Milícia no Brás: líder de esquema na Feira da Madrugada é preso
Comerciantes no Brás eram obrigados a pagar taxas semanais de R$ 50 a R$ 300. Liderança foi condenada a 23 anos de prisão
atualizado
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Apontado como líder da milícia na Feira da Madrugada, no Brás, região central de São Paulo, Valdson Almir da Silva Ferreira, conhecido como “Duda”, foi preso nesta quinta-feira (26/2) em Alphaville, na Grande São Paulo. Ele foi condenado a mais de 23 anos de prisão por crimes de roubo e extorsão relacionados ao controle da milícia na região do Brás.
O mandado de prisão, emitido pelo Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP), detalha que Duda e outros envolvidos foram responsabilizados por atividades criminosas ligadas à chamada milícia no Brás. A Justiça determinou sua prisão preventiva para cumprimento imediato, e ele foi encaminhado a uma unidade prisional em regime fechado, cumprindo uma pena de 23 anos, 4 meses e 28 dias.
Duda é considerado o líder da milícia, coordenando um esquema de cobrança e intimidação sobre os comerciantes da região. O grupo se estruturava para manter o controle do comércio, garantindo lucro e poder sobre o espaço, por meio de ameaças e imposição de regras próprias.
Milícia no Brás
Como já mostramos no Metrópoles, a Feira da Madrugada era controlada por milicianos que cobravam os comerciantes de forma constante. Segundo relatos obtidos com exclusividade, os lojistas pagavam uma “taxa de segurança” semanal, que ia de R$ 50 a R$ 300, dependendo da área e do grupo que dominava o espaço.
Além disso, os criminosos cobravam pelo aluguel do m² nas calçadas e dos boxes nos centros comerciais e desviavam energia elétrica da Enel para abastecer os estabelecimentos, cobrando pela utilização.
Durante as cobranças, os milicianos frequentemente ameaçavam e agrediam os comerciantes, alegando ser integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC) ou até policiais, sempre portando armas de fogo para intimidar. Investigações posteriores confirmaram a participação de agentes públicos no esquema (leia mais abaixo). As vítimas também relataram ter mercadorias destruídas ou serem expulsas à força caso atrasassem ou não conseguissem pagar os valores exigidos.
Valores da milícia do Brás
A milícia que extorquia comerciantes no Brás utilizava associações e ONGs para cobrar aluguel, taxas de segurança e de energia elétrica. Os valores eram pagos para que os lojistas pudessem continuar atuando no local.
Taxa de adesão na Cooperativa de Trabalho, Produção de Bens e Serviços do Brasil (CoopBrás):
- R$ 500 no momento de se tornar associado.
- Taxas administrativas mensais: externa, para “operacionalidade”, de R$ 120. Interna, de R$ 30.
- Taxa semanal por “segurança” e fornecimento de energia: R$ 50 a R$ 300. A energia elétrica era desviada de postes da Enel por meio de “gatos”.
- Faturamento semanal estimado da CoopBrás: R$ 40 mil a R$ 240 mil (800 associados).
ONG COTA SP:
- Cobrança semanal: R$ 60 por comerciante.
- Associados: 105.
- Faturamento semanal: R$ 6.300.
Associação de Expositores e Comerciantes em Geral (ASSEEXECOM):
- Cobrança semanal média: R$ 100 por comerciante.
- Associados: 150.
- Faturamento semanal: R$ 15 mil.
- Aluguel semanal de dois boxes: R$ 250 e R$ 300.
Associação Circuito das Compras (Acircom)
- Taxa aos associados: R$ 10 mil.
- Aluguel semanal por ponto: R$ 500.
- Segundo o Ministério Público de São Paulo (MPSP), o aluguel de um ponto na Rua Monsenhor Andrade por 20 anos custa R$ 100 mil.
- Número específico de associados não foi apontado pela investigação.
Atuação de policiais
As investigações do Ministério Público de São Paulo (MPSP) mostraram que o esquema de extorsão contava com a participação de agentes públicos, incluindo policiais da ativa, policiais reformados e uma escrivã da Polícia Civil. Todos foram denunciados por integrar o braço armado da milícia e atuar na cobrança de comerciantes.
Esses agentes utilizavam sua posição para intimidar lojistas, garantindo que fossem pagos os valores referentes a taxas de segurança, aluguel de boxes e energia elétrica, fortalecendo o controle da milícia sobre a região central do Brás. Os policiais são acusados de cobrar até R$ 15 mil por ano e R$ 400 por mês de ambulantes. Quando os comerciantes deixavam de pagar, eram encaminhados pelos policiais para agiotas, que cobravam juros de 20% ao mês. Segundo um coronel da Corregedoria da PM, um dos policiais atuava, inclusive, cobrando essas dívidas junto aos vendedores para que a extorsão fosse quitada.




