Quem é Beto Louco, foragido da Carbono Oculto que tenta delação em SP
Alvo da operação Carbono Oculto, Roberto Augusto Leme da Silva, o Beto Louco é acusado de gerenciar fraudes em postos de gasolina
atualizado
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Roberto Augusto Leme da Silva, conhecido como Beto Louco, é um empresário brasileiro acusado de coordenar um ecossistema de fraudes envolvendo o Primeiro Comando da Capital (PCC) e a Faria Lima, principal centro comercial do país. Alvo da operação Carbono Oculto, ele tenta um acordo de delação premiada com o Ministério Público de São Paulo (MPSP).
Foragido há mais de sete meses, Beto Louco é apontado como gestor financeiro do grupo Copape/Aster, que opera a produção e distribuição de combustíveis.
As companhias foram adquiridas em 2020 por R$ 52 milhões para a produção e distribuição de combustíveis, mas teriam sido usadas para lavagem de dinheiro do crime organizado e fraude de créditos tributários, como apontam as investigações.
Junto do sócio Mohamad Hussein Mourad, o Primo (também foragido), Beto Louco integra um grupo que dominava toda a cadeia de produção de combustível, desde as usinas de etanol até postos de gasolina por todo o país. Para baratear a fabricação, o grupo adulterava os combustíveis com a adição de metanol.
Enquanto Primo centralizava a compra de usinas, postos e distribuidoras, sendo considerado o epicentro do esquema, Beto era o responsável por manter o esquema invisível, criando camadas societárias complexas que dificultavam a identificação dos verdadeiros beneficiários, um método inspirado em offshores e shell companies.
O grupo é suspeito de controlar uma rede de mais de 1.200 postos de gasolina, que movimentou mais de R$ 52 bilhões entre 2020 e 2024, com baixa arrecadação de impostos.
Delação premiada
Com um mandado de prisão preventiva expedido, mas fora do radar das autoridades, Beto Louco negocia uma delação premiada com o MPSP. A promotoria, no entanto, tem demonstrado resistência. Uma tentativa anterior de fazer um acordo de colaboração com a Procuradoria-Geral da República (PGR) já foi descartada.
Os investigadores do órgão ministerial cobram detalhes sobre o envolvimento de integrantes do PCC no esquema de fraude, sonegação fiscal e lavagem de dinheiro no setor de combustíveis, revelado pela operação operação Carbono Oculto, e provas que ainda não tenham sido obtidas pelas investigações.
A proposta de colaboração de Beto Louco é negociada pelo advogado do empresário com integrantes dos Grupos de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaecos) de São José do Rio Preto, Piracicaba e Guarulhos, e com o procurador-geral de Justiça, Paulo Sérgio de Oliveira, chefe do MPSP.
A delação premiada é um instrumento legal através do qual um investigado confessa a participação em um crime e denuncia outros integrantes de organização criminosa, apresentando elementos de corroboração, em troca de benefícios legais. A colaboração deve ser voluntária e, em essência, entregar integrantes do andar de cima na hierarquia da organização.
O Metrópoles apurou que entre os itens que constam na proposta apresentada pelo empresário, mantida em sigilo, estão o envolvimento de servidores e magistrados, além da devolução de quase R$ 1 bilhão aos cofres públicos. Seriam pelo menos R$ 400 milhões de ressarcimento ao erário, além de R$ 500 milhões em prestação pecuniária (pagamento para reparação de danos às vítimas).
O entendimento dos promotores é o de que Beto Louco estaria entregando informações já obtidas pelos investigadores, ou que poderiam ser obtidas por meio de outras fontes. O investigado teria admitido as fraudes tributárias, mas sem confirmar que lavou dinheiro para o PCC, como apontam as investigações.
Servidores citados por ele na proposta de delação já teriam sido alvo de outras investigações e a proposta não menciona nenhum agente com foro privilegiado em Brasília.
Procurado pela reportagem, o advogado Guilherme San Juan, que representa Beto Louco, afirmou que as tratativas sobre o acordo de colaboração são sigilosas e que, por isso, não poderia dar detalhes. Ele disse apenas que a investigação que deu origem à Operação Carbono Oculto não teria elementos para comprovar a relação de seu cliente com a maior facção criminosa do país.
A decisão final sobre a celebração do acordo caberá ao procurador-geral Paulo Sérgio, que foi reconduzido ao cargo nesta terça-feira (14/4) pelo governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) após ser o mais votado na eleição interna do MPSP. Ao Metrópoles, ele afirmou que a proposta está em análise.

















