Episódios de violência escalonaram dias antes da morte da PM Gisele
O tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto foi preso nessa quarta (18/3). Ele é investigado pela morte de sua esposa, a soldado PM Gisele
atualizado
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A investigação do Tribunal de Justiça Militar (TJM) sobre a morte da PM Gisele Alves Santana aponta que o tenente-coronel Geraldo Leite Costa Neto, preso por ter matado a esposa, teria praticado diversas violências contra ela, nas esferas física, psicológica e patrimonial. O mandado de prisão ainda afirma que os “episódios escalonados de agressões físicas, humilhações e controle psicológico, inclusive em ambiente de trabalho, tiveram agravamento paulatino nas semanas que antecederam o fato”.
Gisele foi encontrada baleada na cabeça no apartamento do casal, no Brás, região central de São Paulo, em 18 de fevereiro. A PM foi “abordada por trás, com mão esquerda do agressor na mandíbula/face e arma na mão direita dirigida à têmpora direita.”
O documento destaca o contexto de violência doméstica e familiar que permeava o relacionamento. Colegas de trabalho da vítima descreveram o cenário conturbado entre os envolvidos (leia mais abaixo).
Alguns dos exemplos da violência agravada nos dias anteriores à morte de Gisele citados na apuração do TJM citam mensagens com ofensas, humilhações, controle e ameaça de subjugação, inclusive um episódio de agressão física, em que ele diz ter “enfiado a mão” nela no dia 5 de fevereiro.
Quatro dias antes do ocorrido, dia 14 do mesmo mês, em uma conversa entre a PM e o tenente-coronel, foi encontrada uma mensagem na qual “o investigado teria utilizado sua posição hierárquica para desqualificar profissionalmente a vítima, proferindo ofensas e menosprezando sua condição funcional, chegando a afirmar que ela deveria “arrumar um soldado”, em evidente manifestação de desprezo não apenas à sua condição de mulher, mas também à sua posição dentro da estrutura da Corporação”.
Inclusive, no dia 13 de fevereiro, Gisele Alves Santana teria ligado para os pais chorando muito, falando que não estava mais aguentando a pressão e pediu para o pai buscá-la em casa. De acordo com o depoimento da mãe da vítima, a PM vivia uma relação abusiva com Geraldo Neto e queria se separar do marido.
Além de usar a posição hierárquica para potencializar a violência contra a esposa, o tenente-coronel teria usado o cargo para, no dia do crime, ignorar a recomendação dos agentes presentes no local de não tomar um segundo banho.
Violência física, psicológica e patrimonial
O tenente-coronel Geraldo Leite Costa Neto, suspeito de feminicídio contra a esposa, a PM Gisele Alves Santana, teria praticado diversas violências contra ela, nas esferas física, psicológica e patrimonial, segundo consta no mandado de prisão determinado pelo TJM.
“O conjunto probatório até então produzido revelou indícios de uma relação conjugal profundamente conflituosa, marcada por reiteradas evidências de violência doméstica e familiar. Além disso, foram identificadas condutas atípicas e temporalmente dissonantes atribuídas ao investigado nos momentos anteriores e posteriores ao acionamento das equipes de socorro”, diz a decisão.
O documento aponta que Gisele sofria violência física e psicológica, que se manifestava por meio de ameaças, atos de possessividade, monitoramento constante, inclusive em seu trabalho, e progressivo isolamento social. A PM também era impedida de trabalhar em determinadas circunstâncias, como atuar com colegas homens, que se caracteriza como uma violência patrimonial.
A conclusão do inquérito que resultou na prisão do tenente-coronel destacou que ele se utilizava de sua condição hierárquica no âmbito da instituição militar, um fato determinante para a potencialização da violência. “Nesse sentido, é possível afirmar que parte significativa das condutas violentas foi concretizada ou intensificada justamente em razão da ascendência hierárquica exercida pelo investigado.”
A decisão da Justiça Militar ainda cita que o episódio não é apenas um crime militar praticado por um oficial contra uma subordinada e nem somente um conflito doméstico entre militares. “O que se evidencia é algo mais grave: a prática de violência doméstica em que a autoridade estatal, simbolizada pela posição hierárquica do agressor, acabou por reforçar e ampliar o desequilíbrio de poder existente na relação conjugal, tornando ainda mais vulnerável a posição da vítima“.
Testemunhas revelam relação conturbada
No documento do TJM também consta que as testemunhas escutadas durante a investigação do caso relataram que o relacionamento do casal era marcado por episódios de ciúmes e comportamento controlador do tenente-coronel.
“Segundo colegas de trabalho da vítima [Gisele], coronel Neto frequentemente comparecia ao local de trabalho de Gisele, mesmo não possuindo qualquer atribuição funcional naquele ambiente.”
Uso da posição hierárquica para dominar a esposa
A decisão da Justiça Militar aponta também que o tenente-coronel não se valeu de sua posição hierárquica na corporação apenas no dia do crime, mas também como instrumento de dominação e violência contra a esposa Gisele Alves Santana no dia a dia do relacionamento.
Testemunhas ouvidas pela investigação contaram que o oficial ia frequentemente ao local de trabalho da vítima e usava de sua autoridade para entrar e permanecer por longos períodos observando as atividades dela, causando até constrangimento à equipe. Além disso, o tenente-coronel teria proibido a mulher de trabalhar com colegas homens e menosprezava a posição da esposa.
Ele já havia sido condenado por abuso de autoridade contra uma subordinada por um episódio de 2022, quando ainda era major e comandante do 29º Batalhão da Polícia Militar (29º BPM/M).
Morte de PM Gisele levou à prisão de tenente-coronel
- A policial militar Gisele Alves Santana, de 32 anos, foi encontrada gravemente ferida na manhã de 18 de fevereiro, dentro do apartamento onde vivia com o marido no Brás, região central de São Paulo.
- Ela foi socorrida por equipes do Corpo de Bombeiros e levada pelo helicóptero Águia da PM ao Hospital das Clínicas, onde morreu horas depois, em decorrência de traumatismo cranioencefálico provocado por disparo de arma de fogo, conforme o atestado de óbito.
- Inicialmente, o caso foi tratado como suicídio consumado, mas depois foi alterado para morte suspeita, com “dúvida razoável” de tratar-se de suicídio.
- Com o avanço das análises periciais e a reconstituição da sequência de acontecimentos dentro do imóvel, a Polícia Civil concluiu que a dinâmica do disparo não corresponde à hipótese de suicídio inicialmente apresentada.
- Com base nesse conjunto de elementos, a Justiça autorizou a prisão do tenente-coronel, que passou a responder pela morte da policial militar.
- A Polícia Civil solicitou à Justiça, em 17 de março, a prisão preventiva do tenente-coronel.
- O pedido sucedeu a conclusão, com base em perícia técnica, de que ele seria o principal suspeito pela morte da esposa.
- A Justiça Militar do Estado de São Paulo decretou a prisão preventiva do tenente-coronel da Polícia Militar Geraldo Leite Rosa Neto nesta quarta-feira (18/3).
- Ele foi preso no mesmo dia em um condomínio residencial de São José dos Campos, no Vale do Paraíba.
A prisão ocorreu após o avanço das investigações conduzidas pelo 8º Distrito Policial (Brás), que analisaram laudos periciais, depoimentos de testemunhas e registros das primeiras horas após o disparo que atingiu a policial militar (veja mais abaixo). Segundo os investigadores, os elementos reunidos indicam que a dinâmica do caso não é compatível com a versão inicial apresentada pelo oficial, que desde o início sustentava que a esposa teria cometido suicídio.
Prisão do coronel
O tenente-coronel, de 53 anos, foi preso na manhã dessa quarta-feira em condomínio residencial em São José dos Campos, no interior paulista. A prisão preventiva dele foi decretada pela Justiça Militar de São Paulo após um pedido da Polícia Civil feito na terça-feira (17/3).
A decisão da Justiça Militar que autorizou a prisão do tenente-coronel também determinou a apreensão de aparelhos celulares, a quebra de sigilo de dados eletrônicos e o compartilhamento de provas com a Polícia Civil, que conduz investigação paralela.
Segundo a Justiça Militar, a prisão do tenente-coronel foi decretada com base na garantia da ordem pública, na conveniência da instrução criminal e na necessidade de preservação da hierarquia e disciplina militares. O magistrado destacou o risco de interferência nas investigações, inclusive pela possibilidade de influência sobre testemunhas, além da gravidade concreta dos fatos apurados.
Geraldo Leite Rosa Neto deverá ser submetido a uma audiência de custódia.
O que diz a defesa do coronel
O advogado Eugênio Malavasi, que defende o tenente-coronel, questiona o mandado de prisão expedido pela Justiça Militar, já que, “se houve a imputação de feminicídio e fraude processual, foi no âmbito privado, e não no âmbito da Justiça Militar”.
“Entendo que a Justiça Militar não é competente para o decreto preventivo”, argumentou Malavasi.
O dia do disparo
Gisele foi encontrada gravemente ferida na manhã de 18 de fevereiro, dentro do apartamento onde vivia com o marido. Ela foi socorrida por equipes do Corpo de Bombeiros e levada pelo helicóptero Águia da PM ao Hospital das Clínicas, onde morreu horas depois, em decorrência de traumatismo cranioencefálico provocado por disparo de arma de fogo, conforme o atestado de óbito.
Desde o início da investigação, depoimentos colhidos pela polícia e registros das primeiras horas após o tiro passaram a levantar dúvidas sobre a narrativa apresentada pelo coronel.
Socorristas relataram que encontraram o oficial no corredor do prédio quando chegaram ao local, enquanto a vítima estava caída na sala do apartamento, com grande quantidade de sangue na região da cabeça. Testemunhas também afirmaram não ter visto manchas de sangue nas mãos ou nas roupas do militar, detalhe que passou a ser analisado pelos investigadores.
Outro elemento considerado pelos investigadores foi o intervalo entre o disparo ouvido por vizinhos e as ligações feitas pelo coronel às centrais de emergência. Uma moradora do mesmo andar afirmou ter sido acordada por um forte estrondo às 7h28, enquanto o primeiro telefonema registrado pelo oficial, solicitando socorro, ocorreu às 7h57.
Imagens de câmeras de segurança mostram que o desembargador Marco Antônio Pinheiro Machado Cogan, amigo do coronel, foi até o prédio e chegou a entrar no apartamento acompanhado do oficial após a retirada da vítima. O local ainda não havia sido periciado.
Depoimentos indicam ainda que o coronel tomou banho e trocou de roupa antes de deixar o imóvel, comportamento que também passou a ser analisado no curso das investigações.



















