Perícia confirma que PM colocou arma ao lado de corpo de jovem morto. Vídeo
Laudo confirma que agente empurrou arma para cena do crime. Defensoria diz que PMs tentaram incriminar vítima para alegar legítima defesa
atualizado
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Um laudo pericial confirmou que o policial militar Ivo Florentino dos Santos alterou a cena do crime após balear e matar o entregador Gabriel Ferreira Messias da Silva, na zona leste da capital paulista, em novembro de 2024. O documento, feito pelo Instituto Criminalística da Polícia Técnico-Científica de São Paulo, conclui que o agente empurrou uma arma para o local onde o jovem caiu após ser atingido.
A perícia analisou as imagens das câmeras corporais dos quatro agentes envolvidos na ação depois que a Defensoria Pública de São Paulo, que representa a mãe do jovem, contestou a versão apresentada pelos PMs para a investigação.
Os agentes disseram que Gabriel estava armado, pilotava uma moto sem placa e fugiu após cruzar com a viatura. Segundo essa versão, o entregador teria sacado a arma, após perder o controle da moto, momento em que o sargento Ivo atirou de dentro da viatura, em legítima defesa.
A Defensoria alegou, no entanto, que as câmeras corporais dos PMs mostravam que não havia arma próxima à Gabriel ou à moto no momento em que os agentes descem da viatura. Segundo o relatório do órgão, a movimentação indicava uma possível tentativa de fraude processual, com a implantação de uma arma para incriminar Gabriel.
O Departamento Estadual de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP), que investiga o caso, solicitou, então, uma análise da perícia sobre as imagens, que foi finalizada em outubro.
O que diz o laudo da perícia?
- No laudo pericial, ao qual o Metrópoles teve acesso, a perita Luana Maria Garcia de Lima confirma que “não é possível visualizar um objeto com características semelhantes a uma arma de fogo próximo a motocicleta” nas cenas filmadas logo após a chegada dos policiais.
- A análise confirma que a arma surge nas imagens momentos depois.
- “É possível visualizar um policial militar empurrando com o pé direito, um objeto com características semelhantes a uma arma de fogo para mais próximo da motocicleta”.
- Segundo o laudo, “houve alteração de posicionamento do objeto com características semelhantes a uma arma de fogo”.
O laudo foi citado pelo delegado Adriano Menechinio ao decidir pelo indiciamento dos quatro policiais envolvidos no caso. “A análise detida das gravações revela incongruências relevantes com o relato dos policiais”, afirma o delegado no inquérito, em que diz ainda que “elementos robustos colocam em xeque a versão apresentada pelos PMs”.
Um desses elementos é o depoimento de testemunhas. Uma delas, protegida pela investigação, afirma que viu um dos policiais “se agachando e colocando rapidamente algo do lado de Gabriel”. Outra, também protegida, diz que viu quando um dos policiais pegou algo dentro da viatura e falou para o outro policial ‘achei, achei’.
O sargento Ivo Florentino dos Santos, que atirou em Gabriel, foi indiciado por homicídio e fraude processual. O cabo Evanildo Costa de Farias Filho e os soldados Ailton Severo do Nascimento e Gilbert Gomes dos Santos, que estavam na ocorrência, também foram indiciados por fraude processual.
Apesar da decisão pelo indiciamento dos quatro policiais, no entanto, não há previsão de quando o inquérito será finalizado e, principalmente, de quando os policiais serão julgados. Em nota, a Secretaria da Segurança Pública (SSP) diz que as investigações da Polícia Civil “estão em fase de conclusão”. Segundo a pasta, os agentes “seguem afastados das atividades operacionais” – na prática, isso significa que os PMs estão em funções administrativas, por enquanto.
Relembre o caso
- Gabriel morreu durante uma perseguição policial, na Vila Silvia, zona leste da capital paulista, em novembro de 2024. Os PMs que atenderam a ocorrência disseram que Gabriel teria caído ao fazer uma curva e, ao levantar-se, sacou uma arma de fogo. Neste momento, o sargento Ivo Florentino dos Santos teria disparado de dentro da viatura.
- Gravações das câmeras corporais mostram, no entanto, que não há nenhuma arma próxima de Gabriel ou da moto que ele pilotava quando os agentes se aproximam do jovem.
- Às 23h18, duas câmeras mostram o policial Ailton Severo do Nascimento se abaixando ao lado da moto. Segundo relatório da Defensoria, neste momento o agente “parece dar uma instrução de como colocar uma arma no chão”. No minuto seguinte, Ivo “parece colocar a arma no chão, ao lado da motocicleta”, de acordo com o relatório.
- Na sequência, é possível ver, pela câmera do policial Ailton, o sargento Ivo empurrando uma arma com o pé para debaixo da moto.
- O momento em que Ivo empurra a arma é flagrado também pelos aparelhos do próprio Ivo e do policial Gilbert, que registraram o som do objeto sendo arrastado.
- As imagens também filmaram Gabriel, ainda vivo, implorando por ajuda após ser baleado. No vídeo, ele diz para um agente: “Eu sou trabalhador, senhor, pra que isso comigo, meu Deus? Me ajuda, senhor, por favor”.
IPM favorável aos policiais
Os policiais também foram alvo de um inquérito policial militar (IPM), conduzido pela própria corporação. O IPM, no entanto, foi encerrado ainda em janeiro de 2025 e concluiu pela legalidade da atuação dos policiais.
O tenente Wesley Vinícius Martins Silva, responsável pelo procedimento, defendeu que não havia necessidade de prisão preventiva dos agentes.
“Verifica-se que há elementos de convicção suficientes e juízo de cognição sumária demonstrando que a ação dos policiais militares em tela está pautada na preservação da ordem pública e integridade física dos agentes, portanto, encontra-se amparada na excludente de ilicitude”, concluiu o tenente.
A Corregedoria da Polícia Militar não participou da apuração do caso. O Metrópoles questionou a Secretaria da Segurança Pública por que a investigação não foi conduzida pela Corregedoria, mas a pasta não quis comentar.
“Injustiça”
Para a mãe de Gabriel, Fernanda Ferreira, o sentimento é de injustiça.“Os meses vão passando, a gente vê a injustiça, e nada acontece. O laudo da perícia comprova que ele [o sargento Ivo] colocou a arma no Gabriel, que o Gabriel não tinha nada. Eu não entendo por que a corregedoria não tá com casos desses. Por que que não pediu a prisão desse homem?”.
“Meu filho mais velho sai pra trabalhar e eu tenho medo dele não voltar, dele encontrar esse assassino. Porque se esse policial não fosse perigoso, ele não tinha feito o que ele fez. Ele não se intimidou nem com as câmeras corporais”, diz a mãe.
A recepcionista faz um apelo: “Eu só queria que o governador olhasse o meu apelo de mãe, e visse que o que eu tô pedindo não é injusto. Eu só quero justiça, eu só quero honrar a memória do meu filho, porque a todo tempo eles querem fazer meu filho de ladrão”.
O Metrópoles entrou em contato com a defesa de Ivo, Ailton, Gilbert e Evanildo. Em nota, o advogado Eliel dos Santos, que representa Gilbert, disse que “seu cliente agiu estritamente dentro da legalidade, não havendo nenhuma irregularidade em sua conduta, circunstância que será demonstrada no curso do processo”.
O escritório de João Carlos Campanini, que faz a defesa de Ailton e Evanildo, disse que não vai se manifestar. A defesa de Ivo não retornou até o fechamento deste texto. O espaço segue aberto.










