO caso de racismo
Na ocasião, uma confusão se formou entre funcionários das duas equipes na área de acesso aos vestiários e Marcondes foi visto xingando o funcionário. Na versão do clube alviverde, ele teria chamado o homem de “macaco velho”, o que provocou a reação de outro funcionário: “Racismo, não”.
Após inquérito policial e investigações que avaliaram o caso, uma denúncia feita pelo promotor de Mirassol, José Sílvio Codogno, afirma que, em imagens registradas na época, é possível ouvir o vice-prefeito chamando o segurança de “lixo” e “macaco” pelo menos uma vez, com testemunhas que asseguram as ofensas raciais.

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Frequência de envio: Diário
Ver todasNo documento enviado à Justiça, o promotor pede, então, a condenação de Marcondes, além da aplicação de uma multa de, pelo menos, 50 salários mínimos.
“Com efeito, o crime de racismo (denominação que abrange o de injúria racial) é, por si, de altíssima gravidade, tanto assim que é tido como inafiançável e imprescritível”, escreveu o promotor.
Laudo pericial havia negado racismo e IA desmentiu
Dois laudos periciais, realizados durante as investigações, haviam indicado que o vice-prefeito disse “paca veia” ao invés de “macaco velho” ao segurança do Palmeiras durante a confusão após o jogo.
O delegado Renato Camacho, que investiga a denúncia de injúria racial, no entanto, afirma que, após conclusão do inquérito policial e repetições do vídeo, é “praticamente impossível não reconhecer audivelmente que as palavras proferidas são duas palavras de gênero masculino”. As palavras, então, passaram por análise de mecanismo de inteligência artificial e foram identificadas como “macaco velho”.
Denúncia ignora laudo oficial, disse advogado
À época, o advogado Edlênio Xavier havia declarado que “vivemos tempos estranhos” e que a denúncia “ignora o laudo oficial” e “acolhe como prova relatório de inteligência artificial”.
“Estamos vivendo tempos estranhos… já dizia o ministro Marco Aurélio. E não há exemplo mais eloquente do que esta denúncia: ignora o laudo oficial, invoca testemunhas sem dizer o que viram, acolhe como prova relatório de inteligência artificial e ainda ousa arrolar testemunha do juízo. Realmente, estranhos tempos”, declarou Edlênio.









